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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Ciência & Tecnologia | Publicada em 17/03/08 às 22h46

Depois do correio eletrônico, chegou a vez do livro

Os e-books são uma tecnologia ainda pouco conhecida, mas apresentam número crescente de usuários
Reportagem Thais Schneider
Edição Suelen Trevizan
sxc.hu
O celular pode ser um meio para leitura a qualquer hora e em qualquer lugar
O celular pode ser um meio para leitura a qualquer hora e em qualquer lugar

Sentado à sala de espera do aeroporto, você decide ler um livro. Abre a pasta, procura, e prontamente retira o celular para iniciar a leitura. Celular? Isso mesmo. O e-book – ou eletronic book, livro eletrônico – é um tipo de mídia que comporta toda a informação presente em um livro comum, porém em formato digital. Dessa forma, ele pode ser visualizado através de diversos aparelhos, como computadores, celulares, palm tops (computadores de mão), mp3 e mp4 players, e ainda em um equipamento bastante específico, o e-book reader.

Mas, ao contrário de algumas das tecnologias que permitem sua leitura, o surgimento do próprio e-book não é tão recente: data de 1971, quando a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi digitalizada, dando início ao Projeto Gutenberg, conhecido como a mais antiga biblioteca virtual do mundo. Atualmente, a organização voluntária disponibiliza cerca de 20 mil textos gratuitos e 100 mil livros, em diversos idiomas, sendo 206 obras em Português. Uma curiosidade: além do inglês, a única língua em que o site está disponível é o português, em que o termo e-book é traduzido como livro-e.

Além do Projeto Gutenberg, existem muitos portais brasileiros que disponibilizam livros para download. Um exemplo é o site Domínio Público, do Governo Federal, cujo acervo é composto apenas por obras gratuitas, que tenham licença do autor ou que já sejam parte do domínio público. Além de livros, é possível ter acesso a outros conteúdos, como hinos cantados em sua versão oficial e fotografias.

Democratização da leitura

Propostas como essas caracterizam o e-book como uma ferramenta para a democratização da leitura. Um livro disponível na Internet pode ser acessado por muito mais pessoas de todo o país e até mesmo do mundo, ao passo que uma versão impressa tem acesso mais limitado. É o que explica Denise Tsunoda, coordenadora do curso de Gestão da Informação da UFPR. “O e-book é uma maneira fácil de democratizar a leitura, pois a Internet tem um grande poder de disseminação de conteúdos”, diz. Assim, a expansão do livro eletrônico e o crescimento do número de exemplares disponíveis estão baseados, em boa parte, na iniciativa voluntária de pessoas que digitalizam materiais, cedem direitos autorais ou traduzem obras e também no ‘troca-troca’ de arquivos promovido por blogs e fóruns de discussão online.

Um exemplo dessa rápida divulgação de informação são os trabalhos acadêmicos, como teses e dissertações, que têm suas versões digitais cada vez mais comuns. Para Denise, a digitalização desse material deveria se tornar até mesmo obrigatória. “É excelente! A utilização da tecnologia do e-book dessa forma promove a troca de conhecimentos, é uma boa forma de aproveitarmos o potencial da Internet para algo positivo”, opina. Mas ela aponta também uma face negativa dessa acessibilidade quando lembra a grande quantidade de material de baixa qualidade circulando.

Por outro lado, a tecnologia pode ainda ser usada como via de divulgação para novos autores (à maneira como os arquivos em formato mp3 funcionam para novos músicos e bandas), e ainda como fonte de renda – alguns livros são produzidos apenas em sua versão eletrônica, para fins comerciais; outros ganham uma versão digital como alternativa para o comprador.

Cultura barata, no bom sentido

Mesmo quem não quer desembolsar um único centavo pode encontrar uma grande variedade de materiais disponíveis, desde literatura clássica a histórias em quadrinhos, passando por livros didáticos e técnicos, teses, dissertações, enciclopédias, jornais, revistas, documentos históricos e até mesmo a Bíblia. Jaime Mendonça, editor do portal Virtual Books, aponta os livros direcionados ao público infanto-juvenil como uma área que tem crescido muito.

Para ler os arquivos é necessário ter um programa capaz de processá-los – e eles existem em diversos formatos. O mais popular é o PDF, que pode ser acessado a partir de softwares como o Adobe Reader, da Adobe, e o Foxit PDF Reader, da Foxit Software. A boa notícia é que grande parte desses programas pode ser obtida gratuitamente.

Quanto ao equipamento para leitura, é possível aproveitar as mídias que também têm outras finalidades, como o computador e o celular. Há, também, quem prefira imprimir o conteúdo digital e utilizar o bom e velho papel. Por mais que cause certo estranhamento, a prática pode ser vantajosa: segundo o site ABCcommerce, um e-book pode custar até 50% menos que sua versão impressa.

Preto no branco x pixels

Grande parte das pessoas ainda prefere a paupabilidade do papel. Foi o que constatou Gabriela Bruno, dona da comunidade Índice Geral – E-books no site de relacionamentos Orkut, ao fazer uma enquete junto aos participantes da mesma. Além desta descoberta, Gabriela verificou que a maioria dos leitores ‘está presa’ ao computador, o que vai de encontro à observação de Jaime Mendonça. “Estamos presos ao mundo físico. A próxima geração será mais adepta ao mundo virtual”, prevê. Não é à toa que 47% dos acessos registrados em seu site sejam feitos por pessoas com menos de 20 anos de idade.

Ambos são usuários de mídias variadas para leitura de e-books. “Eu costumo ler no celular. Pra mim é mais prático, leio em qualquer lugar”, afirma Gabriela. “Faço leitura no PC (computador), no e-book reader, no palm top. Procuro experimentar todo tipo de tecnologia”, explica Mendonça.

Contudo, eles parecem ser exceção, especialmente no que diz respeito ao uso do e-book reader, um aparelho específico para leitura de livros eletrônicos que custa em média R$ 800. Quatro lojas de equipamentos de informática de Curitiba foram consultadas pela redação; nenhuma delas possuía o aparelho para venda, e três dos atendentes sequer o conheciam. Para Rodolfo Oliveira, vendedor, as lojas não o solicitam porque ele simplesmente não é procurado. “O reader é interessante, mas pode ser substituído por outras tecnologias mais versáteis, como os palm tops. Ele é bastante específico, é só para quem gosta muito".

Felipe Martinez, estudante do curso de Publicidade e usuário do e-book reader, concorda. “Acho o reader prático, tem uns atalhos que ajudam, mas é quase igual a ler no palm”, compara.

Para Gabriela Bruno, a baixa popularidade de mídias alternativas para ler e-books pode contribuir para que eles também permaneçam relativamente desconhecidos. “As pessoas acham que só podem ler na tela do PC, o que é um tanto cansativo, e por isso desistem dos e-books”, diz. Para Jaime Mendonça, contudo, alguns avanços vêm ocorrendo. “Problemas como danos à visão causados pela exposição prolongada à luminosidade poderão ser contornados num futuro próximo”, afirma.

Portais para download de e-books

Projeto Gutenberg

Domínio Público



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