Àqueles que desejarem, Muammar Abu Minyar al-Kadafi pode ser descartado para a história como um ditador egocêntrico. E já que a palavra consta nos dicionários: louco. Mas essa não é a única alcunha que faz jus a ele. Apesar de suas vestes coloridas, de seus uniformes extravagantes, da sua fixação por ser recebido em tendas beduínas quando no exterior, e de sua tropa armada de mulheres guarda-costas, Kadafi foi um herói revolucionário de extrema importância para o desenvolvimento do continente africano.
Mas, ao saber da notícia da morte do ex-ditador líbio (20/10), no poder havia mais de 40 anos, é quase impossível não sentir um alívio e relembrar uma das cenas finais de ‘O Mágico de Oz’: “A bruxa está morta, a bruxa malvada está morta!”.
Contudo, como aponta o especialista da Escola Avançada de Estudos Internacionais Johns Hopkins (Estados Unidos), Daniel Serwer, à Reuters, agora sim começa o trabalho duro. A população líbia é pequena, aproximadamente 6,5 milhões, de acordo com o ‘Factbook’ da CIA. Mas velhas tensões tribais ainda fazem parte da agenda. E podem obstruir o caminho para a paz, segundo o cientista político Maurício Santoro, da Fundação Getúlio Vargas, que recentemente lançou um livro intitulado “Ditaduras contemporâneas” e concedeu entrevista ao portal Terra.
Desafios para a democracia
A morte do ditador foi uma vitória moral para o Conselho Nacional de Transição (CNT) – governo provisório da Líbia –, porém seu fim é também uma garantia de silêncio para os que ficam. Um julgamento internacional de Kadafi provocaria uma série de tensões em um país já fragilizado pela guerra civil. Como afirma Santoro, praticamente todos que tiveram alguma experiência administrativa na Líbia, em algum momento trabalharam com Kadafi. Então esse julgamento poderia ser um incômodo para uma série de pessoas da liderança política do país, inclusive para as do CNT.
Em breve, direita, esquerda, islamistas e secularistas começarão a formar partidos. Quando pessoas sem experiência democrática e na posse de um monte de armas tentam fazer isso, uma coisa pode-se assegurar: o processo não será fácil ou suave. Existe um risco real de vingança e matança por milícias e por insurgentes leais a Kadafi.
Porque ao contrário do Egito, onde as Forças Armadas tinham um papel importante, na Líbia, Kadafi enfraqueceu o papel da Marinha e fragmentou as forças de poder em milícias armadas e em diversos serviços de inteligência, que se reportavam a ele ou a parentes próximos.
Diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança, Paulo Gorjão afirmou à Deutsche Welle que os principais desafios institucionais são o processo de reconciliação (entre seguidores de Kadafi e rebeldes), a transição política, a formação de partidos políticos, a nomeação de uma Assembléia Constituinte e a definição de uma nova Carta Magna.
No entanto, Gorjão ressalta que se corre o risco de haver a emergência de uma democracia híbrida: um regime com traços democráticos e ao mesmo tempo autoritários. Portanto, com limitações aos direitos, liberdades e garantias dos seus cidadãos.
Mas as chances de uma democracia pegar na Líbia são maiores que no pobre Egito, que só sobrevivia graças à ajuda dos EUA. Atrás apenas de Israel, o Egito de Mubarak recebia uma soma média anual de U$ 2 bilhões. A Líbia tem os tesouros da família Kadafi e petróleo. Como disse o diretor do Centro para Pesquisa sobre Globalização, Michel Chossudovsky, em entrevista ao canal russo RT, a Líbia detém 3,5% das reservas de petróleo do mundo, o dobro dos EUA. O país é o maior produtor de petróleo da África e o portão de entrada para a África central. Países europeus e os EUA não vão querer ficar sem uma fatia desse bolo.