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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Cultura | Publicada em 08/05/07 às 14h33

Criando universos

Dupla de brasileiros é indicada a Oscar dos quadrinhos
Reportagem Pedro Augusto Souza
Edição Aline Baroni
Divulgação
Ilustração de Fábio Moon:
Ilustração de Fábio Moon: "sabemos que temos a mesma dedicação e o mesmo comprometimento com o nosso trabalho e que não vamos ter preguiça de dar o nosso máximo"
Divulgação
Ilustração de Gabriel Bá:
Ilustração de Gabriel Bá: "Íamos a um sebo trocar os gibis velhos por novos todo mês, até que um dia começamos a nos importar com os personagens"

Gabriel Bá e Fábio Moon classificam a si mesmos como “contadores de histórias”. Formados em artes plásticas, os irmãos gêmeos fazem quadrinhos e já publicaram suas criações em diferentes países, entre eles Brasil, Itália e Estados Unidos. Foi nesse último, inclusive, que alcançaram um reconhecimento inesperado, a indicação ao Will Eisner Comic Industry Award, o mais importante prêmio do mercado norte-americano, na categoria de melhor publicação de material estrangeiro. Em entrevista ao Comunicação On-Line, eles falam do início da carreira, das dificuldades de ser quadrinista, do trabalho em família e outros assuntos ligados a esse mundo de arte e imaginação.

Comunicação: Quando surgiu o interesse de vocês por quadrinhos?

Fábio: Desenhamos desde crianças. Começamos aos dois anos e não paramos mais. Nossa mãe gostava de ler quadrinhos, então sempre os tivemos em casa. Desenhar e criar personagens foi algo que encontramos nos quadrinhos e levamos para o relacionamento de irmãos gêmeos, criando um "mundo paralelo" de criação de universos.

Gabriel: Íamos a um sebo trocar os gibis velhos por novos todo mês, até que um dia começamos a nos importar com os personagens. Desde então, começamos a colecionar as revistas e acompanhar as histórias. Os quadrinhos começaram a fazer parte da nossa vida.

Comunicação: E como esse interesse se tornou profissional?

Fábio: Acho que no momento em que descobrimos as revistas dos autores nacionais como Laerte, Angeli e Luis Ge. Descobrimos essa geração de autores que tem uma opinião e visão do mundo e a colocam nos quadrinhos. Isso era diferente dos super-heróis e era também diferente das revistas do Maurício de Souza ou da Disney. Era tão interessante quanto literatura e tinha desenho. Aí chegou o Will Eisner e pronto. Não tínhamos mais dúvidas.

Gabriel: Acho que o dia que lemos "O Edifício" do Will Eisner, vimos uma história onde os personagens tinham vida, tinham alma, sem precisar de super poderes. Eram gente de verdade, sofrendo e se apaixonando. Isso nos marcou muito.

Comunicação: Sei que vocês são ambos formados em artes plásticas. É necessário fazer algum curso especial para começar a criar histórias em quadrinhos ou basta a paixão?

Fábio: O necessário é que o artista nunca pare de estudar, nunca perca a curiosidade por aprender, por melhorar. A paixão é coisa do momento criativo. É muito importante, pois tudo começa aí, mas a produção precisa de disciplina e de muita repetição. O ambiente de estudo estimula esse treinamento. Você vai ficar meses trabalhando na mesma história, por isso precisa "aprender" que o trabalho é sério, não uma paixão momentânea.

Gabriel: Na faculdade, aprendemos que inspiração sem técnica e crítica não adianta pra nada. Nós levamos isso para os quadrinhos, essa seriedade em relação ao nosso trabalho.

Comunicação: Trabalhar em dupla, ainda mais entre irmãos, é positivo? Ajuda ou atrapalha?

Fábio: Para a gente é positivo porque somos irmãos, temos as mesmas referências, a mesma história pessoal e a comunicação é muito rápida. Também sabemos que temos a mesma dedicação e o mesmo comprometimento com o nosso trabalho e que não vamos ter preguiça de dar o nosso máximo. Temos liberdade para criticar o trabalho do outro sempre, temos intimidade para cobrar sempre o melhor do outro, sem medo prejudicar a parceria ou machucar egos.

Gabriel: Trabalhar com alguém é bom porque você pode mostrar o processo para o outro e ter um retorno do que funciona ou não. Você tem sempre o outro lado, nunca está sozinho nas suas decisões. A profissão de quadrinista é muito solitária e esse retorno é muito positivo, principalmente quando é crítico e aponta os seus defeitos que, sozinho, você não enxergaria. Mas é muito difícil e só funciona no nosso caso porque somos irmãos e colocamos o trabalho em primeiro lugar.

Comunicação: Vocês costumam dividir tarefas? Um fica responsável pela arte e outro pelo roteiro?

Fábio: Hoje em dia, dividimos o roteiro e escolhemos qual dos dois vai desenhar. Às vezes, um só escreve tudo e o outro só desenha. Não queremos dividir o desenho, pois seria como criar uma terceira cara, um terceiro estilo, que não seria nem de um e nem de outro. Achamos que o estilo do desenho é mais importante do que os dois participarem do desenho.

Comunicação: Quais as principais dificuldades encontradas por quem quer fazer quadrinhos?

Fábio: A principal dificuldade é perceber que o tempo do quadrinista é muito diferente do tempo do leitor. Você lê um álbum em uma hora, mas faz uma página por dia. Seu álbum vai levar meses para ficar pronto. É preciso muita paciência para esperar o trabalho ficar pronto sem desistir no meio. Você precisa acreditar muito no que você está fazendo para valer a pena.

Outra grande dificuldade também tem a ver com tempo. O tempo que você precisa para se tornar bom no que faz. São meses produzindo cada história e as primeiras, depois de meses, serão ruins. Somente depois de várias histórias ruins e, somente aprendendo com os erros cometidos, é que os quadrinistas vão melhorando. Apesar disso, muitos quadrinistas desistem no meio do caminho, enquanto ainda não estão bons o bastante, porque às vezes esse tempo de espera é grande.

Gabriel: A maior dificuldade é descobrir que tudo depende de você. A história só ficará pronta se você sentar e fizer tudo. Se você não terminar, a culpa é sua, não do seu outro trabalho ou das contas que você tem pra pagar. Se a história ficar ruim, a culpa é sua, não do leitor que não entendeu ou do editor que não gostou. Se você não acreditar na sua história, ninguém vai. Seu sucesso só depende de você, assim como o fracasso.

Comunicação De onde surge inspiração para os roteiros?

Fábio e Gabriel: De tudo. Dos livros, dos filmes, da nossa vida e da dos outros. Das mulheres.

Comunicação: Vocês costumam discutir muito um projeto antes de passar para a prática?

Fábio: Sim. Nós dois precisamos gostar muito do projeto para que ele saia da cabeça e vá para o papel. São meses produzindo cada história, então escolhemos muito bem como vamos passar esse tempo.

Gabriel: Discutir os projetos, desenvolver as histórias a partir de idéias, é a parte que dá mais trabalho, mais difícil, principalmente porque precisa agradar os dois. Depois disso, desenhar a história é a parte mais fácil, mesmo que demore muito mais tempo.

Comunicação: Quais são os filmes e estilos musicais preferidos de vocês? Eles influenciam a criação?

Fábio: Gostamos de um bom filme e de boa música. Somos muito ecléticos. A música e os filmes são parte da mistura de tudo que absorvemos e colocamos no trabalho. Um bom rock, um bom samba, tudo ajuda se for na hora certa. Na hora de trabalhar, silêncio.

Gabriel: Somos fãs de um história bem contada, não importa o meio ou o gênero. Com a música a mesma coisa. Se fizer o corpo balançar, a imaginação voar e o sorriso abrir, será bem vinda.

Comunicação: O título “10 pãezinhos” é uma referência ao valor da revista [lançada em 1997]? Até o último exemplar seu preço foi R$0,50?

Gabriel: O título refletia o conteúdo das histórias, a idéia da revista, não o preço.

Fábio: Nosso intuito foi criar um nome que tivesse a ver conosco, com a nossa realidade, com o nosso dia-a-dia, pois contamos histórias cotidianas. O nosso cotidiano era comprar dez pãezinhos no café da manhã todas as manhãs, e essa rotina ao qual todos se acostumam era o que queríamos para o fanzine. O fanzine começou custando R$ 0,50 e chegou a custar R$1,50.

Comunicação: Há preferência entre os trabalhos de vocês? Algum que se orgulhem mais?

Fábio: Gostamos de todos os nossos livros. Eles são um retrato do que estávamos querendo e vivendo na época e isso sempre nos trará uma impressão positiva de cada um deles. Lançar o "De:TALES" nos Estados Unidos foi especialmente especial, pois foi o nosso maior passo para contar nossas histórias lá fora. Ver "O Alienista" na mão nos deu uma sensação de amadurecimento do trabalho muito grande.

Gabriel: Nossa história mais querida é o "Meu Coração, Não Sei Por Quê", nossa história de amor com final feliz. Sempre nos aquece o coração relembrar esta história, o que nos motivou a contá-la, o que ela significa. Acho que por estes motivos todos ela já foi publicada em inglês e italiano. Todo mundo gosta de uma boa história de amor.

Comunicação: De que maneira o trabalho de vocês chegou aos Estados Unidos?

Fábio: Nós vamos há anos para a convenção de quadrinhos de San Diego para mostrar nossos trabalhos. Começamos mostrando nossos desenhos, mas a partir de 2001, passamos a mostrar nossas histórias. A partir daí que o interesse dos editores começou a aumentar e os convites de trabalho começaram a aparecer.

Comunicação: A indicação para o Eisner era esperada? Como receberam a notícia?

Fábio: Vimos a notícia pela internet, estávamos completamente despreparados. Foi uma grata surpresa, ficamos dois dias sem conseguir trabalhar direito, só digerindo a notícia e absorvendo a felicidade.

Gabriel: É o tipo de coisa que você não sabe se é sonho ou realidade. Ainda não caiu a ficha direito e não sei se vai cair.

Comunicação: Vocês estarão presentes na premiação? Alguma expectativa?

Fábio: A premiação acontecerá em Julho, durante a convenção de San Diego. Estaremos lá esse ano novamente, mas sem expectativas. Acho que ganhar ou perder é uma surpresa que só vai bater na nossa cara no dia da premiação.

Comunicação: Adaptar uma história para os quadrinhos é mais trabalhoso do que criar uma totalmente nova? O que é mais prazeroso, criar ou adaptar?

Fábio: Adaptar é mais trabalhoso quando você quer respeitar muito o original. Você precisa encontrar a voz do autor, uma voz que não é a sua, e precisa respeitar essa voz sem desrespeitar a própria, criando algo que agrade tanto aos leitores da obra adaptada como aos leitores de quadrinhos.

Adaptar é um desafio e gostamos de desafios, mas criar é mais gostoso. Criar é ser 100% você, e isso é sempre melhor, mesmo que, às vezes, seja mais difícil.

Gabriel: O desafio da adaptação é fazer com que algo que funcionou somente em texto funcione agora em quadrinhos. Mas a história já está lá, já funciona. Quando você cria, parte do zero e o problema é muito maior.

Comunicação: Alguma dificuldade especial em adaptar “O Alienista”, de Machado de Assis?

Fábio: A dificuldade maior foi criar um ritmo de HQ à história, criando uma narrativa visual que fosse tão interessante quanto o texto. O trabalho de adaptação maior foi transformar o texto, que consistia principalmente de narração, em diálogos, para que não ficasse a impressão de história ilustrada, separando o desenho do texto. Os dois precisam funcionar juntos.

Essa junção de texto e desenho é uma preocupação de todos os nossos trabalhos, mas já criamos o texto com isso em mente. No caso do Alienista, com o texto já presente, estabelecer a conversa com a imagem foi mais difícil.

Comunicação: Como foi o lançamento, dia 26 de abril?

Fábio: Foi muito bom, estava cheio, assinamos vários livros, bebemos vinho e todos, principalmente os leitores, saíram da livraria contentes.

Comunicação: O que acham do público de quadrinhos aqui no Brasil? Está consolidado ou tem potencial para crescer?

Fábio: O público de quadrinhos tem muito potencial para crescer, pois a maioria do público não sabe que tipo de histórias podem ser contadas em quadrinhos, esperando sempre os quadrinhos infantis, de humor ou de super heróis. Você só sabe se gostou de um livro depois de ler, então precisamos mostrar que o público só vai gostar de quadrinhos depois de ler os álbuns que eles nem sabiam que existiam.

Comunicação: A produção nacional deixa a desejar comparado ao que é produzido em outros países? Ou alcançamos patamares semelhantes, ou superiores, na qualidade do que é produzido?

Fábio: Nossa qualidade é igual à do exterior. Talvez o mercado seja menor, então a visibilidade dos bons autores nacionais seja menor, mas o que é feito de qualidade aqui não deixa nada a desejar às histórias feitas em qualquer lugar do mundo. Da mesma maneira, as porcarias brasileiras são tão ruins quanto as gringas.

Gabriel: Qualidade nós temos, não temos volume de produção. Por não existir um mercado nacional que sustente os quadrinistas, a produção nacional é muito pequena. Sem produção, não há como fazer o mercado, o público ou a qualidade crescerem.

Comunicação: Vocês sabem algo sobre a produção de quadrinhos aqui em Curitiba?

Fábio: Conhecemos o que chega aqui em São Paulo, sejam os gibis ou os autores. O Guilherme, da Candyland, estudou na ECA-USP com o Bá e o contato veio daí, mas autores como José Aguiar ou a molecada do Quadrinhópolis a gente conhece mais o trabalho.

Gabriel: Hoje, com a internet, as distâncias estão diminuindo. Mesmo assim, a gente só ouve falar das pessoas que colocam a cabeça pra fora do buraco, que dão a cara pra bater. Essas ainda são muito poucas e espalhadas pelo Brasil inteiro. Ouvir falar não quer dizer conhecer o trabalho. Assim como muita gente que lê o nosso blog nunca leu nenhum de nossos livros, imagine alguém que faz um só fanzine com 60 cópias em Londrina?

Comunicação: Para finalizar, na opinião de vocês, quais os melhores quadrinhos já feitos?

Fábio e Gabriel: Quadrinho bom é o que não falta. Eles sobrevivem até hoje: Lobo Solitário, Watchmen, O Cavaleiro das Trevas, Akira, Bone, O Edifício, Cages, Corto Maltese.

Confira mais sobre o trabalho dos gêmeos no site www2.uol.com.br/10paezinhos



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