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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Ciência & Tecnologia | Publicada em 10/04/09 às 01h57

A hora e a vez dos pré-pagos

Apesar da grande adesão aos celulares pré-pagos, outras tecnologias semelhantes têm dificuldades de emplacar
Reportagem Aline Michalski
Edição Guilherme de Souza
Lactec
Medidor de luz desenvolvido pelo Lactec: os problemas de implantação são mais mercadológicos do que técnicos
Medidor de luz desenvolvido pelo Lactec: os problemas de implantação são mais mercadológicos do que técnicos
Lactec
Medidor de gás a base de crédito, também desenvolvido pelo Lactec
Medidor de gás a base de crédito, também desenvolvido pelo Lactec

A ideia de conter os próprios gastos com telefonia por meio de créditos é bastante popular entre os brasileiros: segundo dados recentes da Anatel, mais de 80% dos celulares no País (cerca de 124 milhões) são pré-pagos. Agora, que tal expandir a ideia para outros serviços, como fornecimento de gás e energia? O Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec) apresentou, em março, na 37ª edição da Exposição Feira Agropecuária, Comercial e Industrial do Norte Pioneiro (EFAPI), um medidor de gás pré-pago, que libera o uso do produto enquanto houver crédito suficiente. O aparelho mostra a quantidade de crédito e o histórico de consumo, além de alertar o usuário quando o saldo estiver ‘na reserva’.

Para o coordenador do projeto, André Manzolli, a disposição dessas informações pode ajudar a formar uma nova consciência. “Com um controle maior, o usuário se torna mais cuidadoso com relação ao consumo”, ressalta. O projeto, aliás, se assemelha a outro, mais antigo, desenvolvido no Lactec: um distribuidor de energia elétrica a base de créditos. A tecnologia foi apresentada, em 2001, no I Congresso de Inovação Tecnológica em Energia Elétrica (Citenel), realizado em Brasília.

“O sistema pré-pago tem certas vantagens, como o recebimento antecipado e garantido para a fornecedora, o que dispensa a emissão de fatura e também o trabalho do leiturista, que é quem normalmente verifica o consumo medido”, enumera Carlos Purin, Gerente do Departamento de Eletrônica do Lactec. Além disso, o pagamento prévio é uma forma evidente de se evitar a inadimplência. “O corte e religação de inadimplentes é efetuado automaticamente, reduzindo o tempo e os custos que, no sistema convencional, recaem para o usuário”, completa Manzolli.

Outro objetivo do sistema é a inclusão social, permitindo que mesmo moradores de lugares de difícil acesso possam pagar para ter o serviço. Manzolli ressalta a possibilidade de se comprar créditos de acordo com a situação financeira do usuário, prática que não é possível quando se compra as quantidades fixas dos bujões de gás, por exemplo.

Contratempos

Quando se fala em consumo de energia pré-paga, a primeira preocupação de qualquer um é a interrupção do recebimento de eletricidade de forma inesperada. Para Purin, isso não deve ser motivo de inquietude. “No nosso projeto, a energia nunca será desligada em horário não comercial e nem nos fins de semana”. Além disso, pode ser discutida a existência de créditos negativos, algo semelhante a um ‘cheque especial’. Ele conta de um teste bem-sucedido, realizado em Vitória (ES): as cem famílias envolvidas no projeto, que se inscreveram voluntariamente, ficaram muito satisfeitas com a inovação. “A recepção foi boa, ao menos para aquelas pessoas”, avalia.

Ainda não há iniciativas no Paraná quanto à utilização de eletricidade ou gás pré-pagos. Segundo Manzolli, contudo, o Lactec está planejando, em parceria com a iniciativa privada, a produção em escala comercial do medidor de gás. “A expectativa é muito positiva, visto que o sistema é extremamente simples e de baixíssima necessidade de manutenção após a implantação”, ressalta o coordenador.

Já para o medidor de luz pré-pago, a situação é menos favorável. Purin acredita que os maiores impedimentos para a consolidação do serviço sejam de ordem financeira: desde o custo do medidor até as mudanças logísticas que as empresas concessionárias de energia teriam de adotar. “O medidor chega a custar de quatro a cinco vezes mais do que o convencional”, explica.

Outra preocupação das concessionárias é quanto aos pontos de venda dos créditos. O projeto atual prevê que essa recarga seja feita em padarias, farmácias e outros pontos comerciais próximos às casas. Na opinião de Purin, isso prejudica a viabilidade econômica do projeto, uma vez que esses estabelecimentos deverão ser pagos pelo serviço de alguma forma. “Isso encarece a energia pré-paga como um todo e diminui o interesse dos consumidores”. Ele conta que o ideal seriam as transações via Internet ou celular, tecnologia já existente, chamada de PLC (sigla em inglês para Power Line Commnunication), com a segurança das informações garantida pela criptografia.

“Além da possibilidade de um consumo mais planejado, o cidadão quer um preço menor e não quer transtornos com a compra dos créditos”, destaca Purin. A regulamentação também esbarra em certos problemas, como a questão da isenção de pagamento que existe para populações de baixa renda e que consome até um limite pré-estabelecido. Com relação ao fornecimento de gás por meio de crédito, Manzolli acredita que a regulamentação deverá ocorrer quando houver um produto disponível no mercado nacional.

O medidor de luz, no papel

Cada consumidor possui um medidor, válvula obstrutora e indicador de nível de créditos remanescentes. O sistema de pré-pagamento adotado é baseado no uso da tecnologia Smart Card, que é um tipo de cartão com memória amplamente utilizado pelas operadoras de celular e as redes bancárias mundiais. De acordo com o projeto, com o cartão o consumidor poderá adquirir, por exemplo, R$ 50,00 em crédito de energia em qualquer casa lotérica, banco ou supermercado. O abastecimento será feito em uma máquina específica. Recarregado, o cartão será inserido em um dispositivo adaptado ao medidor de energia, que transmitirá os dados à distribuidora, para dar início ao fornecimento. Quando o crédito estiver acabando, será exibido um aviso de que o cartão deve ser recarregado.

Ducha a cartão

Em 2001, o brasileiro Mário Godinho Santana Jr. montou, em conjunto com seu colega Luís Furlan, um chuveiro que funciona por meio de crédito. Batizado de Controlflux, é acionado atráves de cartões especiais e não-reutilizáveis. A ideia era diminuir o tempo gasto no banho, de 16 minutos (a média nacional) para cerca de cinco.

(informações retiradas de Especial Superinteressante: As invenções mais malucas da história. Maio de 2003)



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