Autora da monografia Escolher é preciso, re-escolher é possível, sobre reopção de curso, Marina Marques, no último ano de psicologia pela Universidade Federal do Paraná, falou ao Comunicação On-line a respeito do perfil das pessoas que mudam de curso, fatores que influenciam escolhas e Orientação Profissional. Marina, que irá coordenar, neste ano, um grupo de universitários no projeto Orientação Vocacional da UFPR, propõe o auto-conhecimento como caminho para um projeto de vida – e não só profissional.
Comunicação - Qual foi o método aplicado em sua pesquisa?
Marina Marques - Eu entrevistei só sete pessoas, mas como trabalho com análise de discurso, que é o que eles representam no discurso deles, foi bastante demorado. Então não foi possível entrevistar muitas pessoas.
Comunicação – E você levantou algum dado numérico sobre a mudança de curso?
MM - Minha pesquisa foi mais qualitativa, dado numérico não tem muito. Tentei ouvir pessoas de vários cursos da Federal, que já tinham começado outro curso e não tinham terminado. Não necessariamente o primeiro curso eles tinham que ter feito na UFPR. Dados numéricos eu tenho mais os oficiais da Federal e de outras universidades. Por exemplo: praticamente 40% das pessoas que entram na Universidade Pública não concluem o curso. Levando em conta que apenas 1% da população está na Universidade e que 40% desiste, o índice é bastante elevado. Por isso, o número de vagas remanescentes é grande. É então que se cria um programa como o PROVAR (Projeto de Ocupação de Vagas Remanescentes).
Comunicação – E existe algum perfil básico para identificar quem muda de curso?
MM - Entrevistei pessoas que disseram que escolheram o curso pela ficha de inscrição do vestibular, por eliminatória, ou então que foram pela profissão dos pais, pois acreditavam que o mercado já estaria aberto, que seria muito mais fácil. Tem também o aspecto de serem pessoas mais indecisas, que não foram estimuladas a fazerem suas próprias escolhas em situações cotidianas, como escolher uma roupa. Aí chega na hora de tomar uma decisão como a escolha profissional, e falta embasamento em outros tipos de escolha. As pessoas saem do Ensino Médio e é socialmente convencionado que elas já façam o vestibular. Mas às vezes não há amadurecimento suficiente pra fazer uma escolha, nem autoconhecimento pra saber o que se gosta e o que não se gosta. Com a pressão social, “acabam indo no embalo”. O processo de Orientação Profissional por que grande parte passou é do tipo mais simples, com testes, e não faz realmente um processo no indivíduo para que ele consiga aprender estratégias de escolha. Nós não acreditamos neste tipo de trabalho.
Comunicação - E como é o trabalho de vocês?
MM – Na orientação que fazemos na UFPR, são oito encontros de duas horas semanais cada, feitos em grupos, existindo, no entanto, a orientação individual, caso alguém não se adapte a esse esquema. Neste grupo são trabalhadas diversas atividades em que tratamos do que as pessoas gostam ou não gostam. Fatores que vão ajudá-la a pensar na sua escolha. Ninguém vai chegar e dizer: “Olha só, faça tal curso porque vai ser bom e vai te fazer feliz”. Agimos como co-pensadores. Pensamos juntos o que é escolha profissional e como se pode lidar com isso. As atividades são adaptáveis a cada grupo, não existe uma fórmula que é aplicada igualmente a todos. Levamos também informações sobre os cursos que existem, trabalhando os que a pessoa acha interessante e também os que não acha, para poder “abrir o leque”.
Comunicação – Esse projeto é aberto para toda a sociedade, alunos de Ensino Médio, ou é só para estudantes da UFPR?
MM - Existe um projeto na UFPR, o Cresça e Apareça, que surgiu de um trabalho dos estudantes de Psicologia na disciplina “Orientação Profissional”. Na hora de colocar em prática a matéria eles resolveram abrir para a comunidade o trabalho. No primeiro semestre trabalham com o pessoal do terceiro ano do Ensino Médio, por exigir maior rapidez, já que no segundo semestre já começam as inscrições pro vestibular. No segundo semestre, trabalham com alunos do segundo ano do Ensino Médio. Outro grupo de apenas quatro estudantes, orientado pela professora Luciana Valore, especialista em Educação e Doutora pela USP e que tem paixão pela Universidade, oferece apenas 32 vagas para os alunos da UFPR. A intenção é ampliar, mas falta espaço e verba. Algo importante de ser dito é que não usamos a verba da universidade nestes projetos. Eles todos dependem de doações voluntárias. Muitas vezes tiramos dinheiro do nosso bolso, mesmo, e também os participantes contribuem com o que for possível. Afinal, com um real já dá pra comprar duas cartolinas!
Comunicação - Então, quanto antes a Orientação Profissional for feita, melhor?
MM - Sim. Há um ramo de Orientação Profissional para Crianças. Existe, mas é muito pouco divulgado, pois os pais não pensam em falar de profissão com os filhos pequenos. Os nossos meios, porém, são outros. Na verdade, a orientação que a gente trabalha tem muito mais a ver com projeto de vida do que só com escolha da profissão. E projeto de vida você pode trabalhar em qualquer idade.
Comunicação - Os universitários que procuram o programa de Orientação são normalmente de quais anos?
MM - A crise maior vem por volta do segundo, terceiro ano, porque o aluno já passou um tempo considerável na universidade e ainda não sabe o que quer.
Comunicação - Como tem sido o trabalho com os universitários?
MM - No ano passado foram feitos alguns grupos e orientações individuais. O que a gente percebe é que muitos não desistem do curso. Vão fazer a Orientação Profissional porque estão em dúvida, ou insatisfeitos, mas não desistem, pois percebem que o que lhes faltava era informação. Acontece que o aluno entra na Universidade e nos primeiros anos percebe que há muita matéria teórica e pouca prática na grande maioria dos cursos, então ele não consegue formular a imagem do profissional formado, trabalhando. Um dos grandes motivos para a pessoa desistir do curso é não conseguir se imaginar trabalhando naquela área.
Comunicação – Você conseguiu perceber o que pesa mais na hora dessas pessoas fazerem a escolha?
MM - Família influencia muito. Se os pais não aprovam, fica muito difícil fazer uma escolha ou até mesmo desistir de uma. Um dos garotos entrevistados disse que não gostava do curso, mas não podia largar porque os pais diziam que já que ele começou, era para terminar. Como é que ele ia falar não? Ele era sustentado pelos pais! No dia em que ele conseguiu um emprego e passou a se manter sozinho, desistiu e foi fazer outro curso. A dependência financeira traz também uma dependência psicológica.
Outra coisa interessante: uma das meninas resolveu fazer Engenharia Química porque tinha um professor de química fantástico no colégio e que fazia propaganda do curso. Ou seja, a escolha pode ser feita baseada nas relações sociais que se tem com seus adultos-ideais, que podem ser os pais ou outras pessoas da família, professores, amigos. A idéia é que se conhece um profissional de certa área e se pensa: “Eu quero ser igual a ele”. Grande maioria dos entrevistados afirma também que escolheu a profissão ligando as matérias do Ensino Médio a um determinado curso. Uma menina, por exemplo, adorava Física no colégio e resolveu fazer faculdade Física. Não agüentou duas semanas. O importante é o autoconhecimento, então temos algumas atividades próprias pra isso.
Comunicação - E decepção com a Universidade: isso influencia na desistência?
MM - Muitas vezes as pessoas pensam que vão estudar na Federal, encontrar professores fantásticos. Aí quando entram, percebem que é quase um caos. Vêem que a imagem não é nada perfeita como idealizavam.
Comunicação - E se, depois de entrar na Universidade, a pessoa não gosta do curso, fica muito frustrada?
MM - Isso depende muito, não existe um padrão. Depende de como o indivíduo consegue lidar com as frustrações e como a família lida com isso também. Têm pessoas que sofrem mais, dizem que não sabem o que fazer da vida, e que perderam tempo. Enfim, fazem um drama e se sentem atrasadas em relação aos demais. Outras encaram o tempo no outro curso como um tempo de aprendizado, de amadurecimento.
Comunicação - Você acha que as pessoas optam por um curso que dê satisfação pessoal ou que prometa melhor condição financeira?
MM - Isso é muito difícil de responder. Essa é uma opinião minha, viu? (risos) Acho que as pessoas buscam, sim, a questão financeira. Percebi através da pesquisa que não adianta nada ter satisfação pessoal se não houver satisfação financeira. Vem em primeiro lugar a financeira e o resto seria conseqüência, ou as duas estão juntas. Muitos falam “ah, eu vou fazer isso porque eu vou ser feliz, independente do que eu gosto”, mas mais tarde apresentam um outro discurso que traz muito forte o lado do dinheiro.
Serviço
O Projeto "Repensando a Escolha Profissional", sob a supervisão da professora Luciana Albanese Valore, está com inscrições abertas dias 18 e 19 de abril, no CEAPE (Centro de Estudos e Acessoria em Psicologia e Educação), no subsolo do prédio da Praça Santos Andrade. Contato: 3310-2840 e repensar@ufpr.br.