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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Cultura | Publicada em 22/05/08 às 21h51

Quadrinhos curitibanos na berlinda

Os quadrinistas dizem que há publico, mas reclamam da falta de incentivo
Reportagem Anna Emília Soares
Edição Amanda Audi
Sérgio Artigas
Uma folha em branco, uma idéia na cabeça... Pode parecer simples, mas não é bem assim
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Sérgio Artigas
Verdadeiros heróis, os quadrinistas se deparam com inúmeros problemas na hora de lançar uma publicação
Verdadeiros heróis, os quadrinistas se deparam com inúmeros problemas na hora de lançar uma publicação

José Aguiar é quadrinista e professor de História em Quadrinhos na Gibiteca de Curitiba, além ter trabalhos publicados em vários países. Logo de cara, ele se preocupa em desmentir um dos mitos das HQs em Curitiba: segundo ele, a dificuldade na publicação de títulos locais vem da falta de incentivos, e não da falta de leitores. “É difícil conseguir verba para a produção, mas temos leitores. A maioria dos fãs de quadrinhos que moram aqui, acabam lendo produções locais” afirma com convicção.

Nereide Custódio, atendente da Gibiteca, conta que existe grande procura de quadrinhos curitibanos pelos freqüentadores da local. “Nosso público é bem variado, temos associados dos 10 até os 60 anos, então a busca por gibis varia muito de leitor para leitor. Tem gente que gosta dos antigos, outros preferem os que viraram filme, alguns gostam dos japoneses. Outros lêem apenas quadrinhos curitibanos”, enfatiza.

A coordenadora da Gibiteca, Maristela Garcia, confirma que os fãs de quadrinhos nacionais se fazem presente. “Existe público porque esse trabalho é muito divulgado na internet e, aqui na Gibiteca, pelo boca-a-boca. A grande dificuldade que os artistas daqui enfrentam, na verdade, é a falta de interesse das editoras”, afirma. Mas, se existem leitores, qual é a dificuldade de se publicar quadrinhos?

O hiato criativo tem motivos financeiros

Segundo José Aguiar, a ausência de incentivos é uma das principais barreiras enfrentadas pelos quadrinistas brasileiros. “É difícil conseguir verba para a produção através de leis de incentivo, porque os quadrinhos teriam que se encaixar nas categorias de artes plásticas ou literatura. É muita burocracia. Nossa arte sobrevive de trabalhos encomendados, quando uma empresa ou uma editora pede uma determinada história”, explica.

Sérgio Artigas, quadrinista e ilustrador, diz que a ausência de incentivos obriga os artistas a utilizarem o dinheiro do próprio bolso. “Normalmente, os autores menores lançam seus trabalhos de forma independente e arcam com os prejuízos. A série Manticore, por exemplo, foi um projeto que envolveu a parceria de diversos quadrinistas que juntaram recursos próprios para bancar o titulo”, relembra. No entanto, ele esclarece que nem todos os profissionais da HQ precisam passar por esse tipo de situação. “Artistas mais renomados conseguem publicar seus títulos no exterior ou até em famosas revistas de circulação nacional, como o José Aguiar e o Cláudio Seto”, completa.

O alto custo envolvido na produção de HQs brasileiras faz com que o mercado opte pela importação de histórias estrangeiras. “No Brasil, as editoras preferem publicar quadrinhos ‘de fora’, porque é bem mais barato do que pagar por uma produção nacional. Os importados já vêm prontos, só é preciso reescrever os balões, enquanto que uma história em quadrinhos brasileira requer vários meses para a produção, e manter um artista exclusivo durante todo esse tempo sai caro”, afirma Aguiar.

Fora de moda

No entanto, Artigas não acredita que a falta de incentivos seja o único problema para o crescimento do mercado de HQ nacionais. “O publico de quadrinhos envelheceu bastante. A nova geração só se interessa por mangá, portanto o mercado é sustentado basicamente pelos leitores dos anos 80 e 90”, declara. O ilustrador também afirma que existe muita resistência a títulos diferentes, o que ocasiona um pequeno círculo de publicações de sucesso.

Artigas também não se mostra otimista quanto ao futuro de HQ no país. “Hoje em dia quase não se lê quadrinhos. Por isso, não há interesse das editoras em apostar em um produto vende pouco. É um fenômeno cultural, mesmo se houvesse maior divulgação seria muito difícil reverter o quadro. No Brasil já é difícil publicar livros, que dirá quadrinhos” lamenta.

Ainda segundo Artigas, existem algumas formas eficientes de divulgação dos quadrinhos. “O melhor recurso é pegar carona em editoras ou comic shops famosas. Outra opção é mostrar o trabalho na Gibiteca e em sites especializados”, afirma. Ele completa que é essencial conseguir alguma parceria, e que isso não é muito difícil. “Normalmente o pessoal da área se ajuda muito”, finaliza.

Para José Aguiar, hoje em dia, é mais vantajoso distribuir quadrinhos em livrarias do que em bancas, como era feito antigamente. “O jornaleiro normalmente coloca os gibis do Homem Aranha e dos X-men na frente das produções locais”, declara. Ele completa que nas livrarias as HQs atraem mais olhares. “A principal vantagem das livrarias é que chamamos a atenção dos críticos literários, o que nos abre espaço para publicações em revistas de nível nacional”, conta.

Muita inspiração, mas pouco dinheiro

O ilustrador diz que os artistas curitibanos mais conhecidos são aqueles os que publicam quadrinhos nos jornais, em especial a Gazeta do povo. “A internet também ajuda muito na divulgação desse trabalho, mas nesse caso quase não há financeiro”, pontua.

Artigas diz que, assim como o Quadrinhopole, existem dezenas de quadrinhos curitibanos de qualidade, especialmente na cena alternativa, estilo ‘o autor banca’. Porém, nem sempre o trabalho é devidamente reconhecido. “Conheço dezenas de excelentes quadrinistas, tão bons ou melhores que os profissionais bem sucedidos da área, mas eles não são reconhecidos e precisam recorrer a trabalhos paralelos ou se resumem a colaborações esporádicas. Eu mesmo me encaixo neste esquema”, conclui.



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