Boas composições, bons arranjos e boas performances: se estes já foram os únicos passos necessários para o sucesso de uma banda, não são mais. Existem desafios novos para os músicos na disputa por espaço no mercado fonográfico após a internet. Geralmente em processo de auto-produçao, eles estão se adequando a novos métodos de trabalho em uma rede onde os olheiros da ‘grande indústria’ não são mais os principais responsáveis pelo sucesso.
A indústria fonográfica passou por mudanças significativas com a consolidação das músicas em formato mp3. O impacto econômico do avanço das redes de compartilhamento foi intenso nas vendas físicas e nos modelos de negócio, segundo o Diretor Executivo da Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), José Celso Guida. De acordo com dados da Nielsen Soundscan, as vendas de CDs caíram pela sétima vez consecutiva em 2008. A queda acumulada é de 45% desde 2000, enquanto a venda de músicas online está em alta de 27%. Para Guida, a internet representa um canal de visibilidade e escoamento musical que precisa ser regulamentado e organizado “de forma que os artistas e toda a cadeia produtiva sejam remunerados por seus trabalhos normalmente, como era antes da entrada de novas mídias digitais”.
Auto-produção
Para as bandas independentes, a internet se tornou uma das principais ferramentas de divulgação e promoção, como é o caso da banda curitibana Copacabana Club. Com uma média superior a 4 mil acessos mensais, o grupo já conquistou o quarto lugar entre as páginas brasileiras mais visitadas no site de relacionamentos Myspace. A vocalista do grupo, Camila Cornelsen, explica que, “até assinar com uma gravadora e ter alguém que faça isso pela banda, o grupo tem que se dobrar para divulgar o som”. Segundo ela, o Copacabana Club utiliza, além do MySpace, blog, email e Twitter — rede de atualizações pessoais por mensagens de celular — para 'espalhar' o trabalho.
Essa autonomia é necessária também durante todas as etapas do processo de produção musical, ou pelo menos a maioria delas. Composição, arranjo e execução até gravação, edição, mixagem, pós-produção, masterização, prensagem, produção gráfica, promoção e distribuição: não é raro que a banda independente seja responsável por cada uma destas etapas. Contudo, todo esse processo acaba deixando a obra materializada do artista um tanto subjetivada, e essa característica pode ser tanto benéfica quanto prejudicial. Para o diretor da ABMI, o papel de um “olhar abrangente” é fundamental. “A orientação de um produtor se faz sempre necessária, pois as tarefas assumidas podem se tornar difíceis”, alerta Guida. “Um profissional para dividir opiniões no estúdio é importante”, defende.
Para o produtor musical Igor Medeiros, o papel desse profissional pode ser ainda mais relevante na música independente. Ele cita o exemplo da banda pernambucana Mombojó, que produziu recentemente com o Mad Mud (de William Paiva e Leonardo Domingues). Para ele, produzir artistas independentes deu-lhe autonomia para participar mais ativamente do trabalho da banda. “Eu podia levar o trabalho para casa, mixar algumas partes como eu queria, enquanto os outros produtores faziam a sua parte. Ao final, juntávamos tudo com a banda e discutíamos como ficaria melhor”, diz.
Mercado saturado
Segundo dados da ABMI, existem cerca de 300 gravadoras independentes no Brasil. Apenas nos 32 festivais ligados à Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), são cerca de 600 bandas se apresentando. Existem consumidores para tanta produção?
Para o baixista da banda curitibana Nuvens, Marcos Nascimento, os sinais de saturação no mercado da música independente são visíveis. “Quando comecei a tocar havia meia dúzia de bandas em Curitiba”, diz. Nascimento conta que os shows de sua banda eram eventos importantes nas cidades do interior do Paraná. “Era bem diferente, tinha outro glamour”, lembra o músico. “Hoje, nos mesmos locais, eles nem trazem bandas daqui, porque têm mais cinco ou seis grupos tocando bem”, diz. Nascimento afirma que os músicos precisam criar um “diferencial”.
É o que também afirma o baixista do Copacabana Club, Tile Douglas. Ele acredita que há público consumidor e afirma que, “com a internet, todos podem estar em evidência”. Para conseguir visibilidade, segundo ele, “basta planejamento e foco da banda”. Camila Cornelsen concorda e lembra que “sempre houve pessoas que curtem vasculhar sebos e lojas que vendem produtos independentes”.
Entretanto, houve uma mudança também na definição ou seleção de públicos por determinados métodos e estilos adotados pelas bandas. Medeiros afirma que o público está menos diversificado, porque a identificação do público com as músicas é mais direta e objetiva. “Hoje se trata de como você deve se definir em termos para que as outras pessoas te procurem”, diz o produtor.
Viabilidade comercial
Estes ‘exploradores’ de material independente são cada vez menos representados pela imagem dos olheiros de gravadoras. Para Raphael Moraes, vocal, guitarra e violão da banda Nuvens, os olheiros são uma ilusão. “Mesmo que eles existam, as gravadoras desejam um produto que satisfaça suas vontades, algo que seja rentável”, explica.
Não seria o caso de uma banda experimental como a ruído/mm, recentemente citada pelo site de uma das maiores publicações de música independente do mundo, a Pitchfork. O grupo curitibano fugiu das ‘fórmulas comerciais’ e optou pela música instrumental. Para André Ramiro, responsável por guitarra, escaleta e percussão no sexteto, esta é a personalidade do grupo. “Nossas vozes são nossos pedais”, diz.
A internet e os ‘diferenciais’, no entanto, não são suficientes para substituir a importância das apresentações ao vivo. Para aumentar o público, algumas bandas têm investido em longas viagens para shows e festivais que, muitas vezes, não pagam o suficiente para cobrir os custos. “Sempre é necessário investir”, defende Ramiro. “Pessoas que ficam famosas ou foram descobertas pela internet existem, mas são poucas, como o Cansei de Ser Sexy”, diz. Segundo Camila Cornelsen, o Copacabana Club segue uma lógica parecida. O grupo chega a guardar cachês de shows em Curitiba para investir em apresentações que consideram importantes, mas que não possuem retorno financeiro.
Diante desta aparente falta de retorno e adaptada a tantas novas regras, a carreira de uma banda é mais ou menos viável? Para Tile Douglas, a resposta é relativa. O baixista afirma que, no novo mercado fonográfico, pode ser mais difícil conquistar espaço. Entretanto, com tantas ferramentas à disposição e uma cena em expansão, “é mais fácil para um músico evoluir no que faz”, afirma.