Lucas Cavalheiro Bueno, 21, cursava Administração Internacional de Negócios quando decidiu trancar a faculdade e cair no mundo. Depois de três meses de viagem, Lucas voltou semana passada: trouxe no rosto um bronzeado, na mochila quase 20 gigabytes de fotos digitais e na mente memórias de uma experiência única. Para o estudante, viajar é viver: “Você aprende que existem diferentes maneiras de se relacionar com a vida, e diferentes formas de se buscar a felicidade – seja em um lugar rico como a Suíça ou em um país mais pobre como a Tunísia”,reflete.
Segundo Lucas, ‘estudar’ os países que serão visitados é uma forma eficiente de otimizar o tempo do visitante, bem como uma boa estratégia para esquivar-se de possíveis gafes. Se bem que, para um turista, tentar escapar de situações inusitadas e imprevistas é tentar evitar o inevitável. Mas a diversidade é bem-vinda: o estudante conta que em um albergue sueco, pedia-se que os hóspedes tirassem seus calçados e usassem somente meias. Ele gostou tanto da idéia que, ao voltar para o Brasil, adotou o costume; agora ele já entra em casa descalçando os sapatos, tal qual os suecos.
Outra experiência positiva que Lucas teve foi com relação à tolerância religiosa. Ele é cristão e bastante religioso, e por um momento se perguntou se isso não geraria conflitos em sua viagem à Turquia – país majoritariamente muçulmano. Mas toda a sua ansiedade se dissipou assim que ele começou a observar e interagir com a população local. “Os muçulmanos respeitam os cristãos e judeus como os outros povos abençoados por Deus”, diz. Ele comenta que se trata de um ambiente diferente, onde o viajante sente-se seguro entre fiéis, turistas e vendedores: “Lá eu me senti no céu, é muito diferente da loucura e da falta de tempo da atualidade. Essa foi a melhor lembrança da minha viagem”.
Instruções de vôo
É esse tipo de aprendizado que não se obtém dentro de uma sala de aula, diz a psicóloga gaúcha Andrea Sebben. Ela é especializada em psicologia intercultural, já escreveu dois livros relacionados ao assunto e veio à cidade na semana passada como palestrante em um evento promovido pela Central de Intercâmbio de Curitiba. A profissional se diz ser, acima de tudo, apaixonada por intercâmbios.
Em 1989 ela viajou para Madrid, onde planejava ficar durante seis meses. O prazo estipulado chegou, passou e Andrea não voltou para o Brasil – os tais seis meses se tornaram quatro anos. “Sempre digo que intercâmbio tem data para começar, mas não para terminar”, brinca. Mas ocasionalmente o coração aperta – ela mesma afirma ter chorado ‘baldes de lágrimas’ longe do lar brasileiro. A perda é muito repentina e a experiência é solitária, diz Andrea, mas a adaptação no país de destino depende do desapego da vida aqui. Isso significa: nada de passar horas na internet conversando com o pessoal da ‘terrinha’. “Uma vez por semana é suficiente”, avisa.
Há riscos, mas Andrea garante que eles são ofuscados pelos benefícios que essa prática proporciona. “A pessoa não aprende os costumes de um local, ela os vive. Trata-se de uma experiência muito mais rica”, teoriza. De acordo com a psicóloga, as pessoas que travam relações interculturais fortalecem sua auto-estima, tornam-se mais determinadas e desenvolvem a criatividade e a inteligência. Atualmente ela coordena várias agências interculturais que, através de treinamentos, preparam o indivíduo para lidar de forma positiva com o stress aculturativo e aproveitar ao máximo sua viagem.
Novos olhares
O jornalista Gabriel Tabatcheik Comin, 25, ansiava conhecer lugares novos. Ele era jovem, solteiro e com tempo disponível para realizar uma viagem, só faltava uma coisa: dinheiro. Mesmo assim, a vontade falou mais alto. Ele se inscreveu na tripulação de um cruzeiro que percorreria a América do Sul e, nas horas vagas, visitou os locais em que o navio atracou. O trabalho foi mais árduo do que Gabriel supunha. Ele trabalhava como assistente de garçom de 12 a 13 horas diariamente, e se lembra de ter feito turnos de até 17 horas. A pressão por parte dos chefes era constante e o espaço em que os tripulantes podiam transitar era restrito; muitos desistiram e Gabriel pensou em fazer o mesmo. Apesar dos contratempos, o esforço valeu a pena. “Há locais que conheci e cenas que presenciei de que vou me lembrar para sempre. Mais do que isso, cada lugar que eu visitei me transformou”, analisa.
Ao contrário de Lucas, Gabriel decidiu não se informar com antecedência sobre os países que iria conhecer: “A minha idéia era ser surpreendido pelo lugar”. Ele não sabia muito sobre Malta, por exemplo, mas aprendeu sobre o país aos poucos, enquanto conversava com seus habitantes e observava a movimentação local. Essa interação expandiu o alcance de seu olhar, “passei a me dar conta de recortes da realidade distintos dos usuais” e a convivência com a tripulação do navio – composta de 30 nacionalidades diferentes – também lhe acrescentou muito nesse sentido. A diversidade cultural era incrível, e Gabriel afirma ter assimilado várias perspectivas novas graças aos seus companheiros de bordo.
A lei da buzina
Depois de passar quase um mês na Bolívia e no Peru, Marcelo Silveira Rossetin, 21, confessa não ter compreendido a lógica por trás do trânsito nesses países. Pelo que o estudante de Publicidade e Propaganda pôde notar, não há uma via preferencial institucionalizada. “A preferencial pertence ao carro que buzinar primeiro”, completa. Ele viu cruzamentos em que ambos os sinais ficavam amarelos ao mesmo tempo, e ao passo que um motorista brasileiro acharia isso bastante confuso, Marcelo enfatiza que mesmo assim o trânsito funciona.
O período que mais o marcou foi a passagem por Potosi, na Bolívia. Essa é a cidade que possui a população mais pobre do país, e 80% dessa população trabalha nas minas de prata. “Mas o que chamou a atenção”, fala o estudante, “foi que apesar de trabalharem em condições quase medievais, os habitantes possuem muito orgulho de fazer parte daquilo e de ainda guardarem tradições dos tempos da colonização”. Eles conservam o costume de construir ídolos dentro das minas, exemplifica, e oferendas são feitas a eles em busca de proteção. A viagem foi reveladora para Marcelo: “Você acaba percebendo que, apesar das diferenças, todos nós fazemos parte da mesma coisa. Apesar da barreira cultural, a gente conhece e se identifica com as outras pessoas. Talvez isso seja o início de uma mudança no mundo”, comenta.
Camaleoa
Narah Julia é jornalista, fotógrafa e autora do livro Clandestinos – Um diário dos brasileiros ilegais em Londres. Ela já esteve em tantos países que não é apropriado enumerá-los em uma frase – na verdade, uma lista seria bem mais conveniente. São cerca de 14, e ela passou no mínimo um mês em cada um deles. É de tirar o fôlego só de pensar. Narah conta que, quando viajou para o sudeste asiático, ouviu histórias que questionavam a higiene pessoal dos habitantes. Mas ela não se incomodou, passado algum tempo até já comia nos pratos comunais das famílias – com a mão, sempre que possível. Quando morava em Bali, gostava de ir às festas e fazer as preces hindus. “Sempre gostei de seguir os costumes de todos os países para onde viajei”, conta.
Ela prezava muito o sentimento de liberdade que tinha enquanto viajava, pois a cada dia conhecia novos indivíduos que lhe abriam novas possibilidades. “Gostei de saber que as pessoas, no fundo, são todas iguais! Tem objetivos semelhantes, sofrem por amor, preocupam-se com a família, amigos e carreira. Uns tem hábitos ou crenças diferentes, mas todos acrescentam e mudam muito a nossa vida”, completa.