Desde o início da morte da menina Isabela Nardoni, em 29 de março deste ano, não há hora do dia em que o brasileiro não ligue a TV ou sintonize seu programa favorito no rádio e não escute alguma informação a respeito do caso. As notícias podem ser exclusivas ou apenas uma repetição do que foi dito na hora ou no dia anteriores, o que importa é não deixar o telespectador/ouvinte esquecer.
Em meio a declarações pouco contidas de promotor e delegados envolvidos na investigação, histórias e desabafos chorosos do pai e da madrasta de Isabela no Fantástico e depoimentos desencontrados de testemunhas como vizinhos e o porteiro do prédio, tudo é acompanhado à exaustão.
Entretanto, mesmo que até a declaração de um ex-vizinho que conviveu há tempos com o casal seja motivo de curiosidade, nenhuma entrevista era mais esperada do que a da mãe de Isabela, Ana Carolina Oliveira.
No começo, Ana se esquivou das câmeras e afirmou que ainda não estava preparada para falar, mas no dia 11 deste mês, deu entrevista exclusiva ao Fantástico, em que contou detalhes da relação com a filha, expôs a visão que possui a respeito do ex-namorado e da madrasta e chorou ao falar do momento em que encontrou a filha caída no jardim.
O programa registrou índices recordes de audiência, e o caso lembrou em muito outros dois igualmente comoventes e que foram amplamente cobertos pela mídia: o assassinato de João Hélio no Rio de Janeiro, em 2007, e o de Ives Otta, em São Paulo, em 1997. Desde o dia seguinte ao crime, a mãe da menina vinha afirmando que falaria sobre o assunto no 'momento certo'. Alguns até classiificaram a atitude de Ana como 'fria', por ela jamais expressar emoção diante das câmeras a respeito de uma dor tão grande como perder um filho.
Entretanto, depois da entrevista ao Fantástico, também houve quem criticasse a mãe por tratar de um assunto tão íntimo, e que deveria ser vivenciado entre familiares, em um programa de tanta audiência.
Em meio a sentimentos distintos por parte de quem acompanha o caso com interesse, o Comunicação conversou com a psicóloga e especialista em psicologia infantil Maria Izabel Valente sobre a comoção pública que o crime tem causado e a decisão de Ana Carolina de vir a público para falar sobre o ocorrido.
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Maria Izabel Valente
Comunicação: A mãe de Isabela, Ana Carolina Oliveira, tem se retirado da vida pública, ficado em casa, até se afastou por um tempo do trabalho, mas deu entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, um dos programas de maiores audiências da TV brasileira. Os pais do menino João Hélio concederam várias entrevistas a jornais e revistas, assim como o pai de outra criança assassinada nos anos 90, Ives Otta, que hoje é presidente de uma ONG que dá assistência a pessoas que perderam os filhos de forma violenta. Como você avalia a atitude dessas pessoas, que parecem absorver o luto em frente das câmeras?
Maria Izabel Valente: É difícil julgarmos as pessoas quando uma situação interna, pessoal, familiar, mesmo do trabalho, se torna publica desse jeito e todos têm opinião, palpite, teoria. Nós não podemos julgar muito o que se passa no íntimo de cada pessoa, é muito particular. Então, para dizer o que pode ou o que não pode tê-la motivado a mudar de opinião é difícil, seria injusto, incorreto.
Mas eu sempre procuro acreditar - e apesar de ir contra a maré, porque as pessoas no geral acreditam no ruim, na questão financeira, que é o que mais se comenta por aí - que é uma busca por Justiça. Por ser um programa de grande audiência, isso vai comover e manter a Justiça firme no propósito de punir os culpados e descobrir o que realmente aconteceu.
Comunicação: O fato de os pais compartilharem a dor com pessoas estranhas, mas aparentemente solidárias, ajuda-os a aceitar e compreender a morte dos filhos, ou pelo contrário, faz com que se sintam sozinhos no meio de tantas manifestações de pesar de pessoas que logo nem se lembrarão mais da tragédia?
Maria Izabel: Toda manifestação de amor, de carinho, de apoio, conforta. Às vezes, só o fato de estar ali perto, saber que todas essas pessoas estão se preocupando, torcendo, ajuda. Certamente facilita, elas se sentem mais protegidas, e isso faz muita diferença. Por isso existem tantos grupos de apoio. Às vezes, para as pessoas que estão em realidades diferentes, a rotina das que passaram por uma situação comum ajuda bastante.
Comunicação: Como se dá a elaboração do luto em uma sociedade midiática como a nossa, onde a morte pode se transformar num show?
Maria Izabel: Falta muito respeito nisso. As pessoas não permitem a quem passa por isso ter privacidade, direito ao sofrimento; elas querem uma superação. Então, qualquer atitude – chora demais, chora pouco – sempre vai ter uma crítica que dificulta esse processo. A família precisa passar o luto. Toda vez que passamos por uma situação em que há uma mudança e é preciso viver de uma forma diferente da programada, há um luto. No caso da perda de um ente querido, um filho – e uma das maiores perdas, sofrimento, é a perda de um filho deve ser respeitado, preservado.
Comunicação: Qual é o papel do advogado de defesa nesse processo, que defende alguém tão odiado?
Maria Izabel: É uma questão ética. Assim como médico, ou psicólogo que estão ali para ajudar. A pessoa se forma para fazer justiça, para fazer o que é certo dentro das possibilidades. Não é uma questão de inocentar ou não, caso seja provado que eles são os assassinos, mas dar dignidade para que eles cumpram a pena. Quando um bandido chega a um hospital e precisa ser atendido, por mais que seja difícil, sabendo que ele provocou dor ou sofrimento em outras pessoas, praticou coisas horrorosas, como você irá negar ajuda? O direito de viver, viver com dignidade é de todos os seres humanos. A partir do momento em que a pessoa tem um princípio ético, moral, de valores, tem que superar isso.
Comunicação: E a situação das duas outras crianças, filhas do casal, que podem ter testemunhado tudo, como fica?
Maria Izabel: Com certeza, nenhuma criança deveria presenciar esse tipo de coisa que acontece na sociedade, muito menos quando pessoas que eles amam, admiram, estão fazendo mal a alguém que eles também amavam – se isso tudo for comprovado. Não há como dizer que eles ficarão traumatizados, que irão sofrer o resto das suas vidas; cada ser humano funciona de um jeito. Cada um dos dois irmãos certamente internalizou e viveu isso de uma maneira diferente e vai responder de forma diferente. Mas eles merecem todo cuidado e atenção.
Comunicação: Como você avalia a comoção pública em torno do caso Isabela Nardoni?
Maria Izabel: Eu vejo que a sociedade tem um desejo, uma sede enorme por situações assim. Existe uma união por justiça, união por uma série de coisas. É claro que isso acontece de forma exagerada e acaba judiando um pouco, às vezes expondo, apelando demais, e isso pode desrespeitar algumas pessoas, mas essa união é, na grande maioria das vezes, para tentar uma ação de bondade, amor, para tentar ajudar a família a superar a dor e fazer justiça. Seria muito bom se partindo disso, cada um começasse a ver suas ações e pensar no que tem feito. Se uma situação de comoção como essa servisse para plantar dentro de cada pessoa uma consciência maior de que pode melhorar o mundo, seria ótimo.
Comunicação: Por que esse caso surtiu tanta repercussão? Crianças morrem todos os dias em circunstâncias igualmente terríveis, mas pouco ouvimos falar delas, e quando ouvimos, nos sensibilizamos, mas o assunto não chega a persistir dessa forma.
Maria Izabel: É verdade. E às vezes, as crianças sofrem muito mais que a Isabella, embora não tenha como medir o que cada uma passou. Mas há coisas muito mais inaceitáveis. Acho que foi pela própria imprensa que esse caso repercutiu tanto. Toda vez que a imprensa não deixa a coisa ser esquecida, ela não é. Há um apelo, algo que passa mesmo, e algumas coisas piores acabam sendo deixadas de lado. Agora mesmo, há muitas coisas horríveis acontecendo, mas não têm muita atenção. Muitas vezes há um desvio do que deveria ser olhado.
Comunicação: O clamor popular já condenou o casal? Em que sentido ele pode influenciar a opinião de promotores, juízes e júri, na sua opinião?
Maria Izabel: Se influenciou ou não, eu não posso dizer, mas com certeza as pessoas têm a tendência de julgar e condenar e às vezes erram, então, é preciso ter muito cuidado, até para dizer os motivos, porque cada um tem os seus. Nós não podemos saber se a pessoa está sofrendo mais ou menos, se a mãe está certa, se o pai é esse mostro. É preciso deixar que a justiça seja feita baseada nos fatos, e não pela indignação das pessoas.
Leia a entrevista com o advogado criminal João Fernando Saddock