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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 03/04/09 às 16h18

Reunião discute estratégias para redução de desastres nas Américas

Encontro promovido pela ONU reúne especialistas para debater sobre os avanços e as necessidades na área
Reportagem Beatriz Giublin
Edição Guilherme de Souza
Beatriz Giublin
Para Renato Lima, não há como fugir da discussão sobre desastres naturais
Para Renato Lima, não há como fugir da discussão sobre desastres naturais

A plataforma regional da Estratégia Internacional de Redução de Desastres (EIRD) promoveu uma reunião para discutir alternativas para a redução dos desastres no planeta e estabelecer uma agenda com metas e prazos para os países implementarem esse conjunto de mudanças. O encontro, que aconteceu no Panamá entre os dias 17 e 19 de março, contou com a presença de praticamente todos os países da América representados pelos seus Ministérios de Relações Exteriores e de especialistas relacionados à área de desastres (professores, profissionais da defesa civil ou da área de serviços de emergência).

Um dos participantes do encontro foi Renato Eugênio de Lima, professor do Departamento de Geologia da UFPR. Em entrevista ao Comunicação, Lima falou sobre a reunião e o aumento no número de desastres naturais em todo o planeta, além da importância de reduzí-los e, principalmente, evitá-los por meio do desenvolvimento sustentável.

Jornal Comunicação: O termo “desastres naturais” não se restringe apenas a desastres causadas pela natureza, certo? Qual a melhor definição para esse termo?

Renato Eugênio de Lima:Existe uma discussão hoje bastante interessante sobre esse assunto. Por mais naturais que os desastres sejam, todos são, em alguma medida, causados pelo homem. Por exemplo, uma inundação. O nível dos rios sempre aumentou e baixou e, portanto, as inundações sempre existiram. Elas só se tornaram um desastre porque o homem passou a ocupar a planície de inundação, logo, este é um desastre causado pelo homem. O mesmo ocorre com as tsumanis e com a ocupação das praias, e com os deslizamentos e a ocupação das encostas.

Comunicação:Quais foram os principais pontos debatidos na reunião?

Lima: Nesse encontro foram discutidos os avanços e as necessidades para a redução de desastres no nosso continente, e apresentados casos de sucesso e problemas ou ainda ‘não-sucessos’ nessa área. O tema de maior consenso foi que a redução de desastres tem de estar relacionada ao plano de desenvolvimento dos países. Ela não pode ser tratada como uma questão à parte: tudo o que vai ser feito em um país deve levar em consideração a redução de desastres.

Também entraram em pauta a cooperação internacional e humanitária, gestão e produção de conhecimento, riscos em áreas urbanas e mudanças climáticas, tópicos intimamente ligados à questão dos desastres.

Comunicação: Poderia fazer um balanço do evento? Na sua opinião, quais foram os ganhos para a sociedade?

Lima: Quando você cria um ambiente de discussão, de troca de experiências e aprova orientações gerais que devem ser seguidas por todos os países participantes, ocorrem mudanças significativas nas políticas de desenvolvimento, na aplicação de recursos, nas metodologias de enfrentamento de situações de perigo e nas prioridades de prevenção. Esse conjunto de transformações faz com que a sociedade esteja mais protegida do que estava antes. Logicamente, são mudanças que não ocorrem na semana seguinte à reunião. Depois que as conclusões são aprovadas, os países fazem uma agenda com prazos para cumprir as determinações da EIRD. Essas medidas levam de dois a sete anos para serem implementadas, mas com certeza ao final desse período a sociedade estará mais protegida.

Comunicação: A reunião do Panamá foi uma preparação para a reunião mundial da Estratégia prevista para acontecer no segundo semestre desse ano em Genebra, na Suíça. O que esperar desse encontro?

Lima: Existem duas maneiras de ver a reunião mundial: uma pessimista e uma otimista. A pessimista se baseia nas informações e nos dados que estão disponíveis. O número de desastres tem aumentado significativamente no planeta, assim como a quantidade de pessoas atingidas e os prejuízos. Nessa visão negativa, podemos pensar que a Estratégia não está atingindo o seu objetivo de reduzir os desastres. No entanto, muitos países avançaram significativamente nessa questão. Assim, a visão otimista tem que se basear na avaliação do que teria acontecido sem a intervenção da EIRD. Embora o número de pessoas afetadas não tenha diminuído, com certeza sem a interferência da Estratégia os prejuízos seriam muito maiores.

Outro ponto importante é que na reunião de Genebra será elaborado um documento de referência mundial para preparar os próximos cinco anos de atuação na área de redução de desastres. Esse relatório é produzido a partir das propostas aprovadas nas reuniões regionais - das Américas, da Ásia, da África, da Europa e da Oceania.

Comunicação: Há um documento específico que oriente a comunidade internacional no que diz respeito a desastres naturais?

Lima: Sim. Há o Protocolo de Hyogo, que é um documento firmado por 120 países e três organizações supra governamentais no ano de 2005 com o objetivo de “aumentar a resistência das nações e comunidades aos desastres”. Existem dois pontos que eu considero de maior importância nesse relatório. O primeiro reconhece a responsabilidade dos governos em proteger a população dos desastres naturais. Isso significa que é responsabilidade do país não deixar que a população se instale nas margens dos rios ou em áreas contaminadas, assim como impedir que as áreas onde a população está se tornem impróprias. O que havia antes era uma sensação de que os desastres eram responsabilidade da natureza.

O segundo ponto importante é a relação entre as catástrofes e o aumento da pobreza. Por exemplo, o governo de Paranaguá faz um projeto para investir R$ 10 milhões em obras para a diminuição da miséria – melhorias no saneamento básico, construção de escolas, etc. Ocorre um desastre e são necessários R$100 milhões para reconstruir as áreas atingidas. Como eu já comentei, não há como pensar em desenvolvimento sem tratar das estratégias para redução de desastres. Se os processos da natureza são respeitados, ou seja, se o desenvolvimento é sustentável, há uma diminuição no número de desastres.

Comunicação: Quais são os desastres mais preocupantes no Brasil?

Lima: As inundações, que provocam mais prejuízos, e os deslizamentos, que geram um número expressivo de vítimas fatais. Além disso, o Brasil enfrenta cada vez mais os chamados ‘desastres ambientais’, como vazamentos de óleo, acidentes com produtos químicos perigosos e contaminação por utilização errada de agroquímicos. Outro problema grave são os desastres relacionados a estruturas civis, como por exemplo, a queda da ponte na BR 116.

Comunicação: E mais especificamente do Paraná, quais os desastres que preocupam?

Lima: As estatísticas do Estado indicam que, tanto na região de Curitiba quanto no litoral, as inundações são o processo perigoso mais frequente e que causa mais danos. Porém, têm ocorrido no Paraná e no Brasil alguns tipos de processos que antigamente não tinham um registro frequente, como o terremoto que atingiu o Paraná há três anos.

É importante ressaltar que os desastres não respeitam fronteira de município ou de estado e por isso exigem um programa de cooperação para serem enfrentados. Por exemplo, no ano passado houve uma erupção num vulcão do Chile e o país mais afetado foi a Argentina.

Comunicação: Antigamente o Brasil era visto como um país quase imune a desastres naturais. Hoje isso mudou?

Lima: Espero que essa visão tenha mudado bastante. Em 2004 a Cruz Vermelha fez um estudo que apontou o Brasil como o país com o maior número de pessoas afetadas por desastres no mundo. Esse pensamento de que o nosso país é ‘protegido especialmente’ leva a uma falta de ação que gera prejuízos pra a sociedade. Essa ausência de preparação ocasiona dificuldade na reação a acidentes maiores, como esse que ocorreu em Santa Catarina no final do ano passado.

É preciso estudar cientificamente os processos perigosos para gerar ferramentas que protejam a sociedade quando eles ocorrerem.

Comunicação: Quais são as ferramentas existentes hoje para reduzir o impacto dos desastres naturais?

Lima: Nós temos na UFPR o Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid), que realiza estudos para conhecer os processos naturais e desenvolver metodologias para responder às catástrofes. Quando ocorre um desastre, o Centro mobiliza cientistas especialmente treinados para a área com o objetivo de fazer uma série de estudos emergenciais e prestar as informações necessárias para quem está gerindo aquela situação tomar as melhores decisões com o intuito de defender a população.

Comunicação: Além de atuar no Cenacid, o sr. atua no grupo UNDAC (United Nations Disaster Assessment and Coordination) desde 2000. Poderia falar um pouco sobre o que é essa organização e como é o seu trabalho nela?

Lima: A equipe UNDAC é coordenada pela ONU e conta com 120 especialistas de 45 países especialmente selecionados para elaborar a resposta aos maiores desastres do planeta. Nessas situações de emergência são enviadas equipes de seis a sete integrantes que têm a responsabilidade de avaliar o desastre, quantas pessoas estão sendo atingidas, quais os perigos imediatos, como está sendo gerenciada a resposta num nível nacional e as necessidades de apoio internacional.

Imediatamente depois dessa avaliação, a equipe passa a coordenar toda a resposta internacional àquele desastre e, se for necessário, até mesmo a resposta nacional.

É importante observar que a equipe só é mobilizada para desastres muito grandes e infelizmente ela tem sido cada vez mais requisitada. Há aproximadamente 15 anos, quando foi formada, ela atendia de 1 a 3 casos por ano, hoje são atendidos de 10 a 15 grandes desastres anualmente.

Cenacid

Referência das Nações Unidas, o Centro de Apoio Científico em Desastres desenvolve metodologias e oferece o conhecimento necessário para o gerenciamento de desastres. É formado por alunos e professores da UFPR e de universidades parceiras de todo o país e atuou recentemente nas enchentes de Santa Catarina e no terremoto do Peru.

Cientistas, professores e alunos de todas as áreas da universidade estão convidados a se integrarem à equipe do Centro. Basta entrar no site , preencher o formulário e aguardar uma resposta.



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