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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Política | Publicada em 06/04/07 às 21h22

Redução salarial de Beto Richa gera controvérsias

Prefeito de Curitiba decide ganhar menos após polêmica da divulgação dos salários
Reportagem Suelen Trevizan
Edição Aline Castro

Num contexto em que falar sobre o salário dos políticos está em alta, é possível lembrar uma série de casos. A intenção dos deputados, em dezembro de 2006, de aumentar seus vencimentos em 91% pôs o tema na boca da opinião pública. Isso foi só o começo. Mais recentemente, em março deste ano, o presidente Lula chamou seus ministros de “heróis” por receberem R$ 8 mil por mês. Uma semana depois, a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara aprovou um reajuste de 26,49% para os salários de presidente da República, vice-presidente, ministros e parlamentares. Houve também, em outro sentido, a decisão do prefeito Beto Richa de reduzir o próprio salário em 20%.

Esse último episódio destoa dos demais, afinal, quem gostaria de ganhar menos no fim do mês? O prefeito alega que o propósito de sua iniciativa é ajustar seus subsídios – que foram apontados pelo site G1 como os maiores entre os prefeitos de capitais – à média do que os outros recebem. “Não considero o salário alto demais. Pode ser visto como alto em face da realidade brasileira”, diz Richa. Ele conta que foram feitas interpretações inadequadas. “Compararam o salário de prefeito ao do presidente da República, esquecendo que o presidente tem uma série de subsídios adicionais, cartão sem limites. Não havia termo de comparação”, exemplifica.

As divergências, no entanto, não terminaram aí. O projeto de lei que determinaria o desconto de 20% no salário do prefeito foi engavetado logo após sua elaboração. A assessoria jurídica da Câmara justificou que se tratava de uma manobra inconstitucional. Mas, o chefe da Casa Civil, Rafael Iatauro, aumentou as controvérsias ao afirmar que, segundo a emenda 19/98 da Carta de 1988, a alteração nos vencimentos do prefeito poderia sim ser realizada desde que partisse da Câmara Municipal.

O professor de Direito Constitucional da UFPR, Egon Bockmann Moreira, esclarece que a Constituição Federal prevê que o subsídio e o vencimento dos ocupantes de cargos e empregos públicos são irredutíveis. “O subsídio do prefeito não é algo que seja ‘propriedade’ da pessoa física que ocupa o cargo público. É algo objetivo, que configura o pagamento pelo exercício do cargo de prefeito – independentemente de quem o ocupa”, explica. “Logo, não está na esfera de disponibilidade do prefeito tanto o aumentar quanto o diminuir”, conclui Moreira.

“Independe de divergências jurídicas, o fato é que devolverei aos cofres públicos os 20% do salário que foram reduzidos por minha determinação”, conta Richa. Isso ocorrerá por meio de uma autorização enviada à gerência do Banco Itaú para doar esse percentual de seu salário aos cofres públicos. O desconto se inicia neste mês. Do atual vencimento, aproximadamente R$ 19.115, Richa deve devolver cerca de R$ 3.820 ao município.

A vereadora do PT professora Josete da Silva aponta outra controvérsia no caso. “Apesar de ter dito que enviaria um projeto de lei, o prefeito não o fez. Isso porque um projeto sobre os subsídios do prefeito só pode ser proposto pela Mesa Diretora da Câmara de Vereadores”, ela conta. Assim, foi o presidente da Câmara quem elaborou tal projeto a pedido de Richa.

A vereadora descreve que esse deveria ser um projeto de Resolução Legislativa – que não deve passar por um processo de sanção ou veto do prefeito e tem validade tão logo é aprovado pela Câmara –, mas que foi elaborado um projeto de Lei Ordinária, ou seja, estaria sujeito ao veto do prefeito. “Essa quantidade de erros no encaminhamento de projeto não é um costume da prefeitura. Sua assessoria jurídica e legislativa costuma ser muito competente”, estranha a professora. “A impressão que a gente teve é que foi um jogo de cartas marcadas. Os mesmos vereadores que assinaram o projeto votaram pelo seu arquivamento”, ela constata.

No fim, a atitude de Beto Richa não atingiu concretamente a esfera política. “O salário do prefeito representa o teto dos vencimentos dos servidores municipais”, explica Moreira. Mas, se não houve a redução aprovada na Câmara, nada muda nos salários dos demais. Enquanto isso, o prefeito colhe os bons frutos: a opinião pública tem se mostrado favorável. “Recebi muitos apoios, de cidadãos que me encontraram na rua, durante a inauguração de obras municipais, a lideranças políticas”, diz Richa. Apesar de tudo, ele alega não ter a intenção de tirar benefícios desse episódio quando se trata das eleições de 2008.



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