Simples como ligar o computador, está cada vez mais fácil participar ativamente da rede. Destaque nas discussões atuais, o termo Web 2.0 representa a chamada segunda geração da internet, caracterizada pela troca de informações e colaboração dos internautas em sites e serviços virtuais. A tendência é que o ambiente on-line se torne mais dinâmico e que os usuários colaborem para a organização dos conteúdos, graças ao desenvolvimento das tecnologias de internet.
O Ajax, por exemplo, é um conjunto de ferramentas que permite a criação de interfaces rápidas e fáceis de usar. Em outras palavras, ninguém precisa ser um especialista em linguagem HTML, ou outra programação, para participar de uma rede de relacionamentos como o Orkut ou fazer ligações interurbanas com o software Skype.
Além de serem populares, serviços como esses não precisam de mão-de-obra especializada, podem ser acessados de qualquer computador, são ágeis e baratos, o que também chama a atenção das empresas. É o caso da IBM, que aboliu suas teleconferências e passou a utilizar uma interface similar ao jogo on-line Second Life em suas reuniões. Nessa plataforma, seus funcionários controlam suas representações virtuais – chamadas avatares – para se deslocarem e interagirem nesse mundo.
Apesar de o termo ter surgido em 2005, a Web 2.0 está longe de ser um conjunto de regras ou fórmulas prontas para aplicação. Na última conferência realizada sobre o assunto, em São Paulo, no final de fevereiro, os debatedores ainda divergiam se, com o advento da nova tendência, os produtores de conteúdo teriam que arranjar outro emprego – algo parecido com a velha discussão de 1950 sobre a TV substituir o rádio.
Mercado anunciante
O Brasil possui 30 milhões de usuários de internet, contingente responsável por 80% do consumo no país. Em entrevista à revista Propaganda, Pedro Cabral, presidente da AgênciaClick, especializada em webdesign e estratégias em internet para empresas, compara: “Hoje, temos 5,5 milhões de usuários na TV a cabo contra 30 milhões na internet. E quem tem internet tem TV a cabo”. Esses dados representam um olhar atento do mercado anunciante para a tendência Web 2.0. “Quase toda propaganda selecionada no Festival de Cannes está de algum modo ligada à interatividade”, lembra.
Exemplos disso não faltam. Recentemente, a agência curitibana de publicidade CCZ Elétrica coletou diversas informações sobre um cliente e seus consumidores em comunidades do Orkut para a produção de um vídeo, lançado anônimo no Youtube. Ao total, a ação de marketing viral rendeu mais de 4 mil visualizações em apenas três dias. A Coordenadora de Planejamento da agência, Marina Szarfarc, explica que o novo consumidor foi criado com a internet e agora se sente à vontade para interagir com as marcas. “As lojas de varejo também aplicam o que chamamos de experiência de marca. O fato de os consumidores aderirem cada vez mais a essas formas de participação é uma extensão ‘off-line’ da tendência Web 2.0”, conclui.
Democratização
O termo Web 2.0 surgiu em 2005 na Web 2.0 Conference, um evento criado para discutir o ambiente on-line e seus novos modelos de negócio. Neste cenário, muitos críticos consideram que tudo não passou de uma jogada de marketing para fomentar novas rodadas de negócios e investimentos na área. Outros defendem que não existe uma segunda geração de aplicativos de web, apenas uma evolução natural da própria internet. Comentando a revista norte-americana Time, que elegeu o cidadão comum como o Personagem do Ano de 2006 por sua importância como controlador da Era da Informação, o jornalista português João Morgado Fernandes alertou para o “amontoado de lixo” crescente, bem como para a falta de um “paradigma civilizacional” no mundo virtual. Em entrevista ao Comunicação On-line, o professor do Departamento de Informática da UFPR, Razer Montaño, posicionou-se frente a essas questões.
Comunicação – O senhor concorda com a versão de que a Web 2.0 seja uma “segunda geração” da internet?
Montaño – A internet continuará sendo o que todos conhecemos. A tendência a que muitos se referem trata da construção de aplicativos e dos detalhes que estes apresentarão, seguindo novas tendências tecnológicas. Obviamente, com aplicativos mais ricos e toda a internet à disposição, o intercâmbio de informações, interatividade e acessibilidade poderá crescer exponencialmente. De imediato, a Web 2.0 não traz nada de novo para a sociedade, a não ser que haja um desenvolvimento de aplicativos mais interativos, tanto com seus usuários como com repositórios de informações distribuídos pelo mundo.
Comunicação – Sobre o que apontou o jornalista português à revista Time, o senhor acha que aqueles são problemas a serem resolvidos quando se discute Web 2.0?
Montaño – Não. Só o fato de as empresas/desenvolvedores disponibilizarem aplicativos seguindo a tendência tecnológica da Web 2.0 não fará com que as informações se auto-organizem. A organização das informações é de responsabilidade inerente de seus produtores e das instituições que as armazena. O lixo crescente na internet ainda existirá, pois sempre haverá produtores de “spams” (e-mails indesejados), "hoaxes" (boatos na internet), vírus (programas maliciosos), sites de conteúdo impróprio, etc.
Comunicação – Opiniões divergem sobre o que pode parecer apenas mais um "espelho dos desequilíbrios existentes". Até que ponto o senhor considera válida a correspondência entre Web 2.0 e democratização do meio e das informações?
Montaño – Não considero válida pelo simples fato de que a democratização do meio e das informações já existe, em baixo ou alto teor. A Web 2.0 não trará nenhum benefício e/ou aumento neste acesso. Para acessar a internet ainda será necessário um computador e um acesso à rede. A partir disto, consegue-se toda a informação que se queira, desde que o detentor da informação a tenha publicado. O que se ganhará com isso é, uma vez disponibilizada a informação, a rapidez no acesso, riqueza das interfaces e interconexão mais comum entre fontes de dados.