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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Cultura | Publicada em 14/11/07 às 00h39

O jornalismo cultural na poltrona

Em entrevista, o escritor José Castello aborda o jornalismo cultural feito hoje no Brasil
Reportagem Manuela Salazar
Edição Aline Baroni
MANUELA SALAZAR
"Há um consenso meio bobo em certos meios do jornalismo de que cultura é um luxo", afirma o escritor

Recentemente, José Castello, carioca radicado em Curitiba, lançou o livro A Literatura na Poltrona – Jornalismo Literário em tempos instáveis . Nele, o jornalista fala, entre outros assuntos, sobre o mundo do jornalismo cultural e da crítica literária. Em uma noite chuvosa, Castello conversou com o Comunicação Online sobre esses temas, com direito a um pouco de polêmica. "O jornalista não é vítima e não deve apenas reclamar que as editoras só lançam bobagem. Isso é mentira", declara ele.

José Castello é autor de diversos livros biográficos como Vinicius de Moraes, o Poeta da Paixão, O Homem Sem Alma (sobre João Cabral de Melo Neto), O Inventário das Sombras (perfis de vários autores) e O Fantasma, um livro de ficção.

Atualmente, Castello escreve ensaios para diversos meios de comunicação do país. Regularmente, ele mantém uma coluna no jornal O Globo, intitulada Prosa e Verso, além de colaborar com o jornal curitibano Rascunho. Ele também ministra oficinas literárias em programas da Fundação Cultural de Curitiba. Confira a entrevista com José Castello:

Comunicação – O que você acha do jornalismo cultural que se faz hoje no Brasil?

José Castello – Primeiro, nos anos 90, houve uma grande expansão dos cadernos de cultura, pois jornais e revistas investiram nesse aspecto. Isso durou a década de 90, e o que acontece agora é, misteriosamente, uma retração de investimentos. Muitos cadernos que existiam não existem mais e os que persistem têm menos páginas. E eu não entendo esse movimento de retração, porque a indústria cultural não pára de crescer e as livrarias melhoraram muito em qualidade. E ainda há um recurso de compra de artigos culturais fantástico que é a internet. Então isso é bem misterioso: se por um lado a produção cultural aumentou e a comercialização se sofisticou, por que o jornalismo literário está em retração? Não faz muito sentido.

Comunicação – Ainda mais quando se percebe que o caderno de cultura é uma das partes mais lidas nos jornais…

JC - Na verdade, ele é o que faz a diferença entre os jornais, já que os primeiros cadernos, de notícias pesadas, são todos muito iguais. Até por um efeito da televisão, porque ela dá tudo antes. Nesse contexto, o jornal escrito virou um grande resumo, se excluirmos as matérias especiais e os colunistas. Então, o jornalismo cultural é o que marca a diferença.

Comunicação – E em termos de conteúdo, qual é o jornalismo cultural feito no país?

JC - Como há menos investimento, é evidente que há menos recursos para contratar o trabalho das pessoas de mais qualidade. Assim, há menos dinheiro para contratar colaboradores. Pagando pouco, os de mais prestígio não aceitarão os trabalhos. Isso afeta o conteúdo.

Outra coisa que atrapalha é essa diminuição do numero de páginas, pois as matérias encomendadas tendem a ser menores. Por melhor que seja um crítico, às vezes o espaço que lhe dão é pequeno demais para sair algo bom. Freqüentemente, você vê resenhas do tamanho das orelhas dos livros! Mas isso não quer dizer que o jornalismo cultural brasileiro não tem qualidade. Pelo contrário, é tudo uma questão de investimento.

Comunicação - Dentro do jornalismo cultural, encontramos coisas muito simplórias e outras muito herméticas. Não há como se achar um meio termo entre esses dois lados?

JC - Aí há dois fatores. O simplório acontece pela limitação de recurso para investir nas redações, e isso é um efeito geral nos jornais. Assim, contratam-se repórteres menos experientes. Na medida em que isso acontece, o jornalismo cultural se torna muito mais superficial, pois é feito por pessoas sem preparo. Há um consenso meio bobo em certos meios do jornalismo de que cultura é um luxo, uma coisa sobre a qual uma pessoa mais ou menos informada pode escrever.

Do outro lado, ocorre que, para enfrentar essas deficiências de qualidade, o jornalismo cultural se ampara na universidade. Não é uma questão de os acadêmicos serem bons ou ruins, mas eles trabalham com outro tipo de linguagem, têm outros hábitos intelectuais, são mais rigorosos, sistemáticos, didáticos, têm mais pudores que os jornalistas.

Então, o jornalismo fica entre esses dois extremos: de um lado pessoas sem formação nenhuma chamadas para quebrar galho e de outro lado pessoas que não são do meio e são colocadas dentro da imprensa para tentar melhorar essa situação. O desafio é formar jornalistas que sejam ensaístas, livre-pensadores. Que peguem uma obra artística e reflitam com uma linguagem sedutora e não científica.

Comunicação - Que sugestão você daria para alguém que pretende tornar-se, como você mesmo diz, um livre-pensador?

JC - Antes de tudo, ler boa literatura. Até porque a ficção é muito influenciada por ensaios, e os ensaios pela literatura. Grandes escritores como Carlos Fuentes, José Saramago ou Umberto Eco, quando escrevem um ensaio, não abdicam de seu estilo, de sua fala pessoal. Tudo isso engrandece a qualidade do que eles escrevem. No fundo, está a leitura da boa literatura. E isso para quem faz jornalismo cultural, para quem pretende ser escritor, para quem faz jornalismo de TV, rádio ou para qualquer outro profissional que lida com a palavra.

Comunicação – Ultimamente, a crítica literária está voltada apenas para grandes publicações? Porque você compra uma revista semanal e a resenha literária vai ser sobre o livro mais vendido da semana, e não alguma boa novidade que está na mão do crítico…

JC - A indústria editorial se modernizou, e hoje os profissionais das editoras estão mais bem equipados para vender seus produtos, o que aumenta a pressão sobre quem faz jornalismo cultural. Isso não é negativo. O problema não está nas editoras, está no jornalista que tem uma postura preguiçosa, passiva e só aceita. Se ele quiser enfrentar essa pressão comercial, mas não tiver formação mínima para saber pensar por ele, os outros vão continuar o fazendo.

Mas o jornalista não é vítima e não deve apenas reclamar que as editoras só lançam bobagem. Isso é mentira. Elas lançam também muita coisa boa. A questão é saber selecionar e para isso se deve ler muito. E às vezes é muito mais prático ir pela cabeça da editora, que manda fichários com todas as informações sobre os livros. O jornalista vira o rei da preguiça e vai dizer o que a editora quer dizer sobre esse livro.

Comunicação – Tenho visto respostas públicas de escritores às críticas feitas a seus livros. Você não acha isso estranho?

JC - Eu não estou aqui para moralizar, sei que há muita gente que responde. E acho que cada um tem seu direito. Eu, pessoalmente, não respondo, pois parto do princípio de que toda crítica é uma interpretação pessoal. Se você responde, você parte da suposição, sem sentido, de que você vai modificar a leitura, convencendo o crítico que ele está certo ou errado. Claro que é difícil você ler uma crítica negativa…

Comunicação – Há uma história que diz que Guimarães Rosa afixava na frente de sua escrivaninha, de cabeça pra baixo, as críticas negativas que recebia para tentar invertê-las…

JC – Há de se tirar alguma coisa, por que sempre há algo: a pessoa está oferecendo uma outra visão sobre o autor. Não é para adotar essa visão e passar a pensar pelo crítico. Quanto mais se considerar aspectos diferentes, mais rico vai ser o pensamento e isso vai fortalecê-lo. Outra coisa importante é não cair na bobagem de tomar a crítica como acusação pessoal. Ela não é. Quando acontece, quem faz isso, está usando o instrumento errado. Isso não quer dizer que não se pode ser extremamente duro e crítico com um livro. Quando eu recebo uma crítica muito negativa a algo que eu fiz, eu procuro mandar uma mensagem para o crítico: "Fulano, agradeço a atenção" – que é para deixar claro que eu não tomei aquilo como pessoal, até para deixá-lo encabulado se ele fez por motivo pessoal.



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