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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 23/10/08 às 18h07

As nuances da violência contra a criança

Especialistas explicam como identificar e combater violência infantil
Reportagem Luciane Belin
Edição Flávia Silveira
Sxc.hu
O isolamento e a agressividade são sintomas de que a criança pode estar sendo violentada
O isolamento e a agressividade são sintomas de que a criança pode estar sendo violentada

Professores, educadores, e profissionais em geral da área da educação e serviço social participaram, neste sábado (18), de um seminário realizado no prédio Dom Pedro I, da UFPR, a respeito da violência infantil. O evento, que tinha como tema “Violência escolar: o que sabemos e o que podemos fazer”, trouxe informações e posicionamentos diferentes a respeito deste assunto que presente com força no dia-a-dia das crianças brasileiras.

Segundo Josafá Moreira da Cunha, mestrando em educação pela UFPR, o objetivo principal é trazer esse problema à tona e instruir os profissionais sobre a forma como reagir a ele. “A idéia é mostrar o que a literatura científica no Brasil e no exterior tem mostrado sobre a violência escolar, e o que podemos fazer com isso”, explica.

Para Ana Elisa de Oliveira, também mestranda em Educação pela UFPR, esse tipo de discussão deve acontecer ainda com mais frequência: “Não só aqui dentro do espaço da universidade, mas também nas escolas, levar isso pra fora, sair do impacto do auditório”, diz.

Como acontece?

A violência que atinge as crianças não acontece apenas de uma forma. Agressão física, intimidação através de ofensas verbais e isolamento da escola estão também entre as formas como uma criança é violentada. Segundo a professora Araci Asinelli da Luz, doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), a violência sexual é famosa, hoje, mas os maus tratos que acontecem de maneiras mais moderadas também influenciam no crescimento da criança e na formação de sua personalidade.

Ela usa como exemplo a prostituição, que é, na verdade, segundo a doutora, é um trabalho, a ação de vender o corpo; e uma criança não tem maturidade suficiente para fazer essa escolha. “Quando falamos em prostituição, estamos colocando como se a criança escolhesse esse caminho. Prostituição infantil não existe, o que existe é exploração sexual”, explica.

Formas como homofobia - discriminação e abuso causado pela opção sexual -, e o bullying - formas de violência de pequeno porte, mas que podem se agravar -, são menos perceptíveis, consideradas menos graves, mas podem ser as responsáveis pelos piores resultados na educação infantil. “Estão batendo na nossa porta o tempo todo, e estamos fingindo que não estamos vendo. Falta ação, falta partir para a defesa, para a prevenção”, diz Ana Elisa. Para ela, é justamente o caráter de “brincadeira” que agrava a situação e faz com que esses tipos de violência sejam considerados irrelevantes. “A forma de vitimação a partir das brincadeirinhas, que parecem estar só no campo simbólico, não estão no campo visível, mas acontecem, ofendem, magoam, entristecem e fazem com que as pessoas tenham pouco desejo de estar dentro do grupo”, explica.

Formas de violência:

Atentado violento ao pudor: Adultos ou crianças mais velhas agem de forma a agredir moralmente a criança;

Incesto: Violação sexual por parte dos pais ou familiares;

Sedução: Quando a criança se sente seduzida ou apaixonada por alguém mais velho;

Estupro: Acima de 14 anos, sem consentimento da criança; abaixo de 12 anos, com ou sem consentimento.

Corretivo, forma de educar: Bater como forma de ensinar a educação. Quando começa leve (tapas, chineladas) e agrava-se no futuro.

Como perceber?

A criança começa a faltar aulas demais, seu rendimento escolar cai, ela deixa de ser receptiva e alegre como era normalmente. Além disso, sonolência freqüente, isolamento, silêncio e agressividade também são ‘sintomas’ de violência infantil. Kelly Cristina Rosa, que trabalha com o Serviço Social da Saúde em Pinhais, explica que os sinais são a única forma que a criança tem de expressar sem medo o que está acontecendo. “O que se nota de imediato é a alteração de comportamento. Ela não diz pra você que está sendo violentada, mas ela vai se sentir coagida em todas as circunstâncias”, afirma.

Kelly acrescenta que o contato, o olhar da criança é um dos principais modos de identificar o problema. “Normalmente essa criança não reage mais como costumava reagir, não olha pra você nos olhos; não olha nos olhos nem do pai e da mãe, tem medo até dela mesma”, explica.

Brincar, gritar, pular. A agitação que é característica mais forte de qualquer pessoa no período da infância simplesmente desaparece. A criança fica retraída, busca sempre o isolamento por que tem medo do contato com o ser humano. “Ela brinca sozinha, procura não ficar perto de ninguém que possa dizer pra ela que o que ela está fazendo é errado”, alerta Kelly.

E o que fazer?

O lugar onde essa gama de reações e a distorção de comportamento são mais visíveis é, geralmente, na escola. É onde a criança se sente mais confortável para liberar a tristeza e onde tem a sensação de estar mais protegida, por estar entre outras crianças. “É na escola onde a violência mostra as caras. Há uma série de coisas que não fazem parte daquilo que é normal no comportamento de uma criança, e só se demonstra nesse ambiente”, afirma a professora Araci. Para ela, a importância dos professores e dos adultos que convivem com a infância e adolescência, nesse aspecto, é primordial. “O que deve acontecer é treinamento dos pais e professores para que saibam perceber através das atitudes da criança se existe algum tipo de violência acontecendo com ela”, opina Araci.

A forma ideal para preparar esses profissionais, segundo a professora, é através de cursos, palestras, debates, e monitoramento dos ambientes escolares. Além disso, os próprios pais devem estar atentos desde o momento da concepção de um bebê. “Há falta também de cuidado, de programas de pré-natal que abordem a temática”, alerta.

Qualquer pessoa é capaz de identificar numa criança a tristeza e a agressividade. Por isso é que a professora Araci incentiva que a percepção de tais atitudes leve a uma denúncia imediata ao Conselho Tutelar - órgão responsável pelo acompanhamento infantil e das famílias -, para que algo possa ser feito. “O conselho tutelar é uma ferramenta extremamente importante, que se coloca no lugar da criança e estabelece uma comunicação com a família”, explica Araci. Mas, quanto ao medo de denunciar, e ao risco de se estar cometendo um engano, ela é taxativa: “A criança pode estar sofrendo uma série de violações dos seus direitos. O que não podemos é nos calar”.

Serviço

Se souber de algum caso de violência contra crianças, denuncie ao Conselho Tutelar.

Fone: 3222 5543



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