Grande parte dos cargos públicos ofertados pelas empresas do Paraná era, há dez anos, ocupada por pessoas de fora do Estado. Os candidatos daqui não eram bem preparados e simplesmente não existia o interesse no funcionalismo público. Essa situação mudou quando Carlos André Silva Tàmez, ao vir do Rio de Janeiro para o Paraná a fim de ocupar a vaga de Auditor Fiscal da Receita Federal, começou a dar aulas nos cursinhos preparatórios para Concursos Públicos e discordar dos métodos de ensino utilizados.
Após um tempo como professor e funcionário da Receita Federal, ele resolveu montar um negócio. Implantou em Curitiba seus próprios métodos de ensino e se dedicou a mostrar aos curitibanos as vantagens de ser servidor público. Hoje, cerca de 20 mil pessoas por ano ingressam em seu curso preparatório atrás de um cargo de estabilidade e boa remuneração.
Além de um aumento na preparação e qualidade dos funcionários públicos ingressantes, é o surgimento de uma nova situação profissional: os chamados concurseiros, gente que passa um determinado período estudando - pode ser de alguns meses a vários anos - para conseguir um lugar no funcionalismo. Carlos André continua nos cargos de Auditor da Receita Federal e Coordenador e dono do Curso Aprovação. A seguir, a entrevista exclusiva que concedeu ao Comunicação On-line.
Comunicação - Como você define os concurseiros – pessoas que estão se dedicando exclusivamente ao concurso público?
Carlos André - São pessoas que estão descobrindo que as oportunidades do serviço público são muito interessantes. Às vezes mais vale você trocar um sonho de realização profissional (que pode nem estar ligado à profissão que você escolheu) por algo mais material, mais tangível – remuneração, estabilidade, benefícios da carreira. Muita gente sonhou em ser dentista, jornalista, astronauta. Ninguém sonhou em ser policial, auditor ou analista. Mas cada vez mais pessoas estão acordando para essa realidade de oportunidade de mercado. Algo que não é novo, mas que, culturalmente, está se expandindo. Então, o perfil dos concurseiros é ideológico. Não é de idade, profissão, sexo, cor ou religião. São as pessoas percebendo as oportunidades que o serviço público oferece.
Comunicação - O objetivo mais almejado por quem opta por um cargo público é construir uma carreira e se dedicar ao crescimento dentro da empresa ou é a simples estabilidade e segurança de emprego?
CA - Nós temos de tudo, isso é particular da pessoa. Ou seja, existe o “se eu conseguir um emprego de dois, três mil reais, tá bom, quero ficar assim” e também existe quem procura cargos que pagam melhor – começa com dois e passa para cinco, dez, quinze mil reais. E tem as pessoas que têm planos conciliatórios. Essas procuram estabilidade no serviço público, às vezes como um trampolim para ter uma condição econômica ou para uma atividade privada - porque não é proibido ao servidor público exercer outra atividade, desde que não seja incompatível com a sua atividade pública. Então você pode ter, por exemplo, um servidor público que quer continuar fazendo projetos de arquitetura ou atividades jornalísticas em um horário compatível com seu horário de trabalho. Esse perfil é muito diversificado, tem pessoas com todos os tipos de objetivo.
Comunicação - Dentro de uma concorrência como a do Concurso de Fiscal do Trabalho 2006, de 40 mil inscritos para apenas duzentas vagas, quantos dos candidatos são aventureiros e quantos são os concurseiros de verdade?
CA - Não existe um dado confiável sobre isso porque não existe nenhum tipo de pesquisa na hora da prova ou nas instituições que organizam o concurso. Mas eu diria, baseado na comparação entre o número de alunos que estão assistindo aulas num curso preparatório e o número de alunos que prestam o concurso, que o número de alunos que assistem aula não chega a 20% do número total dos que fazem a prova. Pode-se somar a isso mais cerca de 20% que se aventuram a estudar sozinhos, e mesmo assim vão sobrar pelo menos 50% de pessoas que vão fazer a prova por pura aventura. Um dado mais confiável é o seguinte: sempre que eu estou conversando com alunos de cursos preparatórios, eles afirmam que em alguma oportunidade já fizeram um concurso como aventureiros. Então é comum as pessoas acharem que dá para arriscar, “vai que eu consigo”. E com a concorrência de hoje, é praticamente impossível você conseguir algum sucesso se você não tiver todos os recursos à sua disposição.
Comunicação - Antigamente se dizia que o Paraná não tinha cultura de Concurso Público. Isso Mudou? O que faz cada vez mais pessoas apostarem na carreira pública?
CA - Mudou, com certeza. Dez anos atrás, o Paraná não era um centro de referência em Concursos Públicos no país. Eu gosto de exemplificar com o concurso da Receita Federal, porque eu sou um Auditor da Receita. Quando eu fiz a prova eram cem vagas para o Paraná e nós éramos em mais de 80 de fora do estado. Ou seja, as pessoas vinham de outros lugares tomar as vagas do Paraná porque os candidatos daqui não se preparavam com a intensidade com que as pessoas de fora se preparavam. Já no último concurso da Receita Federal, foram 270 vagas para o Paraná e Santa Catarina, e eu posso dizer que pelo menos 240 vagas foram pra alunos daqui. Muito pouca gente de fora. Cada vez mais as pessoas conhecem alguém que teve sucesso e que está em um outro nível de vida por causa do concurso público. O efeito inercial disso faz com que o boca-a-boca dissemine muito mais do que como foi dez anos atrás. Eu resolvi abrir o Curso Aprovação por causa da minha perplexidade em termos de vagas, de como as pessoas de fora vinham pra cá. E conhecendo os cursinhos que havia aqui na época eu percebi que o modelo de preparação era totalmente ineficiente comparado ao que se fazia no Rio, São Paulo, Brasília – que são centros tradicionalmente ligados ao funcionalismo público.
Comunicação - O que a preparação pré-concurso tem de semelhante com a preparação pré-vestibular?
CA - Nada. É um ritmo totalmente diferente, os alunos são totalmente diferentes. O professor que dá aula em curso preparatório pra concursos, dá aula em qualquer lugar. Mas é muito comum professores de faculdade começarem a dar aulas em curso preparatório sem chegar a completar (todas as aulas). Os alunos não o deixam terminar. O aluno de concurso público é um aluno extremamente exigente. Ele reclama que o professor chega atrasado na aula, reclama se o professor libera mais cedo da aula, reclama se o professor deixou de falar de um assunto. O aluno de concurso público não está aqui para passar no vestibular e agradar o pai. Ele está atrás de salário pra pagar conta, atrás de uma necessidade básica de sobrevivência da família, de sustentação. A motivação desse aluno é muito grande. Por causa disso o perfil do aluno, do professor e da aula são muito diferentes.
Comunicação - A respeito dos níveis de desistência, como são? Existe essa coisa de um aluno entrar no curso pra ver como é, achar muito puxado, perder a esperança e desistir antes mesmo de fazer a prova?
CA - Antes de fazer a prova não, porque as pessoas ainda têm aquela ilusão de que vão conseguir mesmo com pouco sacrifício. A ficha cai no dia em que você vai fazer o concurso e toma uma bordoada. O normal do concurso público é ser reprovado, as pessoas têm que entender isso. Se forem 40 mil inscritos e 400 vagas, 39.600 serão reprovados. Então é normal você prestar vários concursos até ser aprovado. O que acontece em termos de desistência é a pessoa fazer um curso, dois, não ser aprovada e aí desistir - o que é um grande erro, porque o concurso público é o melhor investimento que você pode fazer na sua carreira profissional. Você estuda seis meses, um ano, para ter um emprego estável para o resto da vida e uma remuneração ótima.
Comunicação - Muitos se formam em uma faculdade e acabam se dedicando a um cargo público de uma área completamente diferente da sua formação. Isso pode ser encarado como um sinal de descrença no mercado profissional?
CA - Não acredito que seja descrença. Acredito que seja uma adequação. O nosso modelo profissional faz com que as pessoas tenham que optar muito cedo. Uma pessoa com dezoito, dezenove anos não tem maturidade para decidir o que é que vai levar a vida dela. As pessoas pensam que a sua realização vai estar em ser um determinado profissional. Mas a sua realização vai estar em um trabalho que dê não só a satisfação profissional como uma estabilidade social e financeira para a sua família. Você precisa ter o lado material junto com esse lado de idealismo, de realização. Eu sou formado em Ciências do Mar e sou Auditor da Receita Federal. As pessoas que passam no Concurso Público são das profissões mais variadas, porque ninguém se formou em funcionário público. Então todo mundo, por definição, tem que vir de outra profissão. Isso não é por causa da descrença, nem por causa do aumento do desemprego, nem por causa da crise no país. Tudo isso são desculpas para tentarmos entender porque está havendo essa adequação às ofertas de emprego do serviço público. No passado, o Estado não remunerava tão bem. Ele passou a entender que também precisava de uma boa remuneração para atrair bons funcionários. Hoje, devido a essa concorrência, você vê no quadro do funcionalismo público pessoas capacitadíssimas.
Comunicação - Falando agora da vida de quem faz concurso: qual é a verdade atrás dos boatos de que concurseiro não tem vida social, que fica careca por causa do stress, que perde a mulher…?
CA - Nesses anos preparando alunos eu exerço muito o papel de conselheiro - afinal dentro do curso eu sou coordenador e fundador, mas trabalho no serviço público. As pessoas me usam muito como ícone, porque eu fui um concurseiro. Posso dizer que quando me preparei para o concurso da Receita Federal, eu realmente não saí, não fui a lugar nenhum. Não fui ao aniversário da minha mãe, que estava acontecendo na minha casa! Estava trancado no quarto estudando e sessenta pessoas estavam fazendo uma festa dentro da mesma casa em que eu estava estudando. Eu uso como exemplo um exagero como esse, mas ele faz parte de um comprometimento. Eu estava a uma semana da prova. Não tinha como ficar tranqüilo numa disputa sabendo que eu estaria perdendo tempo. Então eu posso dizer pra você que é verdade: o concurseiro abre mesmo mão da vida social. E eu costumo falar brincando que é na hora em que você vai fazer concurso que aparecem os amigos, aparecem as namoradas, aparecem todas as oportunidades pra te fazer sair disso. É incrível. Mas é isso que faz o aluno passar ou não passar. Ninguém gosta de ficar trancado, mas esse sofrimento é temporário. Eu passei por isso por um ano, e já sou funcionário público há vinte e dois. Vinte e dois anos de tranqüilidade, estabilidade. Eu não me preocupo no final do mês, o dinheiro sempre vem. O sofrimento é intenso, mas ele é curto. O benefício é eterno. Então vale a pena? Tranquilamente. No que tange a fim de relacionamentos, eu já vi muitas famílias se desfazerem. Mas se você é solteiro, com dez mil reais de salário você não vai ficar sem namorada.
Comunicação - E a idéia de que funcionário público trabalha pouco e ganha muito? Ela ainda existe?
CA - É outra falácia, assim como aquela de que funcionário público é corrupto e incompetente. Isso acontece mais nas regiões em que as pessoas não têm cultura de concurso público. Um familiar meu não falaria isso, porque conhece. Algumas pessoas confundem porque o funcionalismo público tem cargas horárias diferentes. Por exemplo, tem gente que trabalha em plantão de 24 por 72 horas. Trabalha um dia de plantão e fica três em casa. Aí você vê um funcionário público três dias em casa e acha que ele está na mamata, mas não viu que ele ficou 24 horas de plantão.
Comunicação - Muitos cargos públicos não exigem formação específica. Qual o índice de insatisfação de pessoas que abandonam a carreira de sua formação para atuar no funcionalismo público?
CA - Eu diria que não é muito alto. Na maioria das vezes, quando uma pessoa procura um cargo público, é porque ele já não se realizou profissionalmente e financeiramente no seu cargo privado. Vou usar como exemplo o caso do jornalista. “Ah, eu adoro ser jornalista”. Aí você trabalha dez anos e não consegue uma remuneração decente para dar educação para os seus filhos. Normalmente o ser humano vai canalizar esta frustração não para si próprio, que foi quem escolheu a profissão, mas para a profissão. Ou para o país. Então na hora em que você adota uma nova profissão, e ela te dá remuneração suficiente para você poder oferecer tudo o que você sempre quis, você passa a ser grato a ela. Obviamente você vai encontrar pessoas insatisfeitas em qualquer área. Mas na maioria das vezes as pessoas têm uma satisfação muito grande.