Nesta sexta-feira, com pouco mais de 1h de atraso, teve início uma manifestação contra a Reforma Universitária no pátio da Reitoria. Por volta das 19h30 a professora aposentada de Ciências Sociais, Milena Martinez, marcou o começo do protesto com uma aula pública sobre o projeto de Lei.
A professora, que faz parte de um grupo de política educacional do Andes-SN (Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior), acompanha há mais de 20 anos as discussões relativas ao Ensino Superior no país. Ela lembra que já no fim dos anos 80 os movimentos estudantil, docente e de servidores, conseguiram barrar projetos semelhantes ao da Reforma proposta atualmente. No entanto, critica alguns setores atuais do movimento estudantil, que “não fazem uma análise crítica das propostas que o governo tem para a universidade”.
Para Adnan Abdallah El Sayed, aluno de Ciências Econômicas, a grande causa da falta de mobilização entre os estudantes é o fato deles não perceberem que a Reforma não é um único projeto de Lei, mas sim uma série de medidas que já vem sendo aplicadas, como o Programa Universidade para Todos (ProUni). “Essa é uma maneira de mascarar a reforma, fazer ela de pouco em pouco, e o que é pior: sem a ciência dos estudantes”. Segundo Adnan, o principal objetivo da manifestação desta sexta-feira é justamente chamar a atenção dos estudantes para a questão e tentar retomar a organização do movimento estudantil.
Muitos alunos, no entanto, sequer possuem as informações básicas para poder definir seu posicionamento em relação ao projeto. A estudante de pedagogia, Silvane Schadlick, confessa que não sabe ao certo o que é a Reforma Universitária e acredita que a falta de informação seja um dos principais problemas para a maioria dos estudantes, em especial os calouros: “Muita gente entrou esse ano e não sabe de nada que está acontecendo”, comenta. De qualquer forma, Silvane diz que protestos como o desta sexta-feira são válidos, desde que sejam em defesa da universidade: “Quando algo ameaça o nosso curso, a universidade, nós temos que nos unir e lutar”.
Plenária nacional
Cerca de 1.200 pessoas de 21 estados estiveram presentes nesta segunda-feira no Clube de Regatas Tietê, em São Paulo, para a Plenária Nacional promovida pela Frente de Luta Contra a Reforma Universitária. A Frente engloba inúmeras entidades do movimento estudantil, além do Andes-SN, Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores da Educação Federal) e do grupo de oposição à atual diretoria da Fasubra (Federação de Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades).
O evento começou às 9h, com uma abertura do professor Paulo Rizzo (presidente do Andes-SN), que destacou o importante papel dos movimentos sociais na história da universidade pública brasileira. Ainda pela manhã, falaram ao público representantes da Sinasefe, da Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes (Conlute) e da Frente de Oposição de Esquerda da União Nacional dos Estudantes (Foe- UNE).
Grupos de discussão e a plenária que aprovou o calendário de lutas anti-reforma dividiram o período da tarde. Em seguida, um protesto pacífico, porém barulhento, ocupou a Avenida Tiradentes até a Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), com carro de som, bateria e gritos de ordem como “a unidade é pra lutar, é para não privatizar”. Janis Regina, estudante de Artes Plásticas da UFPR, diz que se animou com a manifestação: “É bom sair na rua com esse monte de gente e ver que não estamos sozinhos nessa luta, que na verdade é a luta por uma educação superior de qualidade”.
Reforma Universitária
Reforma Universitária é o nome do projeto de lei 7200/06 que regulamenta, entre outras coisas, a autonomia financeira das instituições públicas de ensino por vias como cursos pagos de pós-graduação lato sensu e parcerias público-privadas. Outros projetos e medidas também caracterizados como partes da reforma universitária já estão em vigor. Por exemplo, o ProUni, a Lei de Inovação Tecnológica, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes), o Decreto de Fundações e o Ensino à Distância.
O estudante Thiago Bagatin, da UFPR, alerta: “Na nossa universidade já temos mais de 20 mil vagas no ensino a distância. Me pergunto que tipo de profissional, principalmente da educação, esse ensino vai proporcionar”. Ele ainda lamenta o fato de que “o dinheiro que o governo deixa de receber com o ProUni poderia criar três vezes mais vagas no ensino superior público", lembrando que os empresários da educação concedem 10% das suas vagas com um dinheiro que cobre mais de 20% destas.