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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 24/07/09 às 11h52

De mala nas costas, mochileiros saem em busca de aventuras

Com vários destinos para conhecer, as viagens dos mochileiros rendem boas experiências e histórias para contar
Reportagem Camila Scarpi
Edição Rodrigo Batista
ARQUIVO PESSOAL
A mochila pode ser grande...
A mochila pode ser grande...
ARQUIVO PESSOAL
ou pequena. O objetivo dos mochileiros é o mesmo: conhecer lugares que façam a viagem valer a pena
ou pequena. O objetivo dos mochileiros é o mesmo: conhecer lugares que façam a viagem valer a pena

Marco Aurélio Durigan Nakai, 27 anos, assessor jurídico e chefe de cozinha, planejou para as férias de julho uma viagem de cerca de 40 dias pela América do Sul. Já Maurício Prates, lojista de 32 anos, optou pela serra gaucha. A exemplo deles, milhares de pessoas compartilham da paixão pela aventuras e a descoberta por novos lugares e culturas, tudo com a mochila nas costas. Ao contrário das viagens convencionais, o mochilão permite a descoberta do modo de vida de cada região. “No mochilão você tem a liberdade de fazer o que quiser. Você é dono do seu tempo e do seu destino”, afirma Nakai.

Ambos os mochileiros descobriram sua paixão desde pequenos. “Quando tinha uns 12 anos e fui à praia com meus irmãos e lá vi pessoas que chegavam de mochila nas costas de vários lugares”, conta Prates. Já Nakai admite que quando criança se encantou com uma placa em que estava escrito Machu Picchu - destino turístico do Peru. Mais adulto procurou informações para viajar até o local. “Conheci pessoas que colocavam um mochilão nas costas e seguiam o destino. Fiquei encantado com a possibilidade”, revela. Com vários visitados, para ele as preferências dos mochileiros são os lugares de admiração pessoal ou que tenham algum desafio interessante. O objetivo dele é conhecer o país e a América do Sul para depois partir para países mais distantes.

Já Vitor Augusto, 29 anos, assessor técnico no movimento escoteiro, já conheceu diversos outros países, como Itália, França e Inglaterra. Apesar de não ter planejado viagem para as férias de julho, já se organiza para ir ao México em dezembro. Ele teve sua primeira experiência como mochileiro em 2003 com um amigo. “Inicialmente pensamos em ir até o Rio Grande do Sul de carona. No final das contas, acabamos indo até Santiago, no Chile, sem muita grana no bolso”, conta. Em um sentido todos concordam: entre mochilar e viajar convencionalmente, a primeira opção é certa, sem sombra de dúvidas. “O roteiro não está definido, é você quem decide sobre ele”, completa Nakai.

Investimentos

Além da aproximação com a cultura local, todos aqueles que procuram a alternativa de mochilar buscam diminuir ao máximo os custos do passeio. “Normalmente, o processo de pesquisa começa através da internet e de guias de viagem, até se chegar a uma idéia de roteiro. Mas isso parte sempre do pré-suposto de viajar gastando pouco”, comenta Vitor.

Nesse ponto existem os mochileiros extremos, que, segundo Vítor, fazem viagens "espartanas", gastam muito pouco e até se arriscam a dormir em praças e estações rodoviárias. Maurício Prates tem seu próprio calculo de gastos que faz antes das suas viagens. “O orçamento é feito com um estudo de pernoite, alimentação e transporte. Faz-se um calculo e se acrescenta 10%, mas sempre extrapolo. Por isso sempre gasto mais que o planejado”, comenta Prates.

Na internet, alguns sites e comunidades ensinam os mochileiros novatos maneiras de calcular as despesas e como se prevenir de contratempos. Um exemplo é o www.mochileiros.com, onde se podem encontrar as diversas informações para aqueles que querem realizar alguma viagem. Nakai também planeja suas viagens previamente para evitar imprevistos, tanto nas despesas como no roteiro, mesmo que haja alterações durante as viagens. “Dentro desses planejamentos fica mais fácil aproveitar o tempo e ter métodos de economizar na viagem”, garante Nakai.

Mas, apesar da realização pessoal de cada mochileiro, muitas são as dificuldades que eles encontram. Alimentação, transporte e hospedagem são as que se destacam. “Comer às vezes pode ser um problema. Existem locais onde os hábitos de higiene são duvidosos, mas o que vale mesmo é experimentar”, comenta Vitor. Mas talvez o principal seja o transporte. “Ter que esperar dias para viajar, ou lugares em que só se chega de barco, cavalo, jipe ou andando, às vezes podem atrasar um pouco”, diz Nakai. Contudo, é preciso manter a descontração para não estragar a viagem. “Tudo as “dificuldades” eu prefiro transformar em algo positivo e extrair somente as coisas boas”, completa.

Histórias para a vida

As diversas experiências adquiridas nas viagens servem para guardar como histórias que se contará ao longo da vida. Para Nakai a experiência mais marcante foi sua ida ao Machu Picchu, realizando assim seu sonho de infância.

“No quarto dia da trilha inca começa a caminhada às 4 da madrugada. Caminhamos até a Porta do Sol, que é a ”entrada“ para Machu Picchu. Ficamos nesse lugar até o sol nascer. O sol nasce, bate na Porta do Sol e ilumina Machu Picchu. Depois de anos de espera, ter passado vários dias para chegar até aquele lugar, e ter o sentimento de estar realizando um sonho de infância, é a coisa mais maravilhosa do mundo. Quando o sol começa a iluminar aquela cidadela inca falta ar, as lágrimas são inevitáveis, o sentimento é indescritível. Ali, me sentia o homem mais feliz do mundo“.

Para Maurício Prates sua história mais marcante foi algo tão assustador como inexplicável.

“Quando conto muitos não acreditam. Num verão de 1993 quando acampávamos na serra do mar do Paraná vínhamos caminhando pela trilha quando começamos a ouvir umas rezas em línguas estranhas e uns gemidos. O pior é que estávamos longe de qualquer sinal de gente, a pelo menos 30 Km da cidade mais próxima. Olhamos por todos os lados procuramos e nada. Continuamos a andar e então uma luz bem verde passou por nós. Na hora fiquei petrificado de medo; uns correrão; foi um caos”.

Já a experiência de Vitor Augusto foi embaraçosa e hoje é uma história que gosta de contar aos amigos. Ele mantém um blog para registrar suas aventuras - http://ww.victortrotamundo.wordpress.com

“Não existe horário de saída do ônibus na Bolívia. Ele sai somente quando está lotado (e por lotado entenda literalmente cheio, com pessoas deitadas no corredor inclusive). A viagem foi infernal, num calor e mau cheiro insuportável, com as janelas lacradas e sem ar condicionado. Sufocante! Era um trecho que duraria 12 horas, mas que parava constantemente (tipo pinga-pinga). Em cada parada entravam pessoas vendendo de tudo, desde travesseiros até refrigerantes e frutas locais. Em uma dessas paradas entrou uma vendedora com uma cesta oferecendo "Pollo y Papas Fritas" (frango com batatas fritas). Vários passageiros manifestaram o interesse por tal iguaria. Então estendiam a mão, a senhora pegava (com a mão mesmo) um punhado de batata frita e ‘rasgava’ um pedaço do frango. Com a mesma mão ele pegava o dinheiro e dava o troco pra galera. Mesmo com muita fome resolvi não arriscar, mas meu companheiro de viagem (afoito e faminto) pediu uma "porção”. Ele pareceu satisfeito e ainda me criticou, me chamando de fresco por não comer, pois estava muito gostoso, segundo ele. Alguns minutos se passaram e comecei a escutar alguns latidos. Pensei comigo mesmo: ‘só me faltava ter uma porcaria de cachorro neste ônibus’. Procurei por debaixo dos bancos e pelo corredor o animal e fiquei surpreso quando vi o cão sair de dentro da cesta onde estavam o frango e as batatas fritas. Quase vomitei! Meu amigo se engasgou! Mas o resto do povo continuou comendo como se nada tivesse acontecido. Enfim, hábitos locais…”



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