Lançado no Reino Unido em 23 de agosto de 1963, o single She Loves You, dos Beatles, chegou aos ouvidos de Marco Antônio Mallagoni no mesmo ano, graças a um amigo do pai que trouxe o compacto da música diretamente da Inglaterra. Bastou ouvir a canção – que já era sucesso absoluto na terra da Rainha – para que ele se tornasse fã do Fab Four.
Em 1979, após sair de outro fã-clube, Mallagoni foi incentivado por amigos a continuar neste universo. E assim ele criou o Revolution9, atualmente um dos maiores fã-clubes brasileiros da banda. Para fundá-lo, ele viajou aos Estados Unidos, conheceu fã-clubes norte-americanos, viu como funcionavam e aplicou o know-how aqui.
“O processo de criação de um fã-clube requer cuidados que vão desde a escolha de um nome adequado e que tenha apelo até um ‘estudo de concorrência’, considerando grupos semelhantes e por vezes até sugerindo parcerias e fusões”, explica Mallagoni.
Para progredirem, organizações como fã-clubes adotam uma postura empresarial que demanda atenção e dedicação constantes dos administradores. “É difícil e toma o dia todo, fazemos questão de responder a todos os e-mails e atender telefonemas para passar informações corretas”, conta o fundador e presidente do Revolution9.
Outro fã-clube bastante popular – e reconhecido entre os fãs da série Harry Potter - é a Armada Hogwarts, que foi criado em 2007, depois que Vicky Martini, de 28 anos, voltou de Londres. Lá ela participou da festa pós-première do quinto filme e teve a chance de conhecer a equipe técnica que produziu os filmes, os atores e a própria J. K. Rowling, autora da saga. Mas foi Lucas Chagas, também de 28 anos, que sugeriu a ela a fundação do fã-clube, para que as experiências pudessem ser divididas e chegassem a mais fãs.
De acordo com Chagas, o maior desafio para quem administra um fã-clube é agradar o público: saber o que os fãs querem e buscar dentro de atividades recorrentes um caráter de inovação, para manter sempre alto o nível de interesse dos participantes. “O retorno pessoal que temos é muito satisfatório, trabalhamos com o que amamos e é isso que nos impulsiona, além de podermos ter experiências em diferentes áreas e conhecer pessoas incríveis”, comenta.
O Minsane, site dedicado aos fãs da pop-star Madonna, é conhecido no mundo todo e já publicou uma entrevista exclusiva com a cantora, que declarou ficar muito feliz com a forma com que o portal é conduzido e com as notícias que são publicadas. A fundadora do Minsane, Patrícia Prudente, comemora o sucesso do fã-clube - atualmente o maior em homenagem à artista na América Latina em número de associados – e conta que o crescimento aconteceu por causa da Internet. “Fomos fazendo amigos em todo o mundo graças ao espaço virtual. O site tornou-se conhecido em países que eu nem sabia que existia”, diz.
Muito além da troca de figurinhas
Algumas das atividades mais importantes promovidas pelos fã-clubes são os eventos, encontros e viagens. A programação e a periodicidade variam de acordo com a sua natureza (banda, ator/atriz, série de livros, filmes, cantor/cantora), mas a intenção é sempre aproximar os fãs em inciativas que vão de shows, peças de teatro, palestra e brincadeiras a viagens e grandes feiras e convenções.
A maior dificuldade para a organização desses encontros é, muitas vezes, a falta de dinheiro e patrocínio. Vicky fala que existem empresas que sustentam a imagem de que um fã-clube é feito por crianças que desejam expor seu amor por determinado assunto, e isso gera um certo receio por parte dos empresários quando o fã-clube vai atrás de apoio. “Quase nunca surge um patrocinador que queira bancar um evento. A gente tem que fazer na raça, senão não acontece nada”, reclama Mallagoni.
Existem, no entanto, provas da importância que os fã-clubes têm para manter determinada marca em evidência. Nos Estados Unidos, por exemplo, essas associações são a base para eventos gigantescos, como a Comic Com, convenção anual que reúne em São Diego, na Califórnia, milhares de fãs de quadrinhos, ficção científica, anime, mangá, vídeo-games, séries de TV e livros de fantasia.
Loucura de fã
Nilia e Paulo Pepe são membros do Revolution9 há 32 anos e afirmam que o fã-clube lhes proporcionou experiências muito gratificantes, além de novas informações sobre os Beatles vindos de outros membros. “O Revolution9 contribui para que saibamos em primeira mão novidades sobre os eventos, shows, turnês e viagens”, contam.
Lucas Chagas e Vicky Martini, da Armada Hogwarts, chegaram a se mudar para Londres para o lançamento do último filme da saga Harry Potter. Lá eles dizem ter encontrado um grupo de fãs fervorosos e ansiosos para discutirem toda a série.
Os fundadores do fã-clube do bruxo ressaltam, entretanto, que as atividades podem atrapalhar a vida pessoal e profissional, interferindo no tempo dos estudos, por exemplo. Outro fator importante, segundo eles, é saber separar os laços de amizade com outros administradores, das obrigações e responsabilidades de cada um. “De um lado, precisamos de comprometimento e cumprimento de prazos, e de outro estamos lidando com pessoas que não têm vínculos empregatícios com o fã-clube. Aprender a gerenciar esses conflitos foi um grande desafio”, explicam.