Muita gente, na infância, já brincou de peteca. Uma atividade simples, barata e muito divertida. Os mineiros, gostaram tanto da brincadeira que resolveram levá-la a sério. Tanto que, desde 1975, a peteca é considerada esporte oficial e hoje conta com milhares de petequeiros em todo o mundo. Curitiba está na rota dos praticantes e já conta com campeões brasileiros em várias categorias. Deve também receber o primeiro evento de grande porte este ano, a Liga Brasileira, em setembro. Quatro cidades servirão de sede, sendo que aqui acontecerá em uma quadra a ser montada em um shopping.
Os atletas curitibanos estão representando a cidade com louvor. Foram muitos troféus trazidos de diversos campeonatos oficiais, dentre eles o Brasileiro e a liga que reúne brasileiros e franceses. Maurício Camargo, de apenas 15 anos, é um dos destaques da capital paranaense. Durante o último campeonato brasileiro, que aconteceu em Brasília, ele foi eleito atleta revelação. O garoto, no entanto, é modesto. “Não ganhei o título, apenas me elegeram como revelação do torneio”, frisa. Maurício joga peteca desde os 12 anos, e atualmente faz dupla com Osman Taques, da mesma idade.
Mas quem pensa que só os jovens praticam o esporte está enganado. Como costumam dizer os amantes da peteca, é um esporte para quem tem de 8 a 80 anos. “Para jogar não tem idade. Temos aqui [no clube curitibano] um senhor de 83 anos no maior pique”, conta Antônio Carlos Ruella, petequeiro e uma dos fundadores da Federação Paranaense de Peteca. Hoje, ele é diretor da Confederação Brasileira na regional Sul.
Além de ser democrática no quesito idade, é também para todas as classes sociais, pois não é necessário muito dinheiro para a prática. “Você só precisa de um espaço, uma rede e uma peteca. O resto é muito fôlego”, brinca Ruella. Para se profissionalizar, no entanto, é preciso ter patrocinador, uma vez que os atletas precisam viajar para competir.
Os jogadores do Clube Curitibano também seguem a linha socialmente correta e tocam um projeto com crianças carentes de uma paróquia na periferia da cidade. Além de ocupar o tempo dos pequenos petequeiros, é uma forma de popularizar a prática, hoje tão restrita. Um projeto bem sucedido, mas ainda limitado. “Precisaríamos de mais apoio do estado e das empresas para fazer da peteca uma mania nacional”, opina Ruella.
Apesar de todas as vantagens do esporte – além de divertir, é um bom exercício aeróbico -, há um preconceito muito grande por parte de quem não pratica. As histórias nesse sentido se multiplicam. Por exemplo, quase todos os homens que praticam já foram tachados de homossexual por causa do esporte. “Já perdi até amizades quando descobriram o que eu fazia”, conta Maurício.
Esporte nacional
A peteca pode ser considerada o único esporte genuinamente brasileiro. A definição deve-se ao fato de ser uma invenção das tribos indígenas, que a usavam como brincadeira (peteca, em tupi, significa ‘bater’). Passada de geração em geração, foram os mineiros que disseminaram a prática de maneira mais séria. A exportação começou durante as Olimpíadas de Antuérpia (1920), quando os nossos atletas usavam a peteca para aquecer antes das competições e atraíram a atenção dos demais. Hoje, cerca de dez países jogam peteca, com destaque para a França, que tem nível quase superior ao nosso.
As regras, bastante simples, são um misto de tênis e vôlei. As quadras medem 7,5m x 15m e a rede é montada à mesma altura que a de vôlei. Quando o jogo é um contra um, a quadra é reduzida (tal como no tênis). Disputa-se em melhor de três sets, com 12 pontos ou 16 minutos cada. Só pode pontuar quem tem o saque, e o tempo limite para o ataque é de 30 segundos.
Um detalhe curioso é a inimizade entre os petequeiros e os jogadores de badminton. Este último é uma adaptação da brincadeira original, com a diferença que uma raquete é usada para rebater a peteca. Com pequenas modificações nas regras, o esporte alcançou posições melhores que aquele que serviu de inspiração. Apesar de contar com um número muito menor de praticantes, já faz parte das olimpíadas. Esse fato, inclusive, é motivo para muitas provocações. Na opinião de Luis Manoel da Fonseca Barreto, presidente da Confederação Brasileira de Badminton, os praticantes dos dois esportes são inimigos mortais.
Sendo ou não esporte olímpico, o que vale para os petequeiros de Curitiba é a diversão. “É simplesmente apaixonante. Se você joga uma vez, não consegue parar. A única coisa que precisamos é popularizar a peteca”, finaliza Ruella.