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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Especial - FTC 2007
Especial - FTC 2007 | Publicada em 01/04/07 às 20h42

Uma “modesta” proposta

Vender a carne de bebês pobres para a alimentação de burgueses é a proposta feita em apresentação polêmica
Reportagem Amanda Audi
Edição Fernanda Trisotto

As palavras que melhor definem a peça Modesta proposta para evitar que as crianças de Curitiba se tornem um fardo para seus pais ou para sua cidade são crueza e ironia. O ator Adriano Petermann explicou na breve entrevista antes da peça que toda a temática do monólogo é baseada num manifesto escrito em 1729, por Jonathan Swift, autor de Viagens de Gulliver. A economia ia mal e a pobreza se alastrava em Dublin, capital da Irlanda, transformando-se assim num círculo vicioso e Swift propôs que as crianças de rua fossem abatidas e a carne vendida em açougues para a alimentação dos burgueses.

Não é de se admirar, portanto, as proporções que tomaram os boatos em torno da peça. Relatos de que a peça seria cruel e polêmica espalharam-se pela cidade. No entanto, toda a encenação nada mais é do que uma transcrição literal dos escritos de Swift, somente adaptados aos dados e estatísticas de Curitiba. O diferencial fica por conta do local da encenação: a cozinha do Hotel Centro Europeu, e pelo fato de que, enquanto expõe a sua proposta, o ator prepara no fogo um grande e apetitoso pedaço de carne.

Os espectadores – poucos, devido ao tamanho do local – acomodaram-se em cadeiras postas de frente a uma mesa cheia de panelas e um fogão, ao som de Smells like teen spirit, na voz da Cássia Eller. Logo em seguida, Petermann entra em cena e literalmente se desnuda na frente de todos, provocando as primeiras reações de choque da platéia. Deste modo, ele está se despindo de quem ele realmente é e encarnando uma personagem: um mendigo. Ele veste-se então com roupas esfarrapadas, se suja, e exibe ao público um porta-retratos com uma foto antiga de mulher, que representaria sua mãe.

Morte às criancinhas

Acima das cadeiras da platéia, uma televisão mostrava com detalhes tudo o que era feito no fogão. Ele acende o fogo e o discurso se inicia. “É incômodo ver mendigos do sexo feminino trazendo consigo três ou quatro crianças esfarrapadas, que as impedem de trabalhar para somente tomar conta delas”, afirma. E prossegue, procurando justificar com todos os argumentos possíveis a sua idéia. Ele expõe dados alarmantes, como o número de “bocas famintas inúteis” que nascem a cada ano na cidade: 120 mil. Explica, também, como a economia e a cidade se prejudicam com tal fato: “a partir de um ano de idade, as crianças se tornam um fardo para seus pais e a cidade, pois deixam de se alimentar apenas com o aleitamento materno, e passam a figurar como mais uma das despesas do Estado. Essas crianças provavelmente não terão estudo, enveredarão para o caminho do crime ou passarão a se sustentar unicamente com o ofício de mendigar”.

Sobre sua “modesta” proposta, ele afirma: “o que proponho seria útil para a sociedade como um todo, visto que a venda da carne de bebê movimentaria dinheiro, seria útil para as mães pobres – que receberiam dinheiro por cada criança - e também ajudaria na alimentação da população, por ser uma carne nutritiva e deliciosa. Também poderíamos fabricar luvas e botas do couro das crianças”.

Cruel, sim. Contudo, o objetivo principal de Swift era mostrar a situação de miséria crescente em seu país, que muito se assemelha às condições atuais do Brasil. No contexto do capitalismo selvagem em que vivemos, ele alega que matar as crianças seria melhor que largá-las à mingua, completamente marginalizadas, como acontece desde aquela época. Por meio deste manifesto (que, em suma, é absolutamente irônico), o irlandês procurava explicitar o absurdo da lógica do dia-a-dia, pois o modelo de exclusão capitalista nada mais é do que uma forma velada de privilegiar poucos e aniquilar muitos. A releitura deste manifesto, adaptada à Curitiba de 2007, foi feita pelo diretor Fábio Salvatti, que estudou também o Manifesto Comunista de Karl Marx para a preparação.

Críticas ao governo

Durante a encenação, Petermann pica cebolas, tempera e corta a carne em pedaços, toma vinho e vai preparando o seu banquete. Por meio da TV, a platéia pode acompanhar cada um de seus passos culinários. Com uma risada mordaz, ele assovia canções de ninar enquanto bate a carne. Diz que um recém nascido pesa por volta de três quilos, ao mesmo tempo em que analisa o peso dos pedaços. Esporadicamente, músicas como Eu sou favela e Haiti preenchem o espaço vazio da cozinha. No auge da apresentação, o ator lê o depoimento de uma mãe que já se desfez de inúmeras crianças. Na carta, a mulher conta que não tem condições de criar uma criança, e que ela faz “mais que o governo: faço e dou destino”.

Por fim, uma pequena crítica aos projetos sociais como o Fome Zero e o imposto para a pobreza, entre outros, que apenas bancariam esta classe sem oferecer as mínimas condições para que o quadro se reverta. O ator desafia a todos a pensarem em outra solução tão barata ou eficaz quanto o extermínio dos mais pobres e garante: “não tenho filhos e minha mulher já passou da idade de procriação, portanto não tenho nenhum interesse de desfrutar dos lucros da venda de uma criança”. Neste momento, o Petermann senta-se e, calmamente, saboreia a carne; para depois oferecê-la a todos os presentes, que, não intimidados com toda a suposição de que aquele seria um baby beef, servem-se dela e do vinho, quebrando o clima de seriedade que havia se instalado no local. “Vamos cair de cabeça nesse negócio de venda de carne de bebê!”, brincou um dos espectadores. O recado foi entendido: não existe uma solução simples e rápida para o problema da miséria, a menos que sejamos friamente radicais.

Última apresentação

A peça Modesta proposta para evitar que as crianças de Curitiba se tornem um fardo para seus pais ou para sua cidade faz sua última apresentação hoje, na cozinha do Hotel Centro Europeu, na Praça General Osório. O espetáculo, que tem 40 minutos de duração, começa à meia-noite e os ingressos custam R$10.



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