Não é apenas a qualidade do ar nas ruas de grandes cidades que está baixa. Muitas vezes, os ambientes fechados não oferecem proteção eficiente contra a poluição externa. Casas, apartamentos, bares, bibliotecas e até mesmo escolas podem concentrar mais poluentes do que uma avenida movimentada, especialmente quando não favorecem a circulação do ar. O uso de materiais sintéticos que liberam substâncias químicas tóxicas também agrava o problema.
Segundo Ricardo Moreton Godoi, professor do curso de Gestão Ambiental da Universidade Positivo, escolas representam uma situação de risco a ser avaliada sem demora. “Estudantes passam a maior parte da vida acadêmica dentro da sala de aula, e isso pode comprometer sua saúde com o passar dos anos”, alerta. Em instituições próximas a ruas de grande movimentação ou a indústrias, o ar perde a qualidade, se não houver circulação constante. “Além disso, como o volume de ar é muito limitado, a concentração dos poluentes é maior”, explica o professor.
Por questões fisiológicas, crianças com idades entre cinco e dez anos podem ser afetadas com maior intensidade. “Normalmente, elas respiram com uma freqüência mais rápida do que outras pessoas. Além disso, em comparação com adultos, a proporção entre o volume de ar inalado e o peso corporal dessas crianças é maior”, aponta Godoi. Por outro lado, a absorção de poluentes é relativamente pequena, e por isso os efeitos não são imediatos. A frequência, porém, pode levar ao surgimento de sintomas crônicos (que só aparecem a longo prazo), e identificar suas causas se torna mais difícil com o passar do tempo.
De modo geral, ambientes fechados aumentam a disseminação de doenças respiratórias contagiosas, como gripes e resfriados. Em dias frios, é comum manter fechadas as portas e janelas de construções, o que dificulta a renovação do ar e aumenta o número de organismos causadores de doenças. A esse fenômeno dá-se o nome de Síndrome do Edifício Doente, conforme esclarece Godoi. Em hospitais, o problema pode ser ainda pior, especialmente quando a instituição atende pacientes de várias localidades. “Fica difícil mapear a origem dos doentes que acidentalmente contagiam outros pacientes e estudar os locais onde vivem se torna menos viável”, diz.
Os alarmes do organismo
Embora isso não seja perceptível a olho nu, a poeira doméstica contém uma enorme variedade de materiais: de partículas de madeira, terra e gesso a células da pele e microorganismos. Nesse último grupo, encontram-se principalmente os ácaros, pequenos aracnídeos que medem cerca de 0,3 milímetros. Algumas pessoas, devido a fatores genéticos, são alérgicas ao contato com esses microorganismos. “O sistema respiratório dessas pessoas produz determinado anticorpo, chamado imunoglobulina E, em resposta ao contato com os ácaros”, esclarece o médico Nelson Rosário Filho, professor do curso de Medicina da UFPR. Esse anticorpo estimula a produção de coriza, numa tentativa de expulsar os ácaros do organismo. A coceira é outra reação alérgica comum e, quanto maior a intensidade da alergia, mais forte será a resposta.
“Existem, naturalmente, remédios antialérgicos e tratamentos para atenuar a alergia. Contudo, nenhum substitui a prevenção”, aponta Rosário. Os ácaros se alimentam de restos de comida e de células da pele e se reproduzem com mais facilidade em ambientes úmidos. Como o ar seco também pode causar irritação no sistema respiratório, é mais indicado promover a circulação do ar do que combater a umidade. “Os ácaros costumam se reproduzir em lugares fechados, como armários e gavetas”, explica o médico. Lençóis são outro ‘refúgio’ e, por isso, devem ser lavados com certa freqüência. Por baixo deles, é recomendável usar revestimentos anti-ácaros, vendidos em supermercados.
Nem todos os agentes responsáveis por atacar alergias são microorganismos: componentes de produtos usados diariamente podem estar na lista. Um exemplo é a fumaça liberada por incensos, que apresenta aromatizantes que podem irritar o sistema respiratório. “Mesmo que a pessoa não seja alérgica, a inalação freqüente de qualquer tipo de fumaça pode causar doenças respiratórias a longo prazo”, alerta o pneumologista Carlos Eduardo do Valle Ribeiro. Certos materiais, quando inalados, se depositam nos pulmões e são eliminados apenas em parte. O acúmulo pode acabar comprometendo a saúde da pessoa com o passar dos anos.
Arquitetura e medicina
O combate às alergias deve ser feito em dois sentidos. “Quando o paciente suspeita que determinado produto lhe cause alergia, o ideal é que evite contato e procure um tratamento específico”, aponta Ribeiro. A segunda frente de combate é a construção de ambientes saudáveis. O Laboratório de Conforto Ambiental da UFPR, integrado por alunos de Arquitetura da Universidade, realiza pesquisas em construções. Entre os estudos feitos, está incluída a análise de efeitos negativos e positivos causados por determinados materiais, além das possibilidades de substituição.
Com o tempo, revestimentos (tintas, vernizes etc) e materiais sofrem desgaste, e as partículas liberadas podem afetar a saúde de quem freqüenta o ambiente. Algumas tintas podem ser especialmente problemáticas, porque liberam substâncias químicas, e por isso devem ser usadas com restrições. O uso de madeiras tratadas com produtos sintéticos para aumentar a durabilidade também deve ser estudado. A página do Laboratório já apresenta resultados de análises realizadas por alunos.
O termo ‘conforto ambiental’ inclui acústica, temperatura, iluminação e qualidade do ar em ambientes fechados. Conciliar todos esses aspectos demanda estudos de física, arquitetura, administração e de materiais propriamente ditos. De modo geral, vale o bom senso: manter o ambiente arejado sempre que possível, evitar o uso de produtos com aerosol e proibir a liberação de fumaça em locais fechados.
Leia aqui o texto dessa portaria na íntegra.
Serviço:
Site do Laboratório de Conforto Ambiental: http://burle.arquit.ufpr.br/~alschmid/
Leia a primeira parte do dossiê, que explora a questão hídrica da cidade.