Regulamento de tráfego aéreo, meteorologia aeronáutica, navegação aérea, teoria de voo e aerodinâmica e motores são algumas das disciplinas que Ivana Franco estuda. A mulher de 39 anos, casada, com um filho pequeno e formada em Letras-Inglês pela UFPR agora estuda para ser piloto de helicóptero. Ela diz estar realizada com o curso. “Estou amando. Já sou formada, morei cinco anos na Califórnia, mas sempre tive vontade de ser piloto. Talvez pelo meu pai que também adorava a aviação, desde criança chegava a me arrepiar de ver aquela máquina no céu”, conta.
Ivana não foi a primeira mulher que se interessou por comandar aeronaves. Quem revolucionou a aviação em 1910 foi Raymond de Laroche, a primeira do mundo a receber uma licença para pilotar e a fazer um voo solo em Paris. Segundo a Agência Nacional de Aviação (Anac), o número de mulheres no mercado aéreo cresce cada vez mais. Na empresa aérea Gol Elisa Rossi foi a primeira a chegar ao posto de comandante, em 2007. Em 2010, foram expedidas 86 licenças para mulheres: 56 de piloto privado, 24 de comercial e seis de linha aérea.
Andressa Iongblod é atualmente instrutora de voo e pretende ser piloto comercial. Com 22 anos ela já é formada no curso de Ciências Aeronáuticas e trabalha dando aulas práticas na escola em que se formou, chegando a subir no avião até cinco vezes por dia. “A primeira vez que eu voei quando criança foi de helicóptero, em cima das Cataratas do Iguaçu. Cresci querendo ser pilota, vinha com a minha família em festivais aéreos e quando sai do ensino médio, me informei e acabei entrando na faculdade de Ciências Aeronáuticas”, relata.
O preconceito na profissão
Ivana e Andressa nunca sofreram preconceito por parte dos homens que estudam e trabalham com elas. Para a ainda estudante do curso de helicóptero, o problema que a impediu de buscar o sonho da aviação antes foi a própria sociedade. “As pessoas me diziam: Como você vai pilotar um avião? É muito perigoso, você precisa formar sua família, criar seus filhos e não pode correr esse risco. Todos pensam que é uma profissão para homem, não para mulher”, explica Ivana, afirmando que o mais comum entre as mocinhas é a vontade de serem comissárias de voo.
Para Andressa, de forma geral, a mulher é um pouco mais vista e mais cobrada estando nessa área da aviação. “Se um homem fizer alguma coisa errada, tudo bem. Se acontecer com uma mulher, será exatamente porque ela é mulher. Por mais que não dê para ver o preconceito, ele está lá de alguma forma”, diz. Ela conta que nunca aconteceu de algum aluno rejeitá-la como instrutora, mas afirma sentir uma cobrança maior.
A instrutora lembra que a responsabilidade pela vida das pessoas que estão na aeronave é a mesma que para os homens. Se alguma coisa acontecer durante uma aula, a culpa vai ser do professor, pois é ele quem sabe o que está fazendo. Numa companhia comercial a responsabilidade é ainda maior, mas tudo se baseia na consciência do piloto, sendo ele homem ou mulher. “Uma demonstração de responsabilidade, por exemplo, é não sair em dias em que a meteorologia está ruim. Não fugir dos procedimentos é o mínimo para que o piloto não corra nenhum risco e não coloque a vida de ninguém em perigo”, explica ela.
Na turma de Ciências Aeronáuticas de Andressa existiam quatro mulheres e a única que se formou até agora foi ela. “Independente das dificuldades, eu corri atrás. E as oportunidades existem para homens e para mulheres e nenhum lugar deixa de contratar um bom profissional por causa do sexo”, relata.
Para ser piloto:
O caminho é longo para trabalhar na aviação e exige um grande investimento. Para ser piloto privado, controlar aviões ou helicópteros pequenos, o aluno precisa fazer um curso de quatro meses; passar por um exame de Certificação de Capacidade Física (CCF); realizar uma prova teórica da Anac de cem questões, vinte sobre cada uma das cinco disciplinas; e ter, pelo menos, 35 horas de voo. Antes de conseguir uma licença de piloto comercial e trabalhar em táxis aéreos, aviões particulares ou em companhias, o piloto precisa se tornar instrutor, podendo dar aulas práticas para novos alunos. Para atingir cada etapa são necessárias mais provas e mais horas de voo, além de uma CCF de 1ª classe para finalizar a jornada. No final, o investimento feito vai ser em torno de R$50 mil, sendo que para helicópteros o valor chega a triplicar: o preço da hora de voo é R$700.