Ao contrário do que o ministro Ayres Britto disse, jornalismo não é arte. Repito isso aqui para dar início à rabugice desta quinzena. Talento, aprendizes de jornalista, vocês podem até ter, mas para se formarem na profissão que almejam (e não estou falando em obter o diploma), precisam necessariamente dominar a técnica, o instrumento de seu trabalho. Falo da língua portuguesa.
No dia 2 de julho, data em que redigi este texto, bastava o leitor ler as duas primeiras chamadas do Comunicação On-line para se deparar com graves erros da técnica jornalística. No texto introdutório da manchete Especialistas avaliam a efetividade da crise e a postura do governo brasileiro, um defeito facilmente evitável e altamente condenável, conforme qualquer estudante está careca de saber: a repetição, em menos três linhas, de uma mesma palavra (neste caso, ‘hoje’). E abaixo do título Menor do que nas edições anteriores, Festival de Antonina está com inscrições abertas, erros de padronização (‘sete de julho’), concordância (‘O edição’) e de uso de pronome demostrativo (‘desse ano’ em referência ao presente).
Obviamente há uma montoeira de outros equívocos que não perderei tempo listando aqui, uma vez que a mensagem já foi transmitida. Alguém vai dizer que são apenas detalhes, que a coluna está exagerando. Não está.
Analogias entre coisas distintas podem abrir leque para qualquer tipo de afirmação, como bem se viu nos últimos dias, aliás. Mas vou lançar mão desse artifício para tornar mais compreensível.
A língua é o instrumento de trabalho do jornalismo, tal qual a agulha é o da costureira e, sei lá, a pistola, o do policial militar. Um erro, mesmo que seja proveniente da digitação, compromete a imagem de um veículo. O próprio conteúdo de um jornal com deficiências de ortografia, gramática ou padronização parece menos confiável para o leitor, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra. Isso, claro, quando a falha não altera por si mesmo o sentido do que se pretende ser dito.
Lembro mais uma vez que o Comunicação On-line não propõe um jornalismo em tempo real. Supõe-se, assim, que há condições e tempo suficientes para uma redação bem trabalhada, uma revisão do próprio redator, além, óbvio, da edição. O trabalho é todo feito por gente que estudou pelo menos 11 anos de língua portuguesa e passou por um vestibular que avalia conhecimento da disciplina teórica e praticamente. Dessa forma, não é ainda mais inadmissível a existência de erros nos textos publicados por este jornal?