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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Especial - FTC 2007
Especial - FTC 2007 | Publicada em 02/04/07 às 15h35

Quando os bonecos se tornam mais que gente

Contando causos do acaso, o teatro de bonecos é uma tradição que mantém o brilho e o vigor até hoje
Reportagem Amanda Audi
Edição Fernanda Trisotto

O teatro de bonecos ou mamulengos é o espetáculo infantil que mais atrai pessoas de todas as idades. Seja pela sua leveza, pela sensação de retorno à infância, ou pelo divertimento, o que é certo é que esse tipo de arte mexe com a imaginação e o encantamento do público. A peça A Peleja do Vaqueiro Benedito contra o Capitão João Redondo e a Cobra Madalena, da Cia. Roupa de Ensaio, que esteve em cartaz no Espaço Cultural Falec, é a mais pura representação da magia de um espetáculo em que não se consegue diferenciar um ator-boneco de um boneco-ator.

Cobras e coronéis invadem Curitiba

A história é simples: o vaqueiro Benedito é honesto e possui um boi que é invejado pelo Capitão João Redondo, uma espécie de coronel dono de todas as terras, inclusive as de Curitiba. João Redondo, que diz ser amigo de Beto Richa, prefeito da cidade, tem influência na polícia e capangas que fazem todas as suas vontades. Entretanto, Benedito e seu boizinho são espertos e se safam de todas as brigas. João Redondo, irritado, convoca seu “bichinho de estimação”, a gigante cobra Madalena, e a enfeitiça para que ela abocanhe o primeiro “cabra safado” que aparecer em sua frente. Tudo isso, numa encenação dividida entre bonecos e atores, que se revezam para brincar a história.

O diferencial fica por conta de como a história é contada. Permeada por cantigas folclóricas, danças e brincadeiras, toda a encenação parece uma festa multicolorida. A interação com o público é constante, como se este fizesse parte do quadro de elenco, e isto faz com que todos fiquem mais à vontade, e mergulhem de cabeça no mundo de fitas, pandeiros e risadas que estava sendo apresentado.

Mesa redonda

A Cia. Roupa de Ensaio é de Brasília e procurou adaptar ao máximo o espetáculo às características da cidade de Curitiba. Por exemplo, a Cobra Madalena seria maior que o Parque Tanguá e que a Rua Mateus Leme. No final da apresentação, o grupo de atores inovou ao promover um pequeno debate sobre teatro de bonecos. Toda a platéia pôde fazer perguntas, que eram respondidas prontamente por toda a trupe. Os bonecos foram passados de mão em mão, e o pequeno palco onde os atores se escondiam para manipular os bonecos foi aberto, com a finalidade de apresentar aos espectadores todos os segredos de uma montagem desse tipo.

A atriz Lilia Diniz conta que brincar de mamulengo tornou-se um patrimônio da humanidade. “Esse tipo de atividade ajuda a perpetuar a riqueza da cultura popular”, fala. Juntamente com os atores Miguel Mariano e Jirlene Pascoal, Lilia traça um panorama do teatro de bonecos no Brasil. “Foram os jesuítas que trouxeram essa prática ao país, para evangelizar os índios de uma forma mais didática. Depois, o povo foi incorporando esse costume, e temperando com características próprias, principalmente as da região Nordeste, que foi onde essa arte se desenvolveu mais, até se tornar uma tradição. O regionalismo e o coronelismo estão sempre muito presentes nas histórias”, relata.

Eles contam ainda que modificaram um pouco o texto original da história de Benedito, para que ela se adaptasse à nova realidade social. “As brincadeiras de mamulengo são uma manifestação muito espontânea, portanto é comum que elas tratem de violência, preconceito, e outros conceitos que estão muito presentes no cotidiano das comunidades nordestinas. Por exemplo, no texto original, havia até pancadaria entre os bonecos”, conta Mariano. Esse trabalho de contextualização das obras é feito com muito cuidado, para que não se perca a essência da história, mantendo assim o lúdico do teatro vivo.



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