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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Política | Publicada em 27/03/09 às 18h13

Série Ex-Prefeitos: Curitiba, a cidade laboratório

Para Rafael Greca, a capital paranaense sempre apresentou propostas inovadoras que servem de modelo para outras cidades
Reportagem Verônica Gavloski
Edição Cícero Bittencourt
Veronica Gavloski
Greca com o prêmio Mundial do Habitat recebido em 1996 pela da Housing and Building Foundation da ONU
Greca com o prêmio Mundial do Habitat recebido em 1996 pela da Housing and Building Foundation da ONU

Engenheiro urbanista formado pela UFPR, Rafael Greca de Macedo foi prefeito de Curitiba entre 1993 e 1996. Já atuou como vereador, deputado estadual, deputado federal e ministro de estado. Atualmente é presidente da Cohapar.

Considerado um prefeito urbanista, Greca conquistou o mais importante prêmio de urbanismo do mundo, o Prêmio Mundial do Habitat – World Habitat Awards - através da Housing and Building Foundation da ONU.

Entre os feitos de Rafael Greca à frente da Prefeitura de Curitiba estão a construção do Memorial de Curitiba, a inauguração das Ruas da Cidadania e a construção dos Faróis do Saber.

Em entrevista ao Comunicação, o ex-prefeito afirma que Curitiba é uma cidade laboratório, mas critica a condução de projetos urbanos nas últimas gestões da Prefeitura da capital paranaense.

Jornal Comunicação: Por que você acha que o eleitor curitibano tem preferência pelos políticos ligados a questões urbanistas? Como é o seu caso e também de Jaime Lerner, Cássio Taniguchi e Saul Raiz?

Rafael Greca: Não afirmaria isso diante da história recente. Beto Richa não é urbanista. Nem ligado a questões urbanísticas, é herdeiro da tradição política de seu pai.

Na última eleição, o que menos se discutiu foi o futuro da cidade. Era mais um torneio de simpatias. Espécie de concurso de “Miss Simpatia”, onde Gleisi e Moreira perderam, Beto venceu. A culpa é da oposição que não foi à altura da grandeza de Curitiba.

Pode-se dizer que há em Curitiba uma identidade com as conquistas do urbanismo.

Comunicação: Até que ponto é bom para Curitiba ser considerada uma “cidade laboratório”?

Greca: Na exata proporção em que lançou no passado recente- há 30 anos- propostas inovadoras que hoje são copiadas em todo o país, e até inspiram programas nacionais. Cito por exemplo, coisas que criei e que são repetidas como novidades em outras praças:

As Ruas de Cidadania, em SP foram chamadas de “Poupa Tempo”, em Salvador também foram copiadas com outro nome, bem como em Córdoba, na Argentina.

A “Mãe Curitibana”, programa que criei e implantei com o nome “Nascer em Curitiba vale a vida” teve seu nome modificado há 10 anos pelo prefeito Cássio Taniguchi, e hoje é o “feito” do vice-prefeito Luciano Ducci.

Costumo brincar, “Mãe Curitibana” não foi ele quem fez, pode ter feito depois “a Tia Curitibana”.

Sem falar nos Faróis do Saber, copiados com outro nome no Maranhão por Roseana Sarney. Há faróis do saber na Holanda, em Haia, no interior do Paraná e em Lauro de Freitas, na Bahia.

Laboratório é o local da experiência nova. Depois repetida. Então, Curitiba é laboratório.

Comunicação: Curitiba não possui belezas naturais como o Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu ou mesmo as praias do litoral brasileiro. Porém, mesmo assim é considerada uma cidade turística. Esse fato é explorado o suficiente pelos gestores do município?

Greca: Desde o prefeito Cândido de Abreu, nas suas gestões de 1892-1894 e em 1913-1916, há a consciência de que melhorias urbanas ajudam a cidade a receber visitantes. Isto é um pouco identidade européia. Da minha parte procurei acentuar esta possibilidade, sempre dizendo que “uma cidade só presta para ser visitada se for boa para seus habitantes”.

Comunicação: Curitiba sempre foi considerada uma cidade de primeiro mundo, comparada muitas vezes às cidades européias. Hoje em dia, porém, o que se vê são altos índices de violência e outros tantos problemas recorrentes nas demais grandes cidades brasileiras. A nossa cidade virou uma capital comum do Brasil? Os problemas que ela apresenta a colocam no patamar de cidade de terceiro mundo?

Greca: Uma cidade nunca fica pronta. Ela tem que ser refundada e reconstruída todos os dias. O grande perigo é Curitiba perder-se na contemplação de sua antiga glória, que sempre pode desmoronar. Afinal, todos os dias o lixo precisa ser colhido, 2 milhões de pessoas precisam ser transportadas, casas populares precisam ser erguidas, e, o mais grave, as novas idéias precisam brotar e renovar o que decai.

Comunicação: Como você enxergava a cidade durante seu mandato e como a enxerga hoje em dia? Está melhor ou pior viver aqui?

Greca Está cada vez mais difícil viver aqui, porque a cidade cresce e não há uma ação integrada de planejamento com as 25 cidades da região metropolitana. O território do município formal de Curitiba esgotou-se.

Mas os bairros novos da periferia metropolitana são assustadores. Eles cercam Curitiba de exclusão social e de miséria, de ruas sem saída. Não podemos nos tornar uma metrópole sem saída.

Será que o rio Ivo aguentará toda a chuva daqui uns anos? Ou precisaremos de “piscinões” como os do Malluf? Ou nos afogaremos a cada enxurrada, como São Paulo?

Outro exemplo de falta de visão metropolitana é a Linha Verde. A obra, que era para ser um eixo metropolitano, ainda nem chegou ao Jardim Botânico. É um meio projeto, mas gastaram todo o dinheiro.

Comunicação: Quais devem ser as prioridades dos governantes nas próximas gestões?

Greca: A prioridade é uma só, e resume-se em duas sentenças: não perder tudo de bom que conquistamos, conservando nosso urbanismo, sem concessões aos interesses do egoísmo e estender a malha urbana confiável, com a rede de serviços sociais à escala metropolitana. Agir de fora para dentro.

Comunicação: O transporte público de Curitiba, que já foi referência para o mundo todo, hoje atravessa um momento bem diferente. Quais alternativas para voltarmos a ter uma rede de transporte eficiente?

Greca: Pensar em escala metropolitana. O metrô proposto por Beto Richa tem 32 km, a rede metropolitana de transportes, quando governei, em 1996, tinha 1700 km de linhas de transporte. Temo que só comprem mais um projeto de metrô sem fazer metrô algum. Mais um trenzinho de papel. Depois que deixei a Prefeitura, a cidade já comprou pelo menos três projetos de transporte de consultorias externas.

Comunicação: Você se candidataria novamente à Prefeitura de Curitiba?

Greca: Se me for dada a possibilidade política. Infelizmente as pessoas veem a Prefeitura da capital menos como um serviço ao seu povo, mas como um degrau de notoriedade visando cargos mais altos e sua promoção política. Isto torna o posto de difícil acesso para um simples coração apaixonado por sua cidade. Quem pode ajudar nesta resposta é o coletivo da população curitibana.



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