Robson Furquim, bancário, tem 24 anos e teve apenas um relacionamento. Mas não demonstra a menor vontade de voltar a se envolver com outra pessoa em qualquer tipo de relação amorosa duradoura. “Se existem seis bilhões de pessoas no mundo, por que passar a vida inteira com uma só? Eu gosto muito da minha liberdade, em todos os sentidos. Não me imagino vivendo com alguém, nem mesmo por amor”, conta.
Segundo pesquisa divulgada pelo IBGE, de 2006 a 2007 o número de casamentos aumentou em 2,9%. Porém, para cada quatro uniões civis, ocorreu uma separação no período pesquisado. E ainda é grande a quantidade de pessoas solteiras que dizem não encontrar um par ideal. De acordo com a psicóloga da Universidade de Brasília (UnB) Giovana Perlin, isso acontece porque os solteiros preferem permanecer sozinhos caso a sua qualidade de vida vá diminuir com um casamento sem qualidade. “As pessoas querem um relacionamento estável, mas só na medida em que enriqueçam suas vidas, e não mais para não ficarem sozinhas”, afirma.
Mas, assim como Furquim, muitas pessoas acreditam que o fato de não estar com a ‘cara-metade’ não é motivo para tristeza, como para Joana*. O fato de estar solteira e nunca ter se casado não é algo que a incomode. “Estou satisfeita com a vida que tenho. Gosto de ser solteira por ser totalmente independente”, afirma.
As razões
Joana* tem metas profissionais a seguir e considera esse um ótimo motivo para estar só. “Quando se tem objetivos profissionais importantes, é difícil um companheiro que colabore com isso”, afirma. Segundo Giovana, a ausência da necessidade de negociar espaços e rotinas e a maior liberdade sexual são pontos importantes nesta discussão. “Fala-se muito sobre liberdade, sobre a possibilidade de exercitar a individualidade com poucos limites quando há o casamento”, afirma. O excesso de intimidade é outra razão que a incomoda, pois isso pode trazer o desrespeito pelo indivíduo. “Não há casal que eu não conheça que não reclame ao menos uma vez por semana do que a sua cara-metade fez ou deixou de fazer”, comenta Joana*.
Experiências de vida também podem levar as pessoas a preferirem ficar solteiras. Furquim nem pensa em casar-se de novo, pois na primeira tentativa de relacionamento perdeu muitos amigos por causa da união. “Tudo o que me aconteceu, todos os meus atos e das pessoas que me rodeavam me levaram a isso”, afirma. A psicóloga explica que decisões como as do bancário ocorrem porque na relação conjugal os sentimentos ficam atrelados a compromissos muito sérios. “O casamento é um contrato. Se eu te amo, eu só fico com você. O amor não é um contrato. O amor é livre”, opina Furquim.
Já para a analista de RH Juliane Araújo, 25 anos, o motivo para estar solteira é porque ainda não achou a pessoa certa. “Na verdade, acho que já me acostumei a estar solteira e me entrego somente quando sinto algo por alguém”, afirma. De acordo com Giovana, o caso de Juliane é muito comum e pesquisas mostram que a maior parte dos solteiros está nesta condição porque ainda não conseguiu estabelecer um relacionamento. “Eles alegam que se sentem bem sozinhos, mas que seria melhor se estivessem com alguém e demonstram esperança em encontrar uma parceria estável e de qualidade”, comenta. A analista ainda espera encontrar um companheiro ideal. “Ninguém prefere esta vida de solteiro. Se alguém diz que prefere é medo de se entregar ou de dizer que sente a falta de alguém”, ressalta.
Outro fator relevante no número de solteiros é a falta de tempo para pensar em um relacionamento. A vida tumultuada e a multiplicidade de papéis, demandas do trabalho e da família são algumas questões que podem estar em hierarquia de importância para as pessoas. “A vida pós-moderna impõe situações que representam desafios para o estabelecimento e a construção da intimidade”, afirma Giovana.
Pontos de vista opostos
Furquim afirma que o fato de estar sozinho, não é – no caso dele – uma escolha, mas sim uma condição. “Eu não me vejo feliz numa vida a dois. Acho que é muito mais uma condição, mesmo que eu quisesse não duraria”. Giovana considera que esses pensamentos, apesar de não serem tão comuns, são completamente aceitáveis, uma vez que a vida de solteiro não é infeliz. “As pessoas estão conseguindo viver bem sozinhas, deixando para trás o mito da existência de uma outra metade perdida por aí!”, comenta.
A falta de um companheiro para relacionamentos amorosos não é sinônimo de solidão para alguns desses solteiros. Para isso, os amigos são um grande ponto de apoio, pois eles suprem este sentimento facilmente. “Quando bate o vazio, me recolho, fico em casa, ou então tento conversar com alguma amiga para espantar a solidão”, diz Juliane. Já para Furquim, a situação muda. Ele, sem peso na consciência, admite que quando se sente sozinho, preenche o vazio com aventuras casuais. “A solidão bate muitas vezes sim, mas é falta de carinho, de amor, não de alguém. Não acredito que uma namorada resolveria esse problema”, afirma.
Brincadeirinhas de mau gosto
“Encalhada”, “Solteirona”, “Vai ficar pra titia”. Não é novidade que pessoas solteiras tenham que aceitar certas piadas de mau gosto. E a situação ainda piora quando os solteiros já passaram da idade em que ‘deveriam’, segundo as regras sociais, ter casado. “Já fui julgada de imatura em uma entrevista de emprego só porque não sonho em casar”, conta Joana*. No caso de Juliane, o preconceito também se faz presente. “Dizem que estou encalhada por ser exigente demais e que vou acabar ficando sozinha se eu escolher muito”, diz. A psicóloga afirma que, atualmente, a maior parte dos solteiros está muito exigente quanto aos parceiros em potencial. “Eles preferem viver sozinhos a ficarem com um parceiro que não atenda às suas expectativas. Mas, seriam estas expectativas atingíveis?”, questiona.
No entanto, mesmo sujeitos a essas brincadeirinhas mal intencionadas, os solteiros convictos são muito bem-resolvidos e não se deixam abalar por isso. Os entrevistados pelo Comunicação On-line não veem problema em continuar solteiros. Furquim acredita que quando se ama uma pessoa e isto é recíproco, é o que basta para ser feliz, não importando se se está longe ou perto de quem se ama. “Quero ser como o personagem do livro ‘On the Road’: sair por aí, sem me preocupar com nada, porque nada vale tanto a pena”, completa.