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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 05/06/07 às 02h44

Avatares de bombacha

Provavelmente, seu avô não sabe, mas existe um CTG “dentro do computador”. Clediney Silva é o autor da proeza que vem dos pampas
Reportagem Priscila Guimarães, especial para o Comunicação On-line
Edição Sandoval Poletto
Divulgação
No Second Life, o virtual Centro de Tradições Gaúchas segue as mesmas regras do
No Second Life, o virtual Centro de Tradições Gaúchas segue as mesmas regras do "mundo real".

Um “bonequinho” de bombacha, lenço no pescoço, bota, chapéu e cuia de chimarrão, ouvindo música gaúcha e conversando com uma prenda. Tudo controlado via computador. Aí esta um personagem do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) inaugurado no dia 11 de abril deste ano, pelo jornalista de São José dos Pinhais Clediney Silva. A diferença desse CTG é que ele foi criado no cenário virtual do Second Life. Para Silva, o programa na verdade é “vireal”, palavra que ele próprio criou para definir a mistura entre o mundo real e o virtual que acontece no Second Life, onde, inclusive, se usa dinheiro verdadeiro, com direito a pagamento de impostos descontados em cartão de crédito.

Para Silva, essa é a tecnologia do futuro. Segundo ele, apesar dos gastos com o programa e dos impostos “absurdos”, o mundo de lá também tem seus fascínios, como a solidariedade das pessoas. “Uma sociedade mais humana”, diz.

Ao som da rádio de músicas gauchescas de seu CTG virtual, Silva falou ao Comunicação sobre o Second Life e sua iniciativa dentro da “segunda vida”.

Comunicação: Fale um pouco sobre o Second Life e sobre como o jogo funciona.

Clediney Silva: Eu não chamo de jogo. Eu acho que o Second Life foi lançado primeiro para atrair aqueles que ficam jogando, mas na verdade não tem nada de jogo. Tanto é que essas pessoas não migraram para o Second Life. Pelo contrário, elas não gostam. O cliente do Second Life é diferenciado, não é o “piazão”. Eu separo o Second Life em três assuntos. O primeiro é o programa em si e a possibilidade que você tem de entrar no computador e fazer essa interatividade. O segundo ponto é a tecnologia que está por trás disso. E o terceiro é a questão jurídica, que dará muito pano pra manga.

Comunicação: Como a questão jurídica entra no Second Life? Existe uma legislação dentro do programa?

Silva: Esta questão envolve direito de propriedade, herança intelectual e autoral. Mas não existe uma legislação.

Comunicação: O senhor já teve algum problema com isso?

Silva: O CTG que eu criei teve um problema com os impostos. Como lá você paga tudo com cartão de crédito, se supõem que qualquer taxa que você deva pagar venha na sua conta. No caso do CTG não veio nenhuma conta. E nós perdemos terras que foram legitimamente adquiridas.

Comunicação: Essa troca de dinheiro acontece no mundo real?

Silva: Sim. Eu pago com cartão de crédito e em dólar. Não existem limites para se gastar no Second Life. Uma ilha custa US$ 1.650 e você paga com cartão de crédito. A taxa de manutenção de uma ilha é de US$ 300 por mês. O Linden [moeda utilizada no Second Life] é uma moeda virtual que se torna real, porque ela vale dinheiro, é conversível. Ainda existem impostos de 25% ao mês sobre o valor do terreno. Isso significa que a cada quatro meses você tem que comprar a terra de novo. E você não tem com quem reclamar, já que não existe uma legislação sobre isso no Brasil. Não estamos falando de uma coisa virtual, mas de dinheiro real.

Comunicação: Mesmo assim vale a pena participar da Second Life?

Silva: Quando você começa, você não precisa comprar. Mas depois a pessoa acaba comprando até por uma necessidade social. O consumismo é igual lá e aqui. As pessoas gostam de andarem bem vestidas, ter um carro do último tipo. Normalmente você começa com um avatar qualquer que o programa oferece, mas logo você compra outro. Tudo lá é bonito, não existem coisas feias.

Comunicação: O que mais te interessa no programa?

Silva: A tecnologia. O Second Life mudará o mundo. Esses sites produzidos pelo protocolo HTTP [a esmagadora maioria dos endereços eletrônicos que encontramos na rede hoje] irão para o lixo. Isso será refeito para uma tecnologia de três dimensões, como é o Second Life. Isso gerará emprego, necessidade de mão de obra especializada. Então, nós saímos do mundo virtual e vamos para a realidade.

Comunicação: Como o senhor encara essa interação entre o real e o virtual?

Silva: Imagine um quadro preto e um branco, um é o mundo virtual e o outro o mundo real. O que separa os dois é uma linha, quase invisível. Isso eu chamo de mundo “vireal”. Mas essa linha já se transformou numa faixa cinza, que mistura o real com o virtual.

Comunicação: Isso seria o Second Life?

Silva: Sim. E a questão é saber até onde essa faixa vai se alargar, se o mundo deixará de ser o preto e o branco.

Comunicação: As relações humanas não se tornariam distantes?

Silva: Muito pelo contrário. No Seconde Life você tem muito mais solidariedade do que aqui. Por exemplo: quando eu decidi fazer o CTG do Second Life, o salão de baile foi feito por uma vizinha, lá do Second Life, que não me cobrou nada para fazer isso. Lá é uma sociedade mais justa e mais humana entre os povos, o que já não acontece com o sistema econômico implantado lá. O capitalismo de lá é extremamente selvagem.

Comunicação: O mundo virtual é um espaço para todas as culturas ou ele acaba criando uma cultura virtual e destruindo um pouco dessas “culturas reais”?

Silva: A cultura lá é preservada e divulgada. No nosso CTG, nós seguimos as normas como num CTG do mundo real.

Comunicação: Como é a divulgação do CTG?

Silva: Eu não aceito o uso do CTG como atração para aumentar o número de acessos à ilha. Ele deve ser procurado por quem tem interesse na cultura gaúcha. No dia em que nós o inauguramos ele teve 1.500 visitas. Agora, nós temos uma média de 500 visitas ao dia.

Comunicação: Geralmente são pessoas que participam de CTGs na vida real?

Silva: Não. Nós temos até japoneses agenciados ao nosso CTG. Esses usuários, quando saem do seu país, querem conhecer outras culturas, e não o que vêem na sua própria terra. Então, quando eles encontram pessoas vestidas com roupas folclóricas, como é o caso do CTG, isso chama atenção.

Comunicação: O senhor participa de um CTG aqui?

Silva: Sim, aqui em São José dos Pinhais.

Comunicação: Como o CTG começou?

Silva: Eu estava conversando com um amigo aqui de São José dos Pinhais, que também é gaúcho. E ele me perguntou o que tinha no Second Life. Eu disse: “lá tem tudo”. E ele me perguntou se já tinha um CTG. Então, eu vim para casa e criei um grupo, o CTG Brasil. Duas horas depois, fui procurado por uma jornalista do Zero Hora, que já tinha descoberto o grupo. Ela não me largou do pé enquanto eu não fiz o CTG. Fizemos um acordo: ela daria uma ampla divulgação e a notícia seria dada por ela em primeira mão, com exclusividade. Construí o CTG em 30 dias. Inauguramos no dia 11 de abril de 2007.

Comunicação: As roupas gauchescas já existiam no Second Life?

Silva: Essa foi a nossa maior dificuldade, porque não existiam. Depois de ter testado seis pessoas no Second Life que desenvolviam roupas, apenas uma conseguiu. E foi uma mineirinha que fez as roupas que os gaúchos usam no Second Life.

Leia aqui a matéria da editoria de Comportamento sobre os CTGs em Curitiba.



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