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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 18/04/09 às 13h22

Pouco conhecida, psicose infantil deve ser tratada desde cedo

Transtorno não é tão comum em crianças, mas os pais devem ficar atentos aos sintomas
Reportagem Gabriela Zavadinack
Edição Rodrigo Batista
GABRIELA ZAVADINACK
Profissionais do CAPs infantil, um dos locais públicos de Curtiba para o atendimento de crianças psicóticas
Profissionais do CAPs infantil, um dos locais públicos de Curtiba para o atendimento de crianças psicóticas

Riso ou choro sem motivo, perda de interesse na família e nos brinquedos, diminuição dos relacionamentos interpessoais, isolamento e auto-agressão. Esses são, entre outros, os fatores que podem indicar se uma criança sofre de psicose, um transtorno em que a pessoa se desprende da realidade e passa a viver e se relacionar com algo que não existe. De acordo com o médico psiquiatra e diretor clínico do Centro de Atenção Psicossocial (CAPs infantil) de Curitiba, Átila José Borges Junior, a psicose é vista como um agrupamento de patologias. “O paciente não comanda o pensamento e há uma desconexão com o senso comum de realidade”.

Segundo a especialista em terapia cognitiva e comportamental Carolina Froehner, ao contrário do que muitos acreditam, a doença também está ligada a fatores genéticos. “A herança genética predomina nesse transtorno, tanto que, em gêmeos idênticos, se um dos bebês apresentar psicose, o outro tem 50% de chances de ter”, afirma. Mas não são apenas os genes que determinam o transtorno. “Fatores psicossociais também exercem grande influência e complicações durante a gravidez ou o parto podem contribuir”, completa. Demora da criança em respirar, exposição pré-natal a viroses, traumas na cabeça e tumores são outros exemplos de complicações que podem levar à psicose.

Diagnóstico

Froehner afirma que a primeira coisa que deve ser percebida é o quadro de desenvolvimento da criança. “Se ela vem crescendo normalmente e, de uma hora para outra, algo rompe esse quadro de crescimento, os pais já devem começar a prestar mais atenção”. Outro fator para a qual os pais devem atentar é o delírio. Para ela, não é natural que uma criança que passou dos sete anos tenha delírios, ouça vozes e converse sozinha, por exemplo. Além disso, o fato de a criança se isolar, ficar medrosa e agitada também é indicativo de surto psicótico. “Isto pode acontecer de várias maneiras, mas geralmente a criança tem a sensação de ser perseguida ou de que há alguém querendo lhe fazer mal”, afirma a especialista.

Na escola, a situação segue o mesmo caminho, uma vez que os alunos psicóticos se isolam e não fazem amigos. Muitas vezes tornam-se agressivos e atacam os colegas sem qualquer motivo aparente. Também não reagem afetivamente de acordo com a situação, como quando lhes é entregue um brinquedo e não demonstram sentimento algum, por exemplo. Froehner alerta para a maior atenção dos mestres em sala de aula com as crianças. “Os professores devem estar atentos ao comportamento dos alunos, pois qualquer traço estranho no quadro de desenvolvimento da criança, como já dito, é sinal de que há algo errado”.

Moderação dos efeitos

Em função de a psicose ser um transtorno não tão comum na infância, a maioria das pessoas desconhece o assunto e, por esse motivo, não consegue perceber a doença. Caso a criança apresente sintomas e os responsáveis não percebam, a situação tende a ficar mais grave. “Quanto mais cedo o paciente começar o acompanhamento médico, melhor é a qualidade de vida que ele terá”, afirma Froehner.

Porém, o tratamento não consegue curar a doença, pois a partir do momento em que a criança apresentou algum sintoma, já houve a perda cognitiva – capacidade de percepção e conhecimento – e isso não se recupera. “O tratamento serve para amenizar os outros surtos e controlar a progressão da doença, mas a criança nunca voltará ao estado normal”, ressalta. Dessa forma, quando a criança não recebe o devido tratamento, ela tende a se tornar um adulto sem relações interpessoais.

A especialista em psiquiatria adulta e infantil Maria Lúcia Maranhão Bezerra alerta que transtornos assim devem ser tratados com bastante empenho, pois prejudicam a maturidade da pessoa ao longo do tempo. “A psicose deve ser diagnosticada o mais precocemente possível, de modo a se moderar as dificuldades futuras tanto quanto possível”.

No CAPs infantil de Curitiba, crianças com surtos psicóticos participam de várias atividades para amenizar os efeitos da doença. A criança participa de oficinas interativas, escolhidas por ela mesma, e é observada por profissionais. “Durante as brincadeiras, são percebidas as relações com outras crianças, a relação com o superior e até mesmo como a criança se comporta quando perde, por exemplo”, afirma Deisy Joppert, autoridade sanitária do CAPs. O tratamento pode ser dividido com a família de uma forma mais intensiva, pois é obrigatório que a criança seja acompanhada por um familiar durante o processo.

De acordo com os profissionais do CAPs infantil, é essencial que os pais procurem ajuda o quanto antes. Segundo a psicóloga Mônica Nogari e o diretor clínico Átila José Borges Júnior, os responsáveis por essas crianças precisam aprender a lidar com elas, pois o olhar da família é fundamental no tratamento.

Leia também a matéria O descaso com a educação especial.



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