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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Cultura | Publicada em 10/08/07 às 14h19

Quando o rock vai para o interior

Banda Charme Chulo conquista a cena independente do Brasil com mistura inusitada de pós-punk e caipira
Reportagem Carla Cursino
Edição Aline Baroni
Charme Chulo
Um show vigoroso - um dos segredos para o sucesso da banda
Um show vigoroso - um dos segredos para o sucesso da banda
Charme Chulo
A banda, criada entre 2002 e 2003, agora faz sucesso na cena independente do Brasil com a mistura inusitada e irreverente do caipira com o pós-punk.
A banda, criada entre 2002 e 2003, agora faz sucesso na cena independente do Brasil com a mistura inusitada e irreverente do caipira com o pós-punk.

É possível misturar rock com música caipira? A banda curitibana Charme Chulo prova que sim. A mistura de guitarra com viola caipira, à primeira vista inusitada, ultrapassa as fronteiras de Curitiba e já conquistou admiradores em todo o Brasil. A banda foi formada em 2003 pelos primos Igor Fillus (vocalista) e Leandro Dalmonico (guitarrista e violeiro). Dois anos depois, entraram o baixista Peterson Rosário e o baterista Rony Gimenez. Essa é a formação do Charme Chulo que lançou em abril deste ano o primeiro CD gravado em estúdio, que leva o nome da banda.

Guitarra e viola caipira. The Smiths e Tião Carreiro e Pardinho. Dalton Trevisan. Essas são as principais influências do Charme Chulo, que, de forma original e independente, inova o cenário musical curitibano. O Comunicação Online conversou com dois integrantes da banda – Igor Fillus e Rony Gimenez.

Comunicação: Gostaría que vocês contassem um pouco da história do Charme Chulo, desde o início da banda, em 2003, até os dias de hoje – dias que representam a conquista de espaço no cenário musical curitibano e brasileiro.

Igor Fillus: O nome da banda surgiu em 2002, mas a gente começou mesmo em 2003, quando fizemos o primeiro show. Nessa época, a banda tinha outra formação. Os únicos que continuam até hoje somos eu e o Leandro. O primeiro CD foi gravado em 2004. Na verdade, não é um CD, mas sim um EP, ou seja, uma demo melhorada. Algumas músicas desse EP ainda são parte do repertório atual.

Em 2005, entraram o Rony, baterista, e o Peterson, baixista. Essa é a formação atual que gravou o primeiro CD em 2006, mas que foi lançado em abril deste ano. Divulgamos nosso material de maneira independente. A partir de 2005, começamos a nos apresentar em outras cidades, como no Rio de Janeiro.

Comunicação: E você acha que a conquista desse espaço em Curitiba e no Brasil aconteceu rapidamente?

Igor: Sim, foi um processo rápido. Geralmente, as bandas levam mais tempo para conquistar um espaço bacana.

Rony Gimenez: Eu toco em bandas faz muito tempo. Entrei no Charme Chulo em 2005 e vi o “negócio” disparar. Foi rápido demais.

Comunicação: É bem claro que estilo de vocês mistura rock dos anos 80 – o pós-punk – com a música caipira de raiz. Como é unir dois estilos tão diferentes?

Igor: Sempre que se fala nessa mistura, as pessoas ficam meio chocadas. Mas o resultado diz tudo. Apesar de ser uma mistura inusitada, a conclusão sonora não é tão estranha assim. É bem sutil, até porque esse lado caipira dá um toque ao rock. O nosso som é rock.

Rony: Tem muita banda que diz que mistura rock com música caipira, mas elas fazem algo mais psicodélico. São influenciadas por Mutantes. Viajam nas letras. A gente faz algo mais punk.

Comunicação: De onde surgiu a idéia de misturar, então, punk com música caipira?

Igor: Eu e o Leandro tínhamos uma banda em 2002, nada muito sério, chamada Cristiane F.. Nossa influência era somente o rock. Aí a gente se sentiu incomodado porque viu que nosso som era apenas uma repetição do que já existe por aí. Percebemos que poderíamos fazer algo a mais. Queríamos o som mais paranaense possível.

Rony: O caipira é o que está mais próximo do que é popular. A bossa nova veio do jazz, que é americano. O samba veio da África. O caipira possui essa “brasilidade”. O sujeito canta o que ele vivencia no campo.

Comunicação: Tocar viola caipira é diferente de tocar violão?

Igor: É bem diferente. É um instrumento com uma afinação diferente. O desenho dos dedos é outro. A viola caipira tem 10 cordas. Lembra bastante o som de uma guitarra de 12 cordas. Ainda assim, a sonoridade dela é bem particular.

Comunicação: Como os críticos vêem esse lado caipira do Charme Chulo? Eles o entendem como característica da banda ou consideram que o objetivo de vocês é ironizar esse estilo?

Rony: Esse é nosso medo – achar que as pessoas vão pensar que tiramos sarro da música caipira. Queremos mostrar que ela existe.

Igor: O “Chulo” do nome da banda não é a música caipira. É uma outra vertente que a gente explora e critica. É algo que faz parte da banda também.

Comunicação: Como o público curitibano reage ao som da banda? É fácil encontrar público que goste de pós-punk, mas há (ou houve) um estranhamento quanto à música caipira?

Igor: Estranham, sim, em um primeiro momento. Acho que a performance no show compensa esse lado.

Rony: Primeiro, há a curiosidade. Isso é legal porque as pessoas vão ver nossos shows. Um problema que a gente enfrenta é o fato de estarmos inseridos nessa cena indie. O público indie estranha esse lado caipira, mas ao nos ver no palco, vê que o Charme Chulo faz um som sério. Nós somos o patinho feio da música. Quem é punk desconfia de nós porque acha que somos indies. Quem é indie não gosta da gente por causa desse lado caipira. É o pessoal da MPB que nos acolhe.

Comunicação: Vocês costumam dizer que uma das principais referências do Charme Chulo é o escritor curitibano Dalton Trevisan. Como é unir música e literatura? E de que forma a obra de Dalton está presente nas canções da banda?

Igor: A obra do Dalton consegue sintetizar a cultura de Curitiba. A gente pensa o que ele pensa sobre nossa cidade. E ele é curitibano e conhecido no país inteiro, mas as pessoas daqui não o valorizam. Dão maior importância ao Leminski. A gente prefere o Dalton.

Rony: Ele é do underground [risos]. A influência da obra de Dalton está além das letras das nossas músicas. A maneira de narrativa dele e a forma que ele enxerga a cidade nos influenciam bastante também.

Comunicação: Os shows do Charme Chulo são bem vigorosos e cheios de energia. Quanto do sucesso de vocês se deve às apresentações ao vivo?

Igor: Bastante. Um artista deve respeitar alguns processos, como composição e gravação das músicas e shows. O show é muito importante pelo contato com o público.

Comunicação: Como foram as gravações do álbum “Charme Chulo”, o primeiro da banda?

Igor: Gravamos o CD em Florianópolis porque o nosso produtor, que é da banda Pipodélica, é de lá. Ele foi o cara que mais se interessou por nosso trabalho. O custo-benefício compensou. E o álbum impressiona pela qualidade técnica. Nosso técnico de som foi excelente.

Comunicação: E qual foi o maior amadurecimento do Charme Chulo até agora?

Rony: Desde que entrei na banda, os shows evoluíram muito. Na verdade, estão em constante evolução. Lembro que no começo havia uma certa timidez. Hoje é mais tranqüilo.

Igor: É uma questão de prática. A cada show fomos nos encontrando.

Comunicação: Quais são os próximos projetos da banda depois do lançamento do primeiro álbum?

Igor: Nosso próximo projeto é o clipe da música “Mazzaropi Incriminado”, que é nossa música de trabalho. O nosso próximo show aqui em Curitiba será num projeto chamado “A grande garagem que grava”. Dessa apresentação sai um CD ao vivo. Pretendemos mostrar nesse show três canções inéditas. Resumindo: música nova, clipe e shows.

Rony: Descansar é a última coisa que a gente quer agora.

Ficou curioso? Conheça o trabalho da banda:



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