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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Política | Publicada em 25/03/09 às 22h41

Série Ex-Prefeitos: “Não quero que Curitiba fique igual a São Paulo”

Saul Raiz acredita que a capital precisa de políticas de reestruturação que acompanhem o crescimento
Reportagem Phillipe Trindade
Edição Luciane Belin
Ana Maria Petruzziello Kohane
O ex-prefeito ao lado de Aníbal e Niva Khury
O ex-prefeito ao lado de Aníbal e Niva Khury
Rosa Maria Mendes
Raiz foi o responsável técnico pela construção do Mercado Municipal, iniciada em 1955
Raiz foi o responsável técnico pela construção do Mercado Municipal, iniciada em 1955

Engenheiro responsável pelo projeto de construção do Mercado Municipal de Curitiba, iniciado em 1955, Saul Raiz assumiu a prefeitura da cidade vinte anos depois. Foi um dos primeiros de uma linha de governantes arquitetos e engenheiros que se mantém até hoje. Raiz assumiu o comando da cidade com a proposta de dar continuidade ao processo de urbanização da capital. Ele governou até 1979, quando voltou a se dedicar ao ramo empresarial, onde preferiu aplicar suas capacidades administrativas.

Prestes a completar 80 anos em 2009, o ex-prefeito falou ao Comunicação sobre o tempo em que esteve à frente da capital. Ele expressou seu receio de que Curitiba desenvolva características que aproximem sua estrutura à atual da grande São Paulo e defendeu a ideia de uma reestruturação das secretarias para criação de outro instituto aos moldes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).

Jornal Comunicação: Em termos administrativos, como o senhor compara a gestão atual com a sua?

Saul Raiz : Eu gosto da administração do Beto. Curitiba tem esse privilégio: nos últimos 30 anos, a grande maioria dos prefeitos foram engenheiros ou arquitetos. Então era gente acostumada a trabalhar com cidades. Cada um de nós tornou isso mais fácil. Outro ponto é que eu levei vantagem porque sempre tive uma vida empresarial muito intensa. Comandei muitas equipes, muita gente, além de ter conhecimento de urbanismo como os outros (prefeitos), porque eu fiz curso de urbanismo na França. Sei cobrar da equipe e tive essa vantagem.

Comunicação: O senhor participou do projeto do Mercado Municipal. Qual foi o papel desse espaço para Curitiba na época e hoje?

Raiz: Foi uma execução minha, ou seja, fui o responsável técnico da obra. Foi em 1955 e, na época, aquilo era fundamental. Precisava haver, em algum lugar, uma concentração que fosse um centro de abastecimento para as famílias curitibanas. O Mercado preencheu perfeitamente essa função e hoje é, inclusive, um lugar de passeio. Mas ele ainda corresponde a esse objetivo primário. E ele precisa ser constantemente renovado. O Beto, por exemplo, inaugurou uma característica nova, o Mercado de Orgânicos, que é uma atualização à obra da época.

Comunicação: Há alguma característica de Curitiba que o senhor considere peculiar à cidade?

Raiz: Curitiba tem outra grande vantagem. Não é como São Paulo, onde um prefeito imagina que para fazer o seu cartaz ele precisa destruir o que o outro fez; parar as obras do outro. Nós não temos esse problema. Todos os prefeitos que tivemos colocaram alguma característica própria, mas deram continuidade. E a forma como o resultado aparece é muito maior porque ninguém está desmanchando nada que o outro fez.

Comunicação: O que o senhor gostaria de ver em Curitiba que ainda não foi feito?

Raiz: Eu disse pro Beto: “se eu fosse prefeito hoje, faria como quando fizeram o IPPUC”. Ou seja, juntaria várias secretarias, várias personalidades, engenheiros e demais figuras para que fizessem uma análise de cidades do nosso tamanho. E que, então, fizessem um planejamento que balizasse o crescimento futuro. Tudo isso baseado em uma só filosofia: eu não quero que Curitiba fique igual a São Paulo.

Comunicação: Um dos assuntos que está em pauta na cidade é o problema envolvendo o transporte público e a reclamação da população é justamente que o trânsito aqui está seguindo os moldes da capital paulista. Como o senhor responde a essas críticas?

Raiz: O transporte em Curitiba tem etapas. Agora não temos condições econômicas de fazer o metrô, por exemplo. Então precisa esgotar primeiro o sistema que temos. A linha do Pinheirinho-Santa Cândida está no limite. Precisamos de ampliações nesse sistema e a Linha Verde é isso. Só que esse tipo de planejamento é para muito tempo e cada prefeito tem que fazer a sua parte para que daqui a alguns anos nós possamos chegar lá. Como exemplo: eu comecei a Ecoville em 78. Fizemos o planejamento, fomos para os Estados Unidos, trouxemos dinheiro e abrimos os caminhos. Ecoville hoje já está quase lotando, e só faz quarenta anos.

Comunicação: O questionamento da sociedade quanto ao planejamento de Curitiba reside sobre o fato de o trabalho das gestões ter se concentrado no aspecto estrutural e muito pouco no social. Qual sua opinião a respeito disso?

Raiz: Eu discordo. Somos um país pobre e temos uma periferia muito pobre. O maior problema de Curitiba não é Curitiba, é a Região Metropolitana. Quando não se tem uma ligação profunda com o governador do Estado, que é quem comanda a área metropolitana, vai ter problema sempre. É tudo muito integrado. O transporte, o lixo, a saúde, tudo é integrado com a área metropolitana. E esse novo planejamento que eu mencionei vai pensar em Curitiba não só como cidade, mas como um todo.

Comunicação: Os problemas de Curitiba hoje são muito distintos de quando o senhor foi prefeito?

Raiz: Não. Você tem que lidar com a área de educação, saúde, urbanismo, todas elas. Logicamente, quando a população é maior, as dificuldades são maiores. Na minha época a prefeitura era uma só. Hoje você tem as subprefeituras para lidar com essa desproporção.



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