Ana* é casada e mãe de dois filhos. Ela diz que, como aconteceu com o pai, o avô e outros antepassados, sofre com possessões há pelo menos oito anos. Ela e o marido Carlos* são católicos e levam uma vida extremamente religiosa, especialmente depois que os surtos ganharam intensidade. Ana relata que, na maioria das vezes, antes da possessão é possível sentir a presença dos espíritos, e quando eles entram no seu corpo ela fica inconsciente. Carlos conta que cada vez é diferente da anterior, e o comportamento dela varia a cada possessão. De acordo com ele, as atitudes vão desde falar línguas desconhecidas a tentar assassinar os próprios filhos, passando por atos violentos usando força descomunal e tentativa de suicídio.
Nas ocasiões em que há surtos, Ana recorre ao exorcista oficial da Arquidiocese de Curitiba, o padre Jorge Morkis. Mais gente procura por ele do que se imagina, apesar da descrença dentro e fora da comunidade religiosa em relação à possessão demoníaca. “As pessoas procuram o exorcismo como última opção, só depois de terem tentado tudo e não terem tido resultados. Geralmente não acreditam. Tem até muitos padres que não acreditam”, comenta o religioso.
O termo exorcismo vem do grego exorkismós e significa ato de fazer jurar. Na Igreja Católica, o processo é baseado na ordem que o sacerdote dá para que os demônios – raramente é apenas um – saiam, como afirma o padre Morkis. Para isso se usa as mãos, instrumentos como a cruz e óleo, sal e água exorcizados. O exorcista explica que a possessão acontece em pessoas que estão cortadas com Deus. “O Inimigo pode ser comparado a um cão raivoso que está preso por uma corda. Apesar das limitações, ele consegue agir em um determinado perímetro. As pessoas entram nesse perímetro e ficam vulneráveis quando pecam. Isso pode ser por meio de comidas, tatuagens, roupas e lugares, por exemplo”, diz.
Ana e Carlos, entretanto, ao relatar os períodos de maior turbulência das possessões, contam que, quanto mais se esforçavam para levar a vida dentro dos ensinamentos da Igreja, mais os surtos pioravam. “O Inimigo se sente confrontado, provocado, e age com mais força ainda”, explicam. Carlos fala que, durante algumas possessões, Ana começa a falar coisas para ofendê-lo e afastá-lo. “Mas o curioso é que há vezes em que ela joga na cara coisas erradas que fiz quando era criança e que ela não teria como saber”, enfatiza.
Obsessão
Na Umbanda, os mesmos casos são tratados de forma completamente diferente. A começar pelo termo que é chamado de obsessão, e não de possessão. A Umbanda entende que a pessoa obsidiada não tem em si um demônio, mas está sob ação de um espírito desorientado que se acopla no escolhido para poder ter novamente experiências terrenas das quais sente falta: fala, visão, sexo, comida, bebida. O sacerdote de Umbanda, Lúcio Fortes, afirma que esses espíritos, que não conseguem compreender ou aceitar a morte, não se apoderam exatamente do corpo da pessoa, mas sim grudam no perespírito. “O perespírito é uma camada que protege o espírito. Com o passar do tempo, a ação desse espírito maligno vai destruindo essa camada. Por isso, o processo feito na pessoa obsidiada é delicado e gradual, para evitar maiores danos”, elucida Fortes.
Enquanto no catolicismo acontece a expulsão do demônio, na Umbanda existe um processo de doutrinação do mau espírito, para que este encontre seu caminho. Esta ação acontece no terreiro e o primeiro passo é uma conversa realizada entre o obsidiado e um médium. Neste primeiro contato, o médium procura descobrir o que conduz o comportamento do espírito perdido. Após isso, existe a participação de um tipo especial de médium, chamado transportador, seguida de conversas nas línguas próprias dos espíritos, defumação com ervas e processos com elementos que simbolizam as sensações buscadas pelo obsessor: pinga, copo d’água, charuto e luz (através de velas brancas).
Fortes explica que uma pessoa pode sofrer a obsessão por três motivos. “Pode ser por existirem energias de espírito compatíveis. A gente está o tempo todo cercado de espíritos. Se um espírito perdido sente afinidade com você, pode te obsidiar, mesmo que você não tenha os mesmos hábitos que ele tinha em vida", esclarece. “A segunda possibilidade é pela inveja que o diabo sente do livre-arbítrio que temos, ou então o espírito pode ter sido mandado por algum desafeto por meio de um feitiço ou encantamento”, conclui.
O vice-presidente da Federação Espírita do Paraná, Daniel Dallagnol, explica que no Espiritismo também não existe o exorcismo, mas sim a desobsessão. Esse processo consiste em uma terapia baseada em palestras evangélico-doutrinárias, cultivo de bons pensamentos, frequência em ambientes física e moralmente saudáveis, tratamento fluidoterápico, ingestão de água magnetizada, evangelho no lar, prece e cultivo do sentimento do perdão.
A ação dos maus espíritos acontece no pensamento, que acaba gerando ações físicas. “A pessoa não é possuída por uma outra criatura no sentido de que no seu corpo entrou um outro espírito. Nenhum corpo tem mais que um espírito. Por isso dizemos que a ação é toda psiquica, ainda que o resultado seja a prática de ações físicas na sua grande maioria das vezes” friza.
Há, como na Umbanda, uma doutrinação por meio de sessões mediúnicas, nas quais acontece o diálogo com os maus espíritos. “Tentamos levá-los à compreensão de que o que estão fazendo repercute neles próprios, de que a infelicidade deles é motivada pelo desejo de vingança sobre quem eles imaginam que os tenha prejudicado. Assim, a conversa é com o intuito de fazer com que a criatura desencarnada entenda que o perdão é a melhor solução”, finaliza Dallagnol.
Religião X Ciência
O ateu, biólogo e presidente da Liga Humanista Secular do Brasil, Eli Vieira Araújo Júnior, não acredita em exorcismos. “Demônios e espíritos não se apoderam de corpos humanos pelos mesmos motivos que nenhum criador fez as espécies viventes neste planeta”. Ele é da opinião de que é improvável que existam entidades – como deuses e demônios – com capacidades intencionais e mentais como as do ser humano. Para ele, seria arrogante pensar que possa existir tais entidades com o poder de influenciar as origens e destinos tanto do universo quanto do próprio ser humano.
No entanto, ciência e religião não caminham tão separadas quanto parece. No artigo Diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e psicóticas não patológicas e transtornos mentais: uma contribuição de estudos latino-americanos para o CID-11, publicado em maio de desse ano, o pós-doutor em psiquiatria Alexander Moreira de Almeida defende que as relações entre espiritualidade e saúde mental devem ser estudadas mais profundamente, pois, do ponto de vista clínico, algumas experiências espirituais podem ser confundidas com episódios psicóticos, já que ambos têm natureza visionária ou transcendental.
Devido a isso, a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais introduziu uma nova categoria chamada Problemas Religiosos ou Espirituais. Esta categoria serve para justificar a avaliação de experiências religiosas e espirituais como parte da investigação psiquiátrica, sem julgá-las como psicopatológicas.
* Ana e Carlos são nomes fictícios, usados para preservar a identidade das fontes.