
Entrar no Teatro da Caixa para assistir à peça Descoisas, pré-coisas e, no máximo, coisas, do grupo Cia. do Assobio, é como adentrar em um sonho. No palco, os atores Luiz Bertazzo e Talita Dallmann permaneciam deitados, como se fossem bonecos sem pilha. No teto, vários guarda-chuvas abertos. Aos arredores, uma cerca irregular de madeira delimitava o palco. O público sentou-se na platéia sem saber o que esperar de uma peça que propõe uma junção entre poesia e vida urbana, a partir de uma frase de Manoel de Barros: “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”. A obra poética de Barros é o fio condutor que permeia todo o universo construído pela encenação.
As luzes se apagam, e então uma voz preenche os vazios do auditório. É a voz de um senhor de idade, provavelmente de origem bem simples, que vai narrando fatos do seu cotidiano, enquanto os atores se levantam. Então as luzes se acendem, e começa um jogo de gestos e danças bem leve, sincronizado e um tanto quanto incompreensível, apesar de muito belo. Tudo parece ter saído de algum ritual maluco, ou de um sonho abstrato.
Aos poucos, o estranhamento vai passando, e começa-se a perceber o lúdico da montagem. As duas personagens, o Menino e a Menina, vão juntando fragmentos de brincadeiras, poesias e imaginário popular, e costuram tudo num manto irregular, como se fosse um patchwork. Como diz o nome da peça, ambos vão desconstruindo palavras e certezas. Em um momento o Menino pergunta: “Se você tivesse um desnome, qual seria a sua desgraça?”, ao que a Menina responde: “Seria Desaparecida da Silva”.
Tudo que aparentava não ter muito sentido, aos poucos vai ganhando forma. Podemos perceber um menino e uma menina crescendo e descobrindo todas as coisas do mundo. Sob ordens expressas, eles amam, desamam, dançam, pulam, aprendem a falar em inglês, correm em círculos ao mesmo tempo em que bebem um gole de Coca Cola. Mais um círculo, mais um gole. Tudo é uma grande metáfora. Até que ambos, exaustos, concluem: “O importante é desaprender o tempo”.
Toda a produção é carregada com uma forte dose de lirismo e poesia. O que é colocado em foco é o banal, o que não é importante: todas as coisas pequenas, presentes no nosso cotidiano, como uma caixa, uma borboleta, lenços brancos pendurados… As imagens são construídas e reconstruídas e, no final, tornam-se mais do que apenas coisas. A linguagem é constantemente modificada, poderíamos até falar de uma relinguagem, ou uma deslinguagem. O objetivo é relembrar de tudo aquilo que se olha, mas se esquece de ouvir; ou se escuta, mas se esquece de olhar.
O caráter regionalista está presente em todo o decorrer da peça. São transformadas em arte todas as características da região do Pantanal, lugar de presença constante nas poesias de Barros: o homem, a natureza e os costumes. Ao mesmo tempo, existe um questionamento muito forte em relação a diversos assuntos, tais como a tecnologia, o imperialismo estadunidense, a religião e as dificuldades da vida adulta. A cultura popular brasileira entra várias vezes em conflito com a cultura globalizada. Por exemplo, a Menina diz ao parceiro que ele se esqueceu da cigarra quando começou a cantar em inglês. E então ambos cantam uma desesperada versão de “Escravos de Jó” na língua estrangeira.
Cada espectador confere a sua própria leitura ao espetáculo e, ao que parece, este é exatamente o seu propósito. Difícil não sair do local com uma das últimas constatações do Menino na cabeça: “Quando eu era criança, minha vó me contou a história do lobisomem. Bem que eu desconfiava que meu pai tinha o peito muito peludo pra ser gente”. E conclui, no final da apresentação: “O peito do meu pai nem tinha tanto pêlo assim… E o meu, se fechou”.