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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 30/03/09 às 21h27

Mulheres da Ciência

Seti concede prêmio a pesquisadoras de destaque no Paraná
Reportagem Beatriz Giublin
Edição Guilherme de Souza
Arquivo pessoal
Para a pesquisadora Ymiracy Polak, a pouca valorização da pesquisa científica no Brasil ultrapassa questões de gênero
Para a pesquisadora Ymiracy Polak, a pouca valorização da pesquisa científica no Brasil ultrapassa questões de gênero

Com o objetivo de homenagear cientistas, educadoras e gestoras públicas, a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) instituiu o Troféu Mulheres da Ciência Glaci Zancan. A iniciativa fez parte das comemorações da Secretaria ao Dia Internacional da Mulher. Em cerimônia realizada no dia nove de março, foram premiadas 32 profissionais do Paraná em duas categorias: Cientistas e Educadoras, e Gestoras Públicas. A primeira se destina a profissionais que contribuíram para o avanço da ciência e da tecnologia e a segunda às gestoras que colaboraram com a sociedade na sua área de atuação.

O Jornal Comunicação conversou com uma das 27 homenageadas na categoria Cientistas e Educadoras, a pesquisadora Ymiracy Polak. Doutora em Enfermagem pela UFSC, Ymiracy trabalha há quase 30 anos com pesquisa. Seus projetos são mais voltados para a área da educação, mais especificamente nas subáreas Educação à Distância e Tecnologias de Educação.

Jornal Comunicação: Como foi o início da sua carreira?

Ymiracy Polak: Eu fiz iniciação científica e comecei a trabalhar com pesquisa ainda como estudante. Fiz especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Criei grupos de pesquisa na Federal e hoje sou líder do grupo de pesquisa Cenários da Avaliação Aberta e à Distância: Gestão e Avaliação no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Comunicação: E essa é a pesquisa à qual a senhora se dedica hoje?

Ymiracy: Não. Tenho um grupo de pesquisa no CNPq e trabalho no momento com um projeto registrado na Universidade do Norte do Paraná (Unopar) e também no CNPq, chamado “Estratégias de integração das ações do sistema de educação à distância: uma proposta de gestão”.

Comunicação: Em que se baseia esse projeto?

Ymiracy: Esse projeto consiste na ideia de nortear como deve ser a gestão que integre quatro aspectos do sistema de educação à distância: macropedagógico, tecnológico, administrativo e de comunicação.

Esse projeto reúne três universidades: a Federal de Santa Catarina, a Federal do Ceará e a Unopar. São três instituições trabalhando juntas em um projeto interdisciplinar que tem interface com a área de gestão e com a linguagem midiática.

Comunicação: A senhora já enfrentou muitas dificuldades trabalhando com pesquisa?

Ymiracy: Enfrentei e enfrento muitas dificuldades. De toda essa onda tecnológica atual, eu sinto que as universidades têm grande resistência ao uso de mídias, apesar da telemedicina e das telecomunicações, por exemplo, já estarem mostrando que a televisão tem um reforço muito importante. Até o Supremo [Tribunal Federal] já aprovou videoconferência para auditorias com presos de alta periculosidade. Por que a educação não pode se beneficiar disso na dimensão continental, onde o acesso ao mundo do conhecimento é muito restrito? É uma questão até de cidadania.

Comunicação: O que mudou nessa área de pesquisa, desde a época dos seus primeiros trabalhos até hoje?

Ymiracy: Hoje está mudando a questão de fomento, de sensibilização da própria universidade. Principalmente em relação ao mundo privado, que não investia em pesquisa. Hoje está todo mundo envolvido e preocupado em validar seus processos, suas práticas, ou seja, inserir a pesquisa no seu cotidiano de trabalho. O governo está mais sensibilizado para essa questão. A sociedade está começando a querer qualidade de processos e de produtos e, para isso, a pesquisa se faz necessária.

Comunicação: Na sua opinião, ainda existe uma diferença entre a valorização da pesquisa na universidade privada e na pública?

Ymiracy: Já se foi o tempo em que se a universidade era particular bastava ter professores e alunos. Agora não, tem que ter pesquisa, produção e publicação de conhecimento ou então vira uma simples faculdade. Toda instituição que usa essa denominação – universidade – tem, obrigatoriamente, que fazer pesquisa.

Comunicação: A senhora é uma das 27 cientistas ou educadoras homenageadas com o Troféu Mulheres da Ciência. Como foi receber esse prêmio?

Ymiracy: Foi muito importante. Eu não acreditava porque geralmente as pessoas só recebem homenagens depois que morrem. Fiquei alegre porque é um reconhecimento e, ao mesmo tempo, fiquei muito triste porque a pessoa que mais investiu na minha formação não está viva para ver esse momento. A minha mãe era uma mulher que acreditava e sempre me incentivava muito.

Comunicação: A iniciativa da Seti é uma homenagem específica ao trabalho de profissionais do sexo feminino. Hoje, o trabalho das pesquisadoras é devidamente valorizado ou ainda há muito o que melhorar nesse sentido?

Ymiracy: Nós precisamos caminhar muito enquanto pesquisadores, independentemente do gênero. Lamentavelmente, ainda vivemos num país onde se luta e vive para garantir a sobrevivência. Então, brigar por uma abertura tecnológica é difícil por uma questão de prioridades. A prioridade agora é garantir alimentos. No regime assistencialista em que vivemos, o conhecimento parece até ser um luxo, apesar de a população exigir cada vez mais acesso ao mundo do saber. A maior dificuldade não envolve gênero, esta é uma questão realmente de cultura e prioridade, de metas e políticas governamentais. Mas isso está mudando.

Comunicação: A senhora tem recebido o apoio financeiro necessário para trabalhar com pesquisas?

Ymiracy: Não digo que estou recebendo o apoio necessário, mas sim o estritamente necessário. A prioridade deste país não é a educação. O filho estudar ou não ainda não é uma prioridade aqui, como se vê em outros países. Mas isso é uma questão de momento e histórica também. Mas vamos reverter esse quadro. Sou otimista nesse sentido.

Comunicação: Algum projeto seu já ficou na gaveta por falta de incentivo ou, como a senhora mesma disse, pelo fato de a pesquisa não ser uma prioridade no País?

Ymiracy: Na época em que as pessoas estavam morrendo por contaminação de diálise em Caruaru, fiz uma proposta para o CNPq em que eu pretendia trabalhar com essa questão. A resposta que me deram friamente foi a seguinte: esse projeto tem uma grande relevância social, mas não é prioridade.

Glaci Zancan

O Troféu instituído pela Seti é uma grande homenagem póstuma ao trabalho da bioquímica que dá o nome ao prêmio, Glaci Zancan. Por dois mandatos presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Glaci contribuiu muito para os avanços em pesquisa nas esferas nacional e internacional. Foi professora da UFPR por mais de 40 anos e lutou para a criação e consolidação do Fundo Paraná de Apoio à Ciência e Tecnologia. Ela sofria de esclerose lateral amiotrófica (doença neurodegenerativa) e faleceu em 2007, aos 72 anos.

Veja também:

Charge - Troféu Mulheres de Ciência



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