Feijãozinho da mamãe, roupa passada no armário, privacidade. Essas são as três primeiras coisas das quais os estudantes se despedem quando saem de suas casas, geralmente no interior, para vir morar na capital. Curitiba, portadora de uma das maiores universidades do país, é bastante hospitaleira — e recebe estudantes de todos os cantos. Tem gente de outras cidades do Paraná, de estados mais distantes e de outras capitais.
Quem não tem parentes morando por aqui, tem que dar um jeito. E onde é que eles se acomodam? Geralmente, ou é o pensionato ou a república. O primeiro é uma casa, regida por um responsável, que disponibiliza um quarto ou uma cama em troca de uma pequena mensalidade. Alguns pensionatos oferecem refeições, que podem ser pagas à parte ou incluídas na mensalidade, e geralmente as regras são rígidas e existem restrições bem definidas quanto a horários e visitas.
Já a república, na maioria das vezes, é composta por quatro ou cinco amigos e um apartamento. Nela, as regras são decididas em consenso pelos moradores e a liberdade é maior, mas os custos também sobem. Não há cozinheira ou lavanderia, como geralmente há nos pensionatos, e cada um deve comprar e fazer seu próprio almoço se não quiser almoçar fora.
Os fatores que fazem decidir por um ou por outro variam, mas o principal é o financeiro. Célio Nunes, de 19 anos, mora em Niterói, no Rio de Janeiro, e está procurando um lugar pra ficar em Curitiba. “É complicado um estudante ter grana pra se manter em uma cidade estranha”, diz o rapaz, que está em dúvida entre dividir um apartamento no centro ou ficar em um pensionato.
Lar, doce lar
Às vezes, conseguir estabilidade morando fora de casa fica difícil. Rafael Costa veio de Blumenau em 2005 para estudar na UFPR. Morou seis meses em pensionato, trancou o curso e foi para Florianópolis fazer Design. Lá, mais seis meses em pensionato. Voltou para Curitiba em 2006: um ano de apartamento divido com um amigo. Saiu e hoje mora em uma república, que diz ser provisória. “O apartamento atual é pequeno, precisamos de um espaço maior, já que temos uma banda e estamos procurando um lugar onde dê para ensaiar”, conta. Após sair de casa, Rafael começou a ser mais responsável com a própria rotina, “horário para dormir, para estudar”, diz. As tarefas simples, como lavar e passar a roupa, também exigem atenção: “Desde 2005, ando bem amassado”, brinca o estudante.
Falta de privacidade é outro problema comum quando se divide o quarto. Mariana Velmist, estudante de Educação Física, já se incomodou enquanto morava em república. “Mexeram nas minhas roupas, na minha bolsa, mas não descobri quem foi”, diz a estudante, que, apesar de tudo, alega haver uma organização nas repúblicas. “A cozinha geralmente fica pras meninas. Os meninos fazem os trabalhos pesados, como instalações e manutenção”.
Entre os alunos da UFPR, não é raro gente que habite as Casas de Estudantes. Para as meninas, existe a Casa da Estudante Universitária de Curitiba (Ceuc), próxima à reitoria. Os meninos ficam na Casa do Estudante Universitário (CEU), ao lado do Passeio Público. André Boaventura mora lá há um ano e quatro meses, desde que entrou na UFPR. Ele divide o quatro com o primo e confessa que quando chegou pensou que fosse ver mais festa. “São pessoas mais velhas e que não gostam de bagunça”, diz sobre os moradores da CEU. Outra novidade para André foi ter que investir dinheiro no quarto. “Quando cheguei aqui, consertei a porta, a pia, construí o mezanino”, lembra. Apesar desses detalhes, André não pensa em sair dali. “A CEU é uma mãe pra mim, tem lavanderia barata, café da manhã e almoço aos domingos”, afirma.
A Ceuc reúne 108 moradoras em 36 quartos. O custo mensal para cada uma é de 25 reais. A direção da casa é regida pelas próprias moradoras, que arcam com despesas como gás, material de limpeza, funcionárias e telefone. Manutenções e despesas com água e luz são pagas pela UFPR. As estudantes aprovaram em março último que hóspedes podem pernoitar na casa até três vezes por mês, caso as colegas de quarto sejam avisadas e aprovem até às dez horas da noite de hospedagem.
A CEU conta com 390 vagas para estudantes. Desde janeiro de 2007, quando foi firmado um convênio entre a Casa e a UFPR, cem dessas vagas estão destinadas ao programa de auxílio moradia da Universidade. A banca para admissão de novos moradores aconteceu no dia 31 de março, e a recepção dos selecionados começou no mês de abril. E embora pelas regras da casa um convidado possa dormir até quatro vezes por mês, poucas vezes são cobradas satisfações. O convênio da CEU com a universidade tem duração inicial de quatro anos, período em que a UFPR garantirá recursos de moradia para os cem estudantes. O dinheiro, conseguido junto ao MEC em quatro parcelas, foi contabilizado em 816 mil reais.
Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU) – Rua Luiz Leão, 01, Centro, Curitiba. Contato: (41) 3222-4911 ou ceu@cce.ufpr.br.
Casa da Estudante Universitária de Curitiba (Ceuc) – Rua General Carneiro, 360, Centro, Curitiba. Contato: (41) 32646244.
Procura-se quarto
Procurar o lugar certo não é nada fácil. Mais complicado ainda quando se está fora da cidade. Foi pensando nisso e em todas as dificuldades que surgem quando o assunto é se mudar — e se mudar sozinho — que o analista de suporte Luiz Duda, 23 anos, criou em outubro de 2006 o website Repúblicas do Brasil (www.republicasdobrasil.com). O portal contém desde artigos sobre a experiência de dividir moradia até anúncios e classificados, e disponibiliza a oferta de vagas para todo o Brasil. Luiz chegou em Curitiba com 16 anos e desde então divide moradia. De acordo com ele, a maior dificuldade quando se pensa em sair de casa para morar em outra cidade é conseguir encontrar um bom lugar e boas companhias. Luiz acredita que o site tem ajudado os estudantes.
Autor de oito artigos no Repúblicas do Brasil, o jornalista Frederico Augusto Queiroz saiu de Araguari (MG) para estudar em Uberlândia. Sua primeira experiência foi em pensionato, onde morou por seis meses. Aprovado no vestibular, mudou de cidade e também de casa. Passou a morar em república. De um lugar a outro, foram treze anos divididos entre repúblicas e pensionatos. Frederico falou ao Comunicação On-line sobre seus artigos e experiências.
Comunicação — Você tem oito artigos publicados no site Repúblicas do Brasil. Quando começou a escrever sobre o assunto?
Frederico Queiroz — Na verdade, todos aqueles textos já estavam prontos há mais ou menos sete anos. A minha intenção era lançar um manual para solteiros, descasados e afins, mas o projeto foi engavetado. Navegando pela internet descobri o site, que estava precisando de colunistas. Como eu já tinha todo aquele material pronto, resolvi aproveitar para disponibilizá-lo.
Comunicação — Você disse que começou a escrever com base nas suas experiências de morar fora, dividindo a casa. Que experiências viveu?
FQ — Foram muitas. Pensionato foi a primeira. Morei por seis meses com o meu irmão. Então fui aprovado em Jornalismo e fui morar em uma república. Primeiro, morei com uma prima e mais umas amigas. Depois, fui para um pensionato, onde conheci três rapazes que queriam sair de lá. Alugamos e mobiliamos um apartamento, onde morei por mais um ano. O mais difícil é você ter que encarar hábitos e costumes diferentes dos seus. Por exemplo: você é organizado e o outro deixa toalha molhada em cima da cama, meia espalhada pelo quarto, roupa íntima pendurada na torneira do banheiro. Morar com alguém é como um casamento, ou você aceita o outro como ele é ou então cai fora. Isso foi bem difícil.
Comunicação — Você acha que hoje os pais estão mais à vontade pra deixar seus filhos estudarem e morarem fora?
FQ — Acredito que não. Pai nenhum está. Acho que a necessidade faz com que eles aceitem a idéia. Morei fora de casa vários anos. Há sete voltei a morar com os meus pais. Minha primeira experiência fora de casa foi em 1988. Hoje, tenho 38 anos, sou solteiro e moro com os meus pais. Em 2001 perdi o meu emprego, quando fui obrigado a voltar a morar com eles. Em 2004, fui para os Estados Unidos, mas a minha ida não deu nada certo. Voltei a morar com eles no mesmo ano e aqui estou. Na hora certa quero sair novamente para morar só.
Comunicação — O que você recomenda para quem está se preparando para dividir moradia?
FQ — Antes de tudo, é preciso ter o pé no chão, objetivos definidos, saber o que você quer. Ter pensamentos firmes e direcionados para os seus propósitos. É preciso não se iludir com as facilidades de cada momento, a liberdade custa muito caro. É preciso ter método, hora para tudo, muita resistência. Morar fora de casa não é fácil, é preciso resistir, é preciso ter garra, coragem e muita força.
Confira aqui o artigo de Heliberton Cesca sobre a Casa do Estudante Luterano Universitário.