
Um chapéu vermelho. É a mais nítida imagem em meio à penumbra que envolve todo o espaço, enquanto os espectadores procuram seus lugares. O chapéu vermelho ao alto do palco emoldura a cabeça do ator. Por cerca de 5 minutos, público e artista compartilham esse instante num silêncio confortável, logo dissolvido em uma melodia instrumental. Esperam juntos o ápice da música, e com ele, o início de Werther, espetáculo adaptado por Paulo Venturelli a partir da obra homônima de Johann Wolfgang von Goethe e que esteve em cartaz no teatro José Maria Santos dias 26 e 27 de março.
Bem recebida pela crítica no Festival do ano passado, a peça retorna ao Fringe 2007 com duas indicações ao Troféu Gralha Azul, maior prêmio do Teatro Paranaense. Concorre nas categorias Espetáculo do Ano e Ator Revelação de 2006. “Agora vemos o esforço dessa produção independente, feita sem nenhum incentivo fiscal e sem patrocinadores privados, ser coroado por essas duas indicações a esse prêmio tão importante", comemora Marino Jr., diretor do espetáculo.
Logo no início do espetáculo, quando as luzes se fazem presentes e as reais dimensões do palco se revelam - um espaço notoriamente grande a ser ocupado apenas por seis cadeiras brancas e uma escada - a reação do público parece de dúvida. No monólogo, conseguirá o ator preencher o enorme vazio? A incerteza se esvai no momento em que o ator toca o chão depois de um salto sonoro. É o primeiro gesto em que Werther renasce.
Amor maior que a vida
Marcel Gritten narra e vive pelos lábios indecisos da personagem mais que uma tragédia – é uma espécie de confissão íntima ou história interior, o romance de uma alma. Em forma de cartas dirigidas ao amigo Wilhelm, a personagem busca numa cidadezinha do vilarejo o sossego que suas pinturas já não oferecem mais. Ora sorrindo, ao contar para o amigo as banalidades mais simplórias da vida, como quando colhe ervilhas frescas e as prepara na manteiga, ora insinuando com discrição o sinal de uma seriedade dolorosa, o personagem afirma, a certa altura de seu desenrolar, que só o amor faria do homem necessário. E é esse o pulso gritante do texto.
Na interpretação simultaneamente angustiante e serena, o ator cava fundo na ambigüidade do texto. Provoca no espectador uma versão crua de sentimentos incômodos, dosada com a franqueza e transparência com que o drama transcorre – saudável contraste que preserva, antes de qualquer outra coisa, a história de amor que baseia Werther. Assim, do platônico amor por Charlotte, a quem o jovem Werther ama como quem precisa de ar para viver, ao trágico casamento arranjado para a amada com Albert, figura a inocência do primeiro encontro, o nervosismo da curta espera infinita, o gosto amargo e insolúvel da rejeição.
É também o desenrolar trágico de uma expectativa não alcançada, de uma decepção tão bruta a ponto de colocar em xeque a verdadeira razão da vida. Como pontua o diretor Marino Jr, "é a paixão, mas não a paixão disciplinada, comportada, condizente com os padrões e regras vigentes àquela época. É uma paixão sofrida até a aniquilação das forças vitais, na qual as barreiras da moral vêm totalmente abaixo".
Cenário minimalista
O sofrimento que pulsa do monólogo é pontilhado por reorganizações frenéticas do cenário. As cadeiras e a escada são os alicerces que a Gritten encontra para simbolizar a parte controlável de seu mundo. A sonoplastia e os efeitos de luz também viabilizam a identidade da dor: notas agudas e feixes fortes misturados a sombras espalham sobre o teatro toda a angústia do texto.
Até que a certa altura do espetáculo já não é mais possível a livre circulação do protagonista pelo espaço do palco: o entrelaçado de elástico que cria, e que conecta todas as arestas do cenário, impossibilita também suas ações, o envolve como uma trágica espiral de morte. A catarse de Werther se apropria da metáfora visual, e o público reagiu comovido: aplaudiu em pé por quase cinco minutos a tragédia de uma paixão literalmente devastadora.
Ficha técnica
WERTHER – Drama/Monólogo – Fringe
A peça foi ao palco dias 26 e 27 de março no Teatro José Maria Santos e concorre ao Troféu Gralha Azul de Melhor Espetáculo do Ano e Ator Revelação de 2006.
Texto: Goethe (adaptado) / Direção: Marino Jr / Assistência de Direção: Jader Alves / Cenografia: Lepoldo Baldessar / Iluminação: João Luiz Fiani / Figurino e Produção: Thamis Barreto / Elenco: Marcel Gritten / Duração: 60’
Metáfora Cia. de Teatro e Cia Máscaras de Teatro