
Camisetinhas brancas passadas, curtas calças azuis engomadas, lancheira recheada com guloseimas e muito líquido para enfrentar o calor. A preparação para o dia de excursão da escola começa muito antes do ônibus sair rumo ao Largo da Ordem. No caminho, os últimos avisos da professora sobre como se comportar num espetáculo teatral – fazer silêncio e aplaudir ao final da peça.
Escolas particulares, estaduais e municipais visitaram os espetáculos infantis da Mostra de todas as idades com seus alunos do Ensino Fundamental. Divididas por faixa etária, as crianças assistiram a histórias variadas sobre noções de cidadania, preservação das águas e respeito aos animais, além das tradicionais adaptações de contos de fada e fábulas antigas. E não foi difícil notar o encantamento dos pequenos pela arte do teatro.
Sentado bem à frente da platéia e acompanhado dos pais, Matheus Apoloni, de sete anos, assistia ao infantil Mágico de Oz como quem quer fazer parte da história: apontava o cenário e “alertava” os personagens dos perigos que estavam por vir. “Ele sempre fica animado quando comentamos sobre uma peça infantil que ainda não tenha visto”, conta a mãe, Ivana. Pouco tímido, Matheus responde por que gosta de teatro: “Dá pra passar a mão nos bichinhos depois da historinha” – diz, referindo-se aos minutos subseqüentes de Mágico de Oz, quando os atores, ainda fantasiados, deixam-se envolver pelo público no saguão de entrada do Teatro Fernanda Montenegro.
Magia, arte e educação
Nesses 11 dias de Festival, as montagens com temática infantil despertaram a curiosidade das crianças e ajudaram a reviver um conceito bastante defendido pelos pedagogos: a importância da arte na educação. No espetáculo Se essa rua fosse minha – espetáculo de brincar, Teresinha de Jesus, Pai Francisco e Alecrim Dourado eram personagens “brincantes”que brincaram com a platéia de jogos colhidos do folclore brasileiro. Ganhadora do Gralha Azul de Melhor Espetáculo Infantil, Tuíke propôs uma viagem fantástica ao imaginário para contar a vida de um marinheiro e seu neto. Para isso, abusou de truques com a dança, música e vozes.
Quem trouxe uma adaptação de filmes do cineasta Charles Chaplin foi Um mundo debaixo do meu chapéu, que narra a história de Carlitos, figura central. Conscientizar sobre a polêmica questão da água ganhou ares divertidos em O menino e a água, sensível fábula ecológica em que o gartoinho Inácio, acompanhado do cão Dourado, buscava soluções para o clima árido e a poluição que destruíam o roçado da mãe.
Através da Mostra de todas as idades foi possível também participar de palestras e debates acerca do assunto. Segundo a pedagoga Fátima Regina, assistir a uma peça teatral desenvolve expressivamente a sociabilidade da criança, além de despertar seu senso de cooperativismo, ao mostrar, por exemplo, o grupo teatral compartilhando tarefas para tornar o espetáculo possível. “É também relevante o desenvolvimento da imaginação, da atenção e do pensamento cognitivo. O atraente do teatro, para o espectador infantil, é a interação possível. E seus benefícios são infinitos”, completa Regina.
Contos de fada no divã
Mais uma vez, foram os espetáculos adaptados a partir de contos de fada os mais procurados pelas crianças. Nessa edição do FTC, foi possível conferir as histórias aclamadas de Chapeuzinho Vermelho, O Flautista Peregrino, Peter Pan e O Mágico de Oz. Por mais antigas e conhecidas que essas aventuras sejam, o poder de atração que elas exercem sobre o público infantil continua vivo e vem sendo estudado por psicólogos e terapeutas.
No livro A Psicanálise dos Contos de Fada (Paz e Terra, 366 págs, R$ 34,60), o terapeuta infantil austríaco Bruno Bettelheim explica que os contos de fada são, para as crianças, o que há de mais acessível. “Algo que lhes fala, em linguagem própria, do que é mais real dentro delas”, escreve. A atração infantil pelas histórias de fada surge, segundo o autor, por meio de contribuições emocionais: “Os contos permitem quatro tarefas: fantasia, escape, recuperação e consolo. São um amigo secreto e confiável”, assinala.
O terapeuta apropria-se de uma citação de Charles Dickens para explicar ao universo adulto o caráter da fascinação infantil por esse tipo de história. “Chapeuzinho Vermelho foi meu primeiro amor. Senti que se eu pudesse ter casado com Chapeuzinho Vermelho teria conhecido a perfeita bem-aventurança” – revelou Dickens. Bettelheim narra que o escritor entendia as imagens dos contos de fada como as melhores soluções para a tarefa mais difícil e, contudo, mais importante e satisfatória durante a infância: conseguir uma consciência mais madura para civilizar as pressões caóticas do inconsciente.