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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Especial - FTC 2007
Especial - FTC 2007 | Publicada em 30/03/07 às 18h39

O engodo das sinopses

Nem sempre o que está escrito na sinopse corresponde ao que vai ao palco do teatro
Reportagem Amanda Audi
Edição Fernanda Trisotto
Daniel Sorrentino/WEBCLIX
O público não ficou sabendo que o elenco global de <i>Essa nossa juventude</i> não se apresentaria nos mesmos dias
O público não ficou sabendo que o elenco global de Essa nossa juventude não se apresentaria nos mesmos dias
Bruno Tetto/WEBCLIX
Na peça <i>O Engodo</i>, a atriz interpreta personagens diferentes a cada dia, não na mesma apresentação
Na peça O Engodo, a atriz interpreta personagens diferentes a cada dia, não na mesma apresentação

Ao folhear o guia do Festival do Teatro, um leque de atraentes possibilidades é aberto: são centenas de peças que, de uma maneira ou de outra, despertam a nossa curiosidade. Uma grande parte desse poder de sedução se deve às sinopses, que sempre são deveras encantadoras a ponto de levar uma pessoa a se deslocar de sua casa e ir ao teatro, nesses tempos onde a principal forma de entretenimento é ver TV ou algum DVD. De acordo com o dicionário, “sinopse” é “s.f., epítome; síntese; resumo; resenha; sumário; quadro esquemático”. No entanto, o que vemos não é somente uma compilação das características principais da produção, mas uma tentativa de aproximação da história a ser encenada com a vida das pessoas que lerão a sinopse, convencendo-as, assim, da importância de tal apresentação.

A arte de escrever sinopses

Essa atitude é altamente positiva, se levarmos em conta a importância de uma boa divulgação para que a arte do teatro seja continuamente valorizada. No entanto, escrever sinopses – o que também é uma arte - pode ser um tiro a sair pela culatra. Afinal, quem nunca foi numa peça esperando uma coisa e, ao sair de lá, teve a impressão de que recebeu outra? Ou a montagem foi melhor do que o esperado, ou não correspondeu às expectativas. Amanda Ludwig, estudante, conta que já trocou gato por lebre na hora de escolher uma peça: “Fui ver O que fazer com os ossos, no Teatro Lala Schneider, e confesso que não era nada do que eu havia lido antes de sair de casa”. Rose Carvalho assistiu à peça O Engodo, da Cia. Lendas de Eucaniqui, no Largo da Ordem, e conta que estava esperando por algo que em nada se relacionou ao que foi representado. No entanto, garantiu que o saldo foi positivo, pois “a peça tinha uma boa temática e uma atriz excepcional”. “No guia estava dizendo que a peça era sobre três personagens diferentes e agora descobri que cada dia a mesma atriz interpretava apenas um dos três”, relata. “As informações sobre a peça poderiam ter sido mais explicativas, para que a gente pudesse ter se programado melhor”, conclui. Recorrendo novamente ao dicionário, “engodo” é “aquilo com que se ilude ou seduz alguém”.

Neste relato, também se pode incluir o caso da peça Essa nossa juventude, da Mostra Oficial. Com elenco de atores globais, ela era uma das mais esperadas desta edição do FTC. A sinopse dizia que os atores Cauã Reymond e Caio Blat se revezariam na construção da personagem Edu, da mesma maneira que Simone Spoladore e Maria Luiza Mendonça fariam no papel de Jéssica. O que o público não entendeu de imediato, é que o revezamento se daria da seguinte forma: em um espetáculo, seria um casal de atores que entraria em cena, e no seguinte, o outro casal. Essa ambigüidade levou ao Teatro da Reitoria alguns grupos de fãs do ator Cauã Reymond, que só se apresentaria no outro dia.

Quando o escrito não representa o apresentado

O que pode justificar esse problema é um erro de comunicação entre a companhia teatral e a organização do evento. Maria das Dores Pereira, da Cia. Lendas do Eucaniqui, diz que houve falha na divulgação, mas que isso não prejudicou o espetáculo, pois no final da primeira apresentação do grupo, um produtor local corrigiu o deslize fazendo um pronunciamento para o público presente.

Pode-se perceber que, na maioria dos casos, o equívoco não é proposital, isto é, decorre de falhas alheias ou é apenas parte de um tipo de “jogo de marketing”. Existem inúmeros exemplos de sinopses enganosas fora dos palcos do teatro. Afinal, quem acredita na contra-capa de livros de auto-ajuda? Eles prometem que, no mínimo, livrarão qualquer pessoa de todos os seus traumas e as tornarão felizes em pouco tempo. Entender ou não uma sinopse depende de quem a lê.



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