Engenheiro formado pela Universidade Federal do Paraná, Ivo Arzua Pereira foi prefeito de Curitiba por duas oportunidades. Na primeira, foi eleito no ano de 1962 e governou a cidade até 1966. No mesmo ano, após um período de um mês afastado do cargo, foi reconduzido à Prefeitura, desta vez em eleição indireta pela Assembléia Legislativa do Estado. Ficou no cargo até março de 1967 quando assumiu a função de Ministro da Agricultura.
Enquanto esteve à frente de Curitiba, Ivo Arzua, que hoje está com 83 anos, foi um dos principais responsáveis pelo Planejamento Urbano Curitibano. Além disso, é sempre lembrado por ter sido um dos protagonistas do AI-5, durante o período da ditadura militar.
Nesta entrevista ao Comunicação, a primeira com uma série de ex-prefeitos em homenagem ao aniversário de Curitiba, Ivo Arzua falou um pouco sobre a cidade de 45 anos atrás e como ele enxerga a atual situação da capital paranaense.
Jornal Comunicação: Na sua gestão foi iniciada a implementação do Plano Diretor de Urbanismo de Curitiba, em vigor até hoje. Como foi o processo de criação deste plano?
Ivo Arzua: Na verdade não fui eu que iniciei a implementação do plano, uma vez que ele foi todo concebido, debatido com a Sociedade Civil, aprovado pela Câmara de Vereadores de Curitiba e por mim sancionado (Lei 2828/66). Foi elaborado um Plano Preliminar de Urbanismo pela Empresa Serete de Estudos e Projetos, vencedora da concorrência administrativa realizada pela Prefeitura. Este plano foi debatido no mês do urbanismo, em julho de 1965.
Comunicação: O que foi o mês do urbanismo?
Arzua: O mês do urbanismo foi um conjunto de seminários e atividades nas quais a sociedade de Curitiba interferiu e opinou sobre a construção do Plano, por meio de suas entidades de classe (OAB, CRM, Federação das Indústrias, do Comércio, Associações de Operários, entre outros). Três classes estavam necessariamente presentes durante todas as discussões, sendo elas os vereadores, os estudantes e os jornalistas.
Comunicação: Nessa época também foi criado Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba (IPPUC). Ele cumpre hoje com seus objetivos?
Arzua: O IPPUC foi criado essencialmente para acompanhar a execução do plano, corrigir as falhas eventuais e aprimorar o seu desenvolvimento através das várias gestões administrativas da Prefeitura Municipal de Curitiba. Isto porque é um "plano urbanístico vivo", ou seja, elaborado para ser continuado e aperfeiçoado em função da evolução social, política e econômica da cidade.
Comunicação: O Plano hoje em vigor é o mesmo de 65?
Arzua: Várias coisas se desenvolveram de maneira diferente da que planejamos naquela época. Os edifícios nas vias estruturais, por exemplo, não estavam previstos. Grande parte da área ecológica do plano não foi implementada. Quando você vem do aeroporto, por exemplo, vê um paredão de concreto na cidade. O que é preciso hoje, é conseguir que o IPPUC realize integralmente as funções que lhe foram atribuídas na sua lei de criação em 1965.
Comunicação: No seu voto do AI-5 o senhor declarou que as medidas do regime militar eram insuficientes se não houvesse uma nova constituição brasileira. O senhor acredita que o regime militar poderia ter tomado rumos mais democráticos?
Arzua: Como coloquei à época na sessão do Conselho de Segurança Nacional que debateu e aprovou o AI-5, a minha convicta opinião era e é que apenas uma nova Constituinte, específica e não congressual poderia oferecer ao Brasil novas e modernas perspectivas de um grande futuro. Não foi o que ocorreu e isto foi um dos motivos de eu ter integrado em 1978 a Frente Nacional de Redemocratização, em conjunto com Tancredo Neves, Magalhães Pinto e outros grandes políticos brasileiros.
Comunicação: A constituição de 1988 cumpriu esse papel?
Arzua: A constituição de 88 está cheia de boas intenções, mas a maioria eram coisas impraticáveis conforme ficou provado nesses 21 anos de sua vigência, durante os quais estavam previstas centenas de regulamentações que não ocorreram até hoje. A Constituição deveria ser doutrinária e normativa e não casuística como é a atual, que rapidamente envelheceu em função das rápidas e constantes modificações na evolução social, econômica e política dos povos modernos.
Comunicação: Costumava se dizer que Curitiba é a melhor capital do Brasil para se viver. O senhor concorda?
Arzua: Hoje em dia temos alguns problemas como a questão da violência, que é muito forte. Entre outras coisas, como a existência dos catadores de papel que vivem em uma situação degradante, desumana e são seres humanos como a gente. Nada é feito em relação a isso.
Comunicação: Algum prefeito pode ser considerado o melhor ou o pior de Curitiba?
Arzua: Como cristão, prefiro não julgar quem foi bom ou quem foi ruim, acho que a Deus cabe isso. Todos que passaram pela gestão tiveram seu papel e alguma coisa fizeram.