Educação alternativa é tudo aquilo que foge da educação convencional, conforme explica a pedagoga Josiane Miranda. “Ela é praticada principalmente em organizações, governamentais ou não”, afirma. Dentre formas de educação alternativa, a educação popular é um dos formatos de ensino não convencional mais conhecido. Idealizada por Paulo Freire, que sempre defendeu uma pedagogia humanizadora, a educação popular difere da existente na maioria das escolas, por levar em consideração o conhecimento que o indivíduo já possui e ter foco no ensino daquilo que lhe será útil. É um tipo de ensino que objetiva ressaltar o valor do indivíduo enquanto ser humano, e não apenas enquanto parte do sistema econômico.
Segundo a pedagoga Regina Maria Michelotto, neste tipo de educação é necessário ensinar aquilo que tenha significado na vida pessoa, ao contrário do que ocorre com a educação massificada atual. “Que é como se a vida fosse uma coisa, e o ensino fosse outra”, diz. Como exemplo, ela relembra a alfabetização de adultos baseada na educação popular. “A primeira palavra ensinada a um obreiro, neste sistema, é “tijolo”, algo presente e útil na vida dele. Isso traz mais sentido à alfabetização do indivíduo”.
Exemplos de iniciativas
Ações voltadas para a educação popular e alternativa normalmente acontecem fora da escola, como complemento do ensino formal. A aplicação ocorre de diversas maneiras, como iniciativas que envolvem ensino e sensibilização através da arte, da comunicação social e do estímulo à cidadania e participação política.
Um exemplo é o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria). A entidade promove oficinas e debates sobre temas sociais, além de trabalhar com a comunicação popular, com o objetivo de disseminar exercícios de comunicação e desmitificar a manipulação imposta pela grande mídia, segundo o educador do Cefuria Antônio Carlos Bez. Ele defende que estas ações são importantes porque através delas os participantes se reconhecem como sujeitos e desenvolvem capacidade para questionar. “O objetivo é usar a comunicação como um trabalho libertador e que leve à transformação do modelo excludente em que vivemos”, explica.
Uma outra ação que envolve comunicação e educação é o projeto Nós na Tela, da Organização Não Governamental Casa da Videira. O objetivo é fazer com que jovens reconheçam a realidade em que vivem e se percebam como ‘indivíduo social’ através da produção audiovisual. A ONG também possui trabalhos como o Atelier da Vida, que promove leituras, brincadeiras e artesanato para crianças, afim de que elas desenvolvam espírito autônomo e crítico. O coordenador da casa, Eduardo Feninan, acredita que projetos como estes aproximam as pessoas e criam vínculos de trabalho. “O objetivo é aprender que não existe individualidade, é tudo coletivo”, explica.
Outro exemplo é a ONG Cores da Rua, que trabalha com arte-educação. A organização promove eventos como teatro, dança e percussão para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, e trabalha em parceria com a escola. Segundo o artista e fundador da entidade, Helio Santana, a arte é um instrumento para o conhecimento de valores universais. “A arte e a cultura alimentam a alma e fazem com que as pessoas consigam conviver com os conflitos do sistema”, diz.
A ação governamental também existe como iniciativa de educação alternativa. O Projeto Projovem, da Secretaria de Estado da Criança e da Juventude (SECJ), é exemplo desta medida. O objetivo é fazer com que jovens de 18 a 29 anos que abandonaram os estudos voltem a frequentar um ambiente educacional. Para isso, o Projovem promove conclusão do ensino fundamental, participação cidadã e qualificação profissional básica. Segundo a coordenadora do projeto, Juceli Verona, a proposta pedagógica é um dos pilares que sustentam o sucesso da medida. “A proposta é a de uma pedagogia integrada, com base nos princípios da interdisciplinaridade”, diz.
Josiane Miranda também cita projetos de alfabetização como exemplos de educação alternativa. “O EJA – Ensino para Jovens e Adolescentes é um ótimo programa para alfabetizar pessoas que estão fora da idade escolar”, afirma. A medida é praticada em escolas públicas e está dentro do projeto Paraná Alfabetizado, promovido pelo Governo do Estado.
Conseqüências
Os resultados dos projetos que envolvem educação popular são animadores. Juceli conta que o Projovem possui várias histórias positivas de alunos. “As conseqüências estão no âmbito da reinserção social e no entendimento do jovem a respeito da importância da qualificação profissional”, afirma.
Josiane, embora julgue mais difícil alfabetizar adultos, considera o trabalho no EJA muito gratificante. “É muito bom saber que você ajudou alguém a ler e a escrever”, diz. Porém acredita que o que pode ser negativo em um trabalho como este é o fato de se pular etapas da escolarização. “O adulto que está em processo de alfabetização muitas vezes tem dificuldades de coordenação motora, pois não passou pela etapa de movimentar as mãos com recorte e colagem e com massinha, por exemplo”, explica.
A ONG Cores da Rua, com a transformação através da arte, também tem resultados positivos, segundo Helio Santana. “Já tivemos surpresas maravilhosas, mas é muito relativo, porque os projetos artísticos funcionam como pontes para trabalhar valores universais e a auto estima”, esclarece.
Para Jhonatan Bornato Costa, participante do Nós na Tela há um ano e meio, o projeto trouxe novas perspectivas. “Comecei a ver o mundo muito diferente. Agora reparo mais nos pequenos detalhes”, comenta.
Antônio Carlos Bez também vê benefícios nos projetos do Cefúria. Segundo ele, os envolvidos ficam esclarecidos sobre como se comunicar e conscientes da manipulação da mídia. Um projeto que, segundo ele, desmitifica essa manipulação é o intercâmbio entre campo e cidade, que proporciona a troca de experiências entre membros do MST – Movimento dos Sem Terra - e moradores da cidade. “Quando eles se encontram, percebem que não é como ouvem por aí: favela não é o mal da cidade e MST não é baderneiro”, afirma. Bez acredita que a mídia tenta criminalizar o MST porque seus membros, submetidos à educação popular, são questionadores e cientes da centralização da economia e da comunicação no Brasil.
A pedagoga Regina também lembra o MST como exemplo de comunidade com grande presença de educação popular. “O valor dado à educação pelo movimento é tanto que, quando os sem-terra acamparam no Palácio Iguaçu, montaram escolas no prédio, que na época ainda estava em construção”, exemplifica.