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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Especial - FTC 2007
Especial - FTC 2007 | Publicada em 31/03/07 às 07h52

Essa nossa juventude é tiete

A presença de atores globais na peça provoca euforia antecipada na platéia
Reportagem Giovana Neiva
Edição Ivan Sebben
Daniel Sorrentino - WEBCLIX
Edu (Caio Blat) personifica as contradições e complexidades típicas da juventude
Edu (Caio Blat) personifica as contradições e complexidades típicas da juventude

O espetáculo atraiu o mais jovem público que qualquer outro até então. Corrija-se: o público mais tiete. Já no saguão de espera do Teatro da Reitoria, segunda apresentação de Essa nossa juventude, última quinta (30), era ganha a aposta de que a peça seria muitas vezes interrompida por incômodos flashes: dezenas de estudantes mantinham, a postos, suas máquinas digitais nas mãos. A ansiedade que incomodava cada jovem espectador contagiou os demais ao abrirem as portas de acesso. Não houve filas nem tentativas de organização; foi como se esquecessem que os lugares eram, comodamente, marcados.

Com as cortinas fechadas, o primeiro ato inesperado veio mesmo das cadeiras. Três garotas, de seus 13 ou 14 anos, à mão com espelhos portáteis e todas as outras bugigangas do gênero retocavam a maquiagem com avidez. Mayara Costa, 14, segurava o batom na mão quando confessou não saber ao certo sobre do que tratava a peça. Não tendo prestigiado nenhum outro espetáculo desde o início do Festival, garantiu o ingresso tão logo soube dos ídolos globais que preencheriam o palco. “A peça deve ser boa, eles não aceitariam o convite se fosse ruim” – palpitou, e segundos depois voltou à maquiagem dos lábios, com um olho no palco ainda vazio.

O ritual para receber a peça estaria quase finalizado, não fosse a excassa iluminação do teatro, que obrigou as garotas ao apuro de terminar a maquiagem com A ajuda de seus celulares – ligados e florescentes. Surpreendido pela música alta e setentista de Frank Zappa, o público se acomoda e se ajeita nas cadeiras, atento o início da dramatização.

“Já morei em tanta casa que nem me lembro mais”

Três jovens amigos sufocados por uma cultura baseada em torno de dinheiro e sucesso – é essa a premissa do texto de Kenneth Lonergan, adaptado por Maria Luiza Mendonça na versão de Essa nossa juventude apresentada no Festival. A atriz e diretora optou por revezar os atores Cauã Reymond e Caio Blat, no papel de Edu, e dividiu a personagem Jéssica com a atriz Simone Spoladore. Cada ator e atriz se apresentou em apenas uma das duas noites, escolha da diretora: “A proposta também era de ter um elenco que, desde o princípio, se revezasse e assim perpetuasse o texto, razão primeira e fagulha primordial do teatro”, explica Mendonça, que quis valorizar os acréscimos pessoais para a construção dos personagens.

Na pele do confuso Edu, Caio Blat vive uma faceta forçada de rebeldia - acredita conseguir esconder suas reais mágoas e decepções da figura paterna. Enquanto com a mochila suja nas costas simula um ar próprio de descaso, uma mala antiga que carrega recheada de brinquedos antigos revela sua real e incontrolável sede por proteção. É motivo inconfesso por que Edu, desacostumado à casa dos pais, procura abrigo na casa de Denis (Frank Borges), seu melhor amigo.

Os dois garotos, juntos da amiga Jéssica (Simone Spoladore e Maria Luisa Mendonça), tentam repetidas vezes desvencilhar-se dos pais. A certa altura percebem, envergonhados, que não são maduros ou seguros ainda para sair do ninho; o final agridoce sentencia o clima de batalha perdida, de rebeldia contornada.

A peça

A montagem de 100 minutos manteve um diálogo pertinente e aberto com seu público: incorporadas às falas das personagens, expressões de rua, gírias e palavrões ganham um toque trivial e adicionam leveza ao texto. O jeito cúmplice de contar a história permitiu deixar-se envolver, se identificar com os personagens sem sinais de vergonha ou receio. Não foi difícil, ora ou outra do desenrolar da peça, ouvir exaltações juvenis da platéia.

Tampouco deixou a desejar a adaptação ao abordar a temática densa, que concentra em 48 horas da curta vida de três jovens que discutem sobre drogas, perdas e aceitações: com suavidade, sem truncar o texto, a peça é fluente e empática ao público. O cenário surrado de um apartamento, “que pode ser empacotado e desempacotado em meia hora em qualquer lugar do mundo”, como adverte a diretora, traduz o despojo cênico e reforça a bem-intencionada contemporaneidade da montagem.

“A peça é meio que um buraco da fechadura para os adultos verem como os jovens se comportam”, avalia Maria Luíza Mendonça. Entre as diversas situações coadjuvantes no roteiro e aglomeradas no texto, a incomunicabilidade entre pais e filhos – em todos os graus e sentidos – é a via principal das indagações.

Eu vim aqui só pra te ver

O texto de Essa Nossa Juventude, de Kenneth Loregan, estreou em um espaço pequeno e experimental ideal e de grande prestígio para lançamentos de textos teatrais inovadores, no ano de 1996, em Nova York. Ganhou remontagem em 2001 em Londres, causando muito agito no West End, reduto de montagens das melhores peças da Inglaterra, onde obteve grande êxito de crítica e de público, ficando em cartaz por mais de dois anos.

No Festival de Teatro de Curitiba, foi o primeiro espetáculo a ter seus ingressos esgotados, segundo a Bilheteria Central. Já nos primeiros dias de divulgação era possível ouvir dos futuros espectadores do Festival comentários que citavam a “peça do Cauã Reymond e do Caio Blat” – o título do espetáculo era mais usual nos quiosques de compra e no encarte da mostra oficial, conferido de última hora por um rápido passar de olhos. A Bilheteria Central confirma que são freqüentes curiosos perguntando sobre peças encenadas por elenco conhecido. A qualidade do texto e o capricho da montagem posam, então, como atrativos secundários da peça, rebaixados pelo “peso” do elenco.

Um certo revés para o Festival daí é evidente. Alguns bons espetáculos do Fringe não atingem um público significante de espectadores por contar apenas com atores iniciantes. Textos e diálogos imperdíveis ecoam no teatro quase vazio, enquanto as cadeiras, falas e cenas nem sempre tão brilhantes dos globais reúnem um amontoado expressivo da juventude tiete.

Ficha técnica

ESSA NOSSA JUVENTUDE – Drama – Mostra Oficial

Texto: Kenneth Lonergan / Tradução, adaptação e produção geral: Maria Luisa Mendonça e Christiane Riera / Direção: Maria Luisa Mendonça / Cenografia: Marcelo Larrea / Figurino: Ellen Milet / Iluminação: Wagner Pinto / Direção de produção: Dada Maia / Elenco: Caio Blat, Simone Spoladore, Frank Borges, Cauã Reymond e Maria Luisa Mendonça / Duração: 100’



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