As histórias em quadrinhos (HQs) nas salas de aula brasileiras são incentivadas cada vez mais. Exemplo disso é a utilização do gênero nas provas de vestibulares e a inclusão de HQs entre os livros distribuídos pelo governo federal às escolas. Mas, será que histórias em quadrinhos combinam com ensino? O jornalista e professor paulista Paulo Ramos não só acredita que sim como tenta estimular o uso em sala de aula. Apaixonado por HQs, jornalismo e educação, resolveu unir, profissionalmente, suas paixões: escreve há 3 anos o Blog dos Quadrinhos – o que lhe rendeu, em 2008, o Troféu HQMix (o principal prêmio nacional da área de quadrinhos) na categoria 'Mídia sobre quadrinhos' e 'Articulista de quadrinhos'.
Além disso, dá aulas de “Histórias em Quadrinhos: Linguagem, Gêneros e Ensino”, dentro do curso de Letras da Unifesp. Também escritor, esteve recentemente em Curitiba para lançar sua mais nova obra: “A Leitura dos Quadrinhos” (Editora Contexto), onde explica detalhadamente cada elemento da nona arte. Com um sem-número de pesquisas em andamento, até o fim do ano Ramos pretende colocar mais dois títulos no mercado, um deles analisando diversos autores de HQs. Acompanhe a entrevista que um dos maiores pesquisadores da área concedeu ao Comunicação.
Comunicação: Como surgiu a ideia do Blog dos Quadrinhos?
Paulo Ramos: Foi em 2006. Eu era consultor de língua portuguesa do grupo Folha-UOL. O meu trabalho era ler matérias, revisar e dar sugestões de como o autor da matéria poderia melhorá-la. Percebi que eram raros os assuntos que tratavam de histórias em quadrinhos. Falei sobre isso com o pessoal do portal, como resposta recebi um pedido de sugestão. Foi então que surgiu a ideia de fazer um blog sobre quadrinhos. Propus um veículo que falasse diariamente sobre o assunto tanto para quem não está acostumado a ler quadrinhos como também para quem gosta e entende muito do assunto.
Comunicação: Como você faz para selecionar o material que entra no Blog?
Ramos: Uso diferentes critérios: ineditismo do tema, urgência da informação, qualidade da notícia, importância do assunto. Tento também sempre me colocar na posição do leitor. Eu, como leitor, gostaria de ler essa informação? Como se vê, não é nada muito diferente do que fazem as redações de jornalismo. Mas um cuidado que sempre tomo é o de tornar o assunto claro para quem normalmente não lê quadrinhos.
Comunicação: Há pouco tempo o governo federal começou a incluir álbuns de histórias em quadrinhos na lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que distribui livros gratuitamente para escolas dos ensinos médio e fundamental. Qual a sua opinião sobre isso?
Ramos: De 2006 para cá começou a ter quadrinhos nesta lista. Atualmente a compra tem se direcionado cada vez mais para adquirir exemplares de literatura em quadrinhos, que é um gênero que surgiu no Brasil em 2007. Por causa dessa lista do governo as editoras ’acordaram’ e viram que era bom negócio ter obras literárias adaptadas para quadrinhos. Enxergar as adaptações como negócio não significa que o produto seja de má qualidade. Ao contrário: os trabalhos vêm se aprimorando a cada novo álbum. Do lado pedagógico, sugere que o aluno não tem capacidade ou não tem maturidade para ler as obras originais, ou que é preciso facilitar obras literárias para esse aluno. E eu não sei se o caminho é por aí. Segunda coisa dessa lista é que trata os quadrinhos como forma de acesso à leitura. Se os quadrinhos são uma forma de acesso à leitura, há um pressuposto: os quadrinhos são leitura. Quantas pessoas se iniciaram na leitura com gibis da Turma da Mônica, quantas pessoas hoje leem bem e tiveram como primeira leitura os mangás? Quem lê mais livros literários, uma criança que lê histórias em quadrinhos ou a que não as lê? Então são essas questões que eu acho que precisam ser avaliadas e essa necessidade ainda não está clara para o governo.
Comunicação: Você tem um livro chamado 'Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula', voltado para professores utilizarem quadrinhos em salas de aula. Mas, como é a relação entre quadrinhos e universidades?
Ramos: Aumentou pesquisas universitárias na área, mas acho que falta transformar essas pesquisas em livros. Como também acho que falta o assunto nas universidades. Há cadeiras especializadas em dança, cinema… Mas não há muita coisa sobre quadrinhos. Incluir o tema quadrinhos na grade curricular universitária - tanto na graduação quanto na pós - é essencial para entender melhor a linguagem e fomentar pesquisas a respeito do tema.
Comunicação: Você conhece a produção de quadrinhos de Curitiba? O que acha?
Ramos: Conheço e gosto muito do José Aguiar, autor de títulos como 'Folhateen' e 'Quadrinhofilia'. Os quadrinhos dele são referência nacional, premiados, inclusive.
Comunicação: Há algum tempo corre na internet diversas tirinhas adulteradas. Quase todas com palavrões e frases de baixo calão. Qual a sua visão sobre isso? Por que essas tirinhas adulteradas são tão reproduzidas?
Ramos: Há um público na internet que gosta de fazer, que consome, que gosta disso. Isso não dá para controlar. Mas, temos um grande problema a partir do momento que uma tirinha adulterada vaza num material do governo que vai para professores. Ou houve uma falha de revisão ou ninguém checou realmente o material antes de distribuir aos educadores.
Comunicação: O que você diria para quem produz histórias em quadrinhos e está começando ou ainda não conseguiu publicá-las?
Ramos: Vá fazendo, tenha contato com outras pessoas que fazem, aprimore, troque ideias. Uma hora dá certo.