RSS
Blog da Redação
Quem Somos
Expediente
Galeria
Fale Conosco
Impresso
Rádio
TV
Galeria






Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
18/08/08

Viajando pela cultura polonesa – ou pela história da minha família

por Lilian Wiczneski*

Meu primeiro contato com a cultura polonesa se deu em minha própria casa, nos almoços de domingo. Todas as semanas, me aconselhavam a não incomodar minha avó na cozinha, enquanto ela preparava cuidadosamente o delicioso pierogi - um pequeno pastel cozido, recheado de batata e requeijão fresco. E, até hoje, é só sentir esse cheirinho para lembrar da minha infância. Minha avó, dona Maria de Lourdes, não é ‘polaca’ de nascimento. Neta de alemães, cresceu no Brasil em uma colônia polonesa e, por isso, aprendeu a cozinhar a iguaria com tanta maestria. Já meu avô, seu Estephano, é filho de dois imigrantes que fugiram de sua terra natal (a Polônia) em busca de um lugar melhor para viver. Os dois são os patriarcas da família Wiczneski, e também o fio da meada dessa história.

Da mesma forma que meus bisavós – Maria Stefanoski e José Lourenço Wiczneski – se instalaram no Sul do Brasil, os avós de dona Amélia Burakoski Sary também procuravam terras com um clima mais ameno quando chegaram ao país. Um desses redutos foi a Colônia Muricy, fundada em 1878 e que fica a 10 quilômetros do centro de São José dos Pinhais. Combinamos uma visita a casa de dona Amélia e, ao chegar à Colônia, parecia que o calendário tinha voltado algumas décadas: a estrada é de chão batido, há um cemitério ao lado da igreja, um armazém de ‘secos e molhados’, entre outras antiguidades que compõem o cenário.

Na casa da família Sary, onde moram dona Amélia, o filho mais novo e a nora, pude encontrar alguns traços de modernidade: televisão, telefone, aparelhos de ginástica. Apesar desses itens, a vida no local ainda mantém as características tradicionais dos imigrantes. A família sobrevive do plantio de couve-flor e alface, vendido para empresas de cozinha industrial. E quem cuida de tudo são eles próprios – chegamos lá por volta das nove horas, e só então eles pararam de trabalhar para tomar o café da manhã (preparado no fogão a lenha). Dona Amélia, a matriarca, já com 74 anos, não vai mais para a lavoura. O trabalho dela é cuidar da casa – e da vida em comunidade. Responsável pela distribuição das capelinhas na Colônia, entoa cantigas tradicionais polonesas em dois corais e coordena as atividades da terceira idade. Fora as telas que ela mesma pinta e vende em festas locais.

Quando chegamos a casa, dona Amélia nos cumprimentou com um ‘dzień dobry’ (ou ‘bom dia’, em português). No dia seguinte, fui visitar meu avô, que tentou me ensinar a contar até dez em polonês. Acabei passando a tarde envolta em jeden, dwa, trzy, cztery, piéc, szesc, siedem, osiem, dziewiec e grudzien. Mais estranho do que a grafia é a pronúncia. Sem o áudio do gravador, é muito difícil dizer cada número corretamente – e olha que estamos falando dos básicos. Meu sobrenome – Wiczneski - por exemplo, eu falava de um jeito. Não só eu, mas também meus tios e primos.

Acabei descobrindo que a pronúncia certa é menos bonita, mas muito mais verdadeira. Pierogi não é tão difícil de falar, mas aí vem barszc, golabki, kluski, makowiec e kisiel. Sinceramente? Acho que eu não sirvo para falar polonês.

Se falar a língua é difícil, então melhor passar para uma das facetas mais famosas dessa cultura: a culinária. Já falei do pierogi, que eu gosto desde criança. Já o repolho azedo – chucrute – nunca me agradou muito, por isso sempre passei longe de pratos que o continham. Não foi difícil encontrar um restaurante que servisse a maioria das comidas típicas polonesas: pierogi, barszcz (sopa de beterraba com repolho azedo), bigos (cozido de costelinha de porco com funghi e repolho azedo), kluski (bolinhos de massa de batata e requeijão), gołąbki (charutos de repolho recheados com arroz e carne moída) e maçãs assadas com creme de leite. Uma comida forte, pesada, típica de países eslavos. Mas nada que um ou dois antiácidos não resolvam, não é mesmo? Até porque é tudo uma delícia. Apesar de ter recusado os pratos que tinham o tal repolho azedo em sua receita, os sabores diferentes, degustados em um local exótico, compensaram a visita.

Célia Antochevis, a dona do restaurante que visitei - o Nova Polska - herdou a propriedade de seus pais, imigrantes, que a construíram na Colônia Dom Pedro II, zona rural de Campo Magro. Célia levou cinco anos para reformar a casa, que foi toda restaurada nos padrões originais. Os tons fortes de rosa, vermelho, amarelo, verde e azul iluminados pelo sol transformam o local numa casa de bonecas – ou melhor, de poloneses.

Dentro do estabelecimento, Célia mantém alguns objetos que vieram junto com a propriedade. Centros de mesa, toalhas bordadas, lustres e objetos de decoração fazem parte da herança da família Antochevis e disputam espaço com as mesas e cadeiras do restaurante. A maior parte desse acervo fica exposta num galpão nos fundos do terreno, e todos os clientes são convidados a conhecer esse museu enquanto aguardam o almoço ficar pronto.

Esse cenário do restaurante é muito parecido com o encontrado no Memorial da Imigração Polonesa, no Bosque do Papa. O Memorial é composto por sete construções polonesas tradicionais, abertas à visitação de terça a domingo. As casas foram doadas para a Fundação Cultural e transportadas para o Bosque. Tudo começou em 1980, quando o Papa João Paulo II visitou Curitiba. Uma dessas casas, originalmente localizada na colônia de Tomás Coelho, foi levada ao Estádio Couto Pereira, onde o Papa realizou uma missa. Posteriormente, a casa foi levada ao Bosque e transformada em uma capela dedicada a Nossa Senhora de Czestochowa, padroeira da Polônia. A partir daí, outras seis construções de imigrantes foram levadas ao local, formando o Memorial. Lá, elas servem como quiosque para venda de artesanato, salas de exposições e museus.

Danuta Lisicki de Abreu é coordenadora do Bosque do Papa. Ela veio da Polônia para o Brasil com 13 anos, e diz que gosta de seu emprego porque pode manter um elo entre a cultura da Polônia e a população brasileira. Danuta conta que o Memorial é mantido pela parceria entre a Missão Católica Polonesa no Brasil e uma cooperativa de artesãos, que são os responsáveis pelas peças de artesanato à venda. As pessankas e babuskas são os itens mais procuradas, mas também encontramos cartões postais, caixinhas de mosaico e toalhinhas bordadas, tudo no melhor estilo ‘polaco’.

Dona Danuta faz questão de explicar para os turistas o significado de cada lembrança. Pessanka é o ovo que pode ser decorado de diversas maneiras, dependendo da região da Polônia originária: pode ser no fogo, com tinta, em forma de mosaico, etc. Todo o trabalho é feito à mão, e presentear entes queridos com pessankas é uma tradição polonesa muito antiga. Já a babuska é uma boneca que contém uma outra menor em seu interior, e assim por diante. Normalmente, cada babuska possui entre cinco e sete bonequinhas. Elas representam a unidade familiar, e reza a lenda que trazem sorte para quem as recebe.

E que tragam sorte mesmo, pois a cultura polonesa é muito rica. Não tenho cara de polonesa (apesar de meu avô sempre falar que sou muito parecida com a mãe dele – a tal dona Maria Stefanoski), mas tenho orgulho de ter esse sangue. Nesse mergulho pela cultura da Polônia em Curitiba, acabei descobrindo detalhes de um país que me fizeram admirar ainda mais a terra de meus familiares. Por que você não faz o mesmo?

* Lilian Wiczneski é estudante de Jornalismo da UFPR


Enviar comentário


O conteúdo deste campo não será publicado.
*
+
Comentários (5)
Copyright © 2010 Comunicação. Desenvolvido por Célio Yano, Vítor Yano, Gabriel Brum e Tiago Capdeville
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização da equipe do Comunicação On-line | Login