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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 14/06/09 às 21h45

Amizade de aluguel

O que fazem os profissionais que acompanham clientes a diferentes lugares oferecendo sua ‘amizade’
Reportagem Kariny Martins
Edição Rodrigo Batista
ARQUIVO PESSOAL
Toni Sá, em companhia de sua cliente. Paciência, educação e bom humor são alguns requisitos para ser <i>personal friend</i>
Toni Sá, em companhia de sua cliente. Paciência, educação e bom humor são alguns requisitos para ser personal friend

Antonio Carlos da Silva Sá, ou simplesmente Toni Sá, 48 anos, é carioca e estudante de contabilidade. O que impressiona nele é a profissão: personal friend. Isso mesmo, depois do personal trainer e do personal stylist, surge aos poucos no Brasil uma nova área de profissionais exclusivos. ‘Amigo pessoal’, na tradução para o português, o profissional recebe por hora para acompanhar pessoas a festas, shows, viagens, caminhadas e até para escolher apartamento ou um carro novo com o cliente.

Sá conta que com o tempo as clientes que contratavam seus serviços de personal dancer - profissional que acompanha principalmente senhoras a bailes e boates - começaram a convidá-lo para programas diversos, como shows, teatros e bingos. “Hoje tenho praticamente todas as noites programadas, com dias da semana reservados para algumas clientes”. Para se ter uma ideia, em julho Toni fará uma viagem de 23 dias pela Europa, em companhia de uma de suas clientes. A sua única restrição é quanto a programas com homens ou saídas “de cunho sexual”, como faz questão de frisar.

Em sua maioria, a clientela de Toni corresponde a mulheres solteiras, divorciadas, aposentadas ou sem filhos. A aposentada Marly Telles não revela a idade, mas conta que foi uma das primeiras a contratar seus serviços. "Ele montava grupos de alunas para sair e dançar. Ofereci o preço para sair sozinha, poder dançar com ele, sair e chegar a hora que eu quisesse nos lugares. Ele é mil e uma qualidades", brinca ela, que sai com Toni até três vezes por semana, não só para dançar, mas também ir ao cinema ou fazer compras.

Solteira e sem filhos, a também aposentada Márciah Lacerda, apesar de continuar pagando pelo amigo, já foi até sócia de seu personal friend em um restaurante. "Não sou só cliente, temos uma amizade mesmo independentemente de dinheiro. Nos falamos por telefone, vamos um à casa do outro, conhecemos nossas famílias", conta ela.

Jogo de cintura

Segundo Toni Sá, para ser um personal friend, é preciso reunir algumas características, como boa apresentação, educação, cultura, boa fluência verbal, bom humor e paciência. E isso é necessário até para se esquivar de possíveis armadilhas. "Desagradável foi uma exposição de quadros, na qual notei que minha presença era para fazer ciúmes ao ex-marido da minha contratante. Toda vez que ele passava, ela me abraçava. A situação foi ficando explosiva e uma amiga dela convenceu-a a ir embora. Menos mal", conta.

Dos encontros não é raro o nascimento de boas amizades, mas Sá prefere deixar de lado qualquer envolvimento mais íntimo. "Tentações existem, mas esse é meu ganha-pão. Quando surge uma mão na perna, tenho que sair delicadamente. Não posso ser rude, nem deixar que a coisa evolua. Não quero que as pessoas confundam minha proposta", confessa.

Envolvimento além das barreiras profissionais

O psicólogo Vitor Hugo Paese explica que o fato de o personal friend se doar inteiramente ao que faz exige um preparo emocional muito intenso. “O personal friend é um profissional que se envolve extremamente com pessoas diferentes, o que pode torná-los mais vulneráveis emocionalmente”, afirma.

José Adelito de Souza atua como personal friend na cidade de São Paulo e diz não ter problemas com esse envolvimento em excesso com cada cliente. Para ele, todos os trabalhos para serem bem realizados precisam de uma dose de envolvimento emocional. “É necessário amar o que se está transformando, seja um ser humano, ou uma pedra bruta. Tenho uma vida bem balanceada e equilibrada emocionalmente e não tenho problemas desse tipo em meu trabalho.” Souza conta ter adquirido equilíbrio e boa conduta quando foi para o seminário - mas acabou desistindo às vésperas da consagração.

Paese diz ainda que, dependendo do estado psicológico de cada pessoa, aqueles que contratam o serviço de um personal friend podem desenvolver alguns problemas de relacionamento interpessoal. Uma pessoa que não possui uma rede de relacionamento social e contrata esses serviços pode resolver seu problema de solidão naquele momento, mas isso não constitui uma solução. “A facilidade de se ‘contratar’ um amigo quando precisar pode impedir que essa pessoa amplie sua rede de relacionamentos”.

Por outro lado o psicólogo admite que no caso de alguém que possui apenas uma dificuldade de inserir-se em determinados grupos sociais, a figura do personal friend pode ser muito útil. ”Algumas pessoas, geralmente em eventos públicos, encontram dificuldades de inserir-se naquele contexto. O personal friend pode ajudar esses indivíduos dando segurança e estabilidade emocional”, explica.



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