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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
22/09/08

Do experimental ao convencional

por Shenara Pantaleão*

Primeiramente, gostaria de me desculpar pela minha ausência nas postagens. Para compensar o atraso, na coluna de hoje irei analisar as edições de agosto e de setembro do Comunicação impresso.

Em relação à edição do mês 08, a idéia de fazer uma edição com um jornalismo experimental, onde o repórter tem voz ativa, é uma forma de resgatar o que vejo pouco neste veículo: a possibilidade de inovar. É claro que, acima de tudo, o Comunicação é uma escola para o mercado de trabalho. É importante ter uma idéia, mesmo que distante, do que é apurar, editar e participar de cargos executivos de um jornal. Mas acho que essa edição impressa foi marcante, pois explorou a criatividade e deixou de lado aquele jornalismo “quadradão”, careta e mecânico, que boa parte dos futuros profissionais vão ter que se adaptar e acolher pela vida inteira. A imagem da capa está excelente pois reforçou a sensação de experimentar. A capista está de parabéns.

A matéria que a capa traz em destaque é “Exame de paciência gratuito”, da editoria Geral. Ela foi uma bela matéria de denúncia e explorou bastante a possibilidade de vivenciar aquilo que cobriu. A única crítica a ser feita é em relação ao trecho: “Conforme os dias se passavam, ela piorava. Uma, duas, três vezes ao banheiro”. A segunda frase ficou sem nexo. Talvez a utilização de um verbo pudesse resgatar esse nexo; algo como: “Uma, duas, três vezes indo ao banheiro”.

Em “Não contaminarás. Cuidarás da terra”, da editoria de Ciência & Tecnologia, a matéria deixou de passar algumas informações para o leitor no trecho: “Esse experimento, com argila, é diferente do anterior: as partículas são menores, dispostas de modo mais organizado, e reagem de uma forma diferente ao spray de teflon.” Enquanto leitora, senti a falta de que o repórter explicasse como a argila reage ao teflon. No último parágrafo da matéria, o entrevistado diz que tem a intenção de criar um indutor de repelência usando uma substância do próprio chorume, ao invés do spray de teflon. Aí me surgiu um outro questionamento: o chorume tem propriedades parecidas com as do teflon? Acho que em matérias de Ciência & Tecnologia, o repórter deve ter uma atenção redobrada ao que está relatando. Quem é leigo no universo científico não consegue compreender certos processos, os quais devem ser explicados da maneira mais didática possível. Inclusive, essa é uma crítica pessoal que faço, principalmente, às editorias de Ciência e Economia dos grandes jornais. Vejo que essa é uma das causas do desinteresse que grande parte dos leitores tem normalmente com essas editorias. Foi adotado um vocabulário distante do leitor comum e próximo apenas de quem entende do assunto, sendo que quem entende do assunto já sabe o que está escrito ali e não encara como uma novidade sensacional, como um leitor leigo no assunto encararia.

Essa característica se repetiu na matéria “Acima do chão e abaixo do céu, um teto” da editoria de Política. Nos seguintes trechos, há termos jurídicos que podem não ser compreendidos pelo leitor: “(...) os irmãos entraram com um pedido de usucapião” e em “vendeu apenas o direito possessório”. Acho que seria interessante ter um parêntese dando uma rápida explicação desses termos. Outra crítica é em relação ao trecho: “Segundo alguns, há casos em que esse dinheiro nem foi pago”. Sobre isso, fica a pergunta: Quem são esses alguns? Algo parecido foi encontrado no trecho “diz o funcionário da mineradora, João Faria”. Qual o cargo desse funcionário? Acho interessante especificar isso até para dar mais credibilidade à matéria e à informação que ele passa, já que o termo funcionário engloba do porteiro ao presidente.

Outra questão que observei, no mesmo texto, foi a repetição de informações. No terceiro parágrafo, o repórter relata quem apóia a manifestação. Só que no 10º parágrafo ele repete a informação de forma resumida. Na minha opinião, para evitar essas repetições, o repórter deve hierarquizar os elementos de seu texto deixando sempre as informações afins próximas. Neste caso, eu a colocaria no 10º parágrafo, quando o assunto é o apoio aos moradores, e não no início da matéria. Além disso, acho que faltou na matéria o posicionamento do Estado, já que o terreno é dele.

Na editoria de Comportamento, a matéria “Não é fácil fazer a moeda aparecer” foi muito bem escrita e conseguiu trazer a realidade que muita gente desconhece de forma clara e curiosa. A única observação a ser feita é que não precisamos contar algo com o máximo de inovação, mas também devemos evitar cair em termos clichês, como a abertura dessa matéria, que diz: “A manhã de quinta-feira, dia 17 de julho, poderia ter sido como outra qualquer, mas não foi”.

A editoria de Cultura também teve uma matéria muito bem escrita. A única observação a ser feita em “Mil e uma noites em Curitiba” é na fala de um dos entrevistados em que ele diz ser muçulmano sunita. Por ter origens árabes, sei que a religião muçulmana tem diversas correntes, as mais conhecidas são a Xiita e a Sunita. Mas acho que faltou explicar para o leitor o que é Sunita e o que diferencia esta corrente da Xiita.

Edição de setembro

A capa foi merecedora de destaque nesta edição. Bem colorida e criativa, conseguiu trazer um ar atraente ao tema científico.

Em relação às matérias, elas saíram do experimentalismo da edição anterior, mas, no geral, estão muito bem escritas. Porém, apesar das mudanças, os assuntos às vezes se repetem. Isso foi observado na editoria de Opinião, em que pela segunda vez trouxe um tema ligado ao sistema carcerário. Para mim, apesar de a entrevista ter sido bem interessante, existem outros assuntos acontecendo no mundo que também são merecedores de atenção, como o reflexo das eleições americanas no Brasil, por exemplo. Acho que a publicação de “À espera de uma mensagem” poderia ter esperado mais um pouco.

Já na editoria de Esportes, a matéria está muito bem escrita e a imagem utilizada é muito bonita. Porém, em relação ao texto, observei que as informações se repetiram no trecho: “O Centro de Treinamento tem sua sede em Curitiba desde 2002 e vem treinando grande parte dos atletas que participam das equipes de ginástica artística”. Existe uma informação praticamente igual no primeiro parágrafo. E, para mim, ela só deveria ter aparecido no início da matéria.

Na matéria “A política da boa aparência”, da editoria de Política, uma das entrevistadas destaca a importância de cursos preparatórios antes de iniciar a campanha. Porém ficou faltando exemplificar quais são os cursos que se deve fazer.

Em “O dia-a-dia de gente pequena”, senti falta de dizer a altura de Luiz Henrique Verdasca, já que em todos os outros personagens o tamanho ajudou a caracterizar o entrevistado.

*Shenara Pantaleão é aluna do 7º período de Jornalismo da PUC-Rio


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