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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 23/09/09 às 23h55

As vantagens e os perigos de trocar o dia pela noite

Inversão de horários pode prejudicar a saúde de quem cultiva este hábito
Reportagem Elisa Barbieri
Edição Luciane Belin
Elisa Barbieri
Melhora do rendimento profissional é um dos motivos de quem prefere inverter períodos
Melhora do rendimento profissional é um dos motivos de quem prefere inverter períodos

A estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Gabriela Guerra sempre se prepara para dormir enquanto amanhece. Ela acorda ao meio-dia, trabalha à tarde e reserva a madrugada para resolver tudo que não teve tempo durante o dia. Parece uma rotina estranha para quem tem hábitos diurnos, mas ainda assim, muitas pessoas optam pela inversão de horários para dar conta de todos os seus afazeres.

Para Gabriela, que trabalha online, fazer as coisas enquanto todos dormem tem suas vantagens. “Meu pai não entra no quarto a cada cinco minutos, o mundo é um silêncio e a internet fica mais rápida”, justifica. O designer Diego Cagnato concorda. “Prefiro a madrugada porque não tem telefone tocando, carros fazendo barulho na rua, vizinhos acordados e pessoas chamando pelo interfone”. Ambos dizem que, mesmo quando sobra um tempo durante o dia, preferem a noite para trabalhar e estudar.

A família do designer já desistiu de lutar contra esse comportamento dele. Já a estudante pernambucana ainda ouve muita reclamação do pai. “Ele costuma não gostar, mas quando as coisas começam a aparecer por conta do que faço online, ele fica super orgulhoso”, conta Gabriela, que além do trabalho que realiza à tarde, é home officer – ou seja, que trabalha em casa – e passa quatorze horas por dia na frente do computador.

Os primeiros problemas

Não há nenhuma comprovação científica de que trocar o dia pela noite gera doenças ou prejudica diretamente a saúde. Entretanto, como o corpo humano está adaptado a dormir quando anoitece, alguns problemas logo começam a aparecer para quem tem este costume. A universitária pernambucana reclama das olheiras e da falta de tempo para praticar uma atividade física. Já Diego sente que seu sistema imunológico está mais fraco. Para a médica Alaídes Fojo Olmos, pessoas mais jovens têm uma capacidade maior de suportar esta situação, mas os prejuízos para o organismo existem, mesmo quando não são percebidos imediatamente. “Nosso corpo está sincronizado com a luz do sol”, explica.

A pesquisadora da área do sono, Lucia Rotenberg, esclarece que o organismo realiza um ritual de preparação para o repouso, por isso pode ser ruim não dormir nas horas certas. “Nosso corpo fica várias horas sem urinar, o coração tem um menor ritmo de batimentos cardíacos, a produção de alguns hormônios é liberada e de outros, inibida”. Além de interromper as funções orgânicas, adormecer em horários alternativos faz com que o sono não seja tão profundo. “Quando se dorme pouco e em momentos inadequados, dificilmente se atinge os estágios mais recuperadores. Essa privação de descanso mexe com o corpo inteiro e provoca desde o cansaço até a mudança de humor e a queda da qualidade de vida”, ressalta a especialista.

Para o taxista Antonio Santana, inverter os períodos não é uma opção, mas uma necessidade. Ele trabalha há vinte anos durante a noite, por ser este o único horário de escala que conseguiu na empresa em que é filiado. Já teve problemas de saúde como consequência de seu estilo de vida e assume não se cuidar como deveria. “Sofro de pressão alta, mas abuso. Chego em casa e vou direto dormir, nem sempre tomo os remédios direito”. Outro ponto negativo é a alimentação, Santana não tem horário certo para comer e, muitas vezes, abusa de lanches e comidas pesadas durante a madrugada.

Conheca os males que podem ser causados pela inversão de dia e noite

Estresse, pressão e sistema imunológico – O cortisol é um hormônio que responde ao estresse aumentando a pressão arterial e suprimindo o sistema nervoso. Durante a noite este sistema é inibido. Quando a pessoa não dorme adequadamente, essa inibição não ocorre, o que pode causar pressão alta, ansiedade e nervosismo.

Obesidade – A leptina é um hormônio liberado durante a noite. É ela quem dá a sensação de saciedade para que a pessoa não sinta fome enquanto dorme. Não dormir o suficiente pode causar a não inibição deste hormônio, o que eleva o risco de obesidade. Já a grelina é o hormônio oposto à leptina. É liberada durante o dia para dar a sensação de fome, mas inibido durante a noite. Da mesma forma, com a falta do sono, ele é liberado e a sensação de fome tende a ser maior.

Crescimento – O hormônio do crescimento é secretado durante a noite e não é utilizado apenas por crianças em fase de desenvolvimento. Em adultos esse hormônio regenera tecidos, regula a glicemia e mantém o rigor dos músculos.

Como dormir?

A doutora Alaídes lembra que há algumas medidas a serem tomadas para melhorar o sono de quem precisa trocar o dia pela noite. “A pessoa que trabalha em períodos diferentes deve, ao menos, manter um horário constante para dormir e se alimentar”, orienta. Ela afirma que tal estabilidade é importante porque o corpo precisa se adaptar a uma rotina para regular o seu relógio biológico.

Para dormir durante o dia, o ideal é simular o que aconteceria à noite. “Uma boa dica é ficar em um quarto absolutamente escuro, pois a escuridão produz a liberação de melatonina, um hormônio que promove o sono”, explica Alaídes. Além disso, o lugar deve ser silencioso para que o corpo consiga relaxar. Outro detalhe que perturba o respouso é a temperatura corporal, por isto, o local de descanso também deve ser fresco. “Nosso organismo fica mais frio no fim do dia para despertar a vontade de dormir”, diz a médica.

A alimentação deve ser leve nas horas que antecedem o momento de dormir. A comida que contém muitas proteínas ou gordura é de difícil digestão, por isso deve ser evitada, assim como bebidas estimulantes e alcoólicas. “Desta forma, o organismo pode adaptar-se melhor e cumprir suas funções”, conclui doutora Alaídes. Ela completa ainda que nem todo mundo que começa um regime de costume com os horários invertidos consegue manter-se firme. “Apenas dois terços das pessoas conseguem se adaptar”.



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