No mês de setembro (27), ocorreu a 12ª Parada da Diversidade LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – de Curitiba. Mais do que o brilho e as fantasias, o evento serve para mostrar a luta pelos direitos civis dos homossexuais. Para o presidente da Associação Paranaense da Parada da Diversidade – Appad, Márcio Marins, a festa que reuniu mais de 120 mil pessoas é, acima de tudo, um ato político. Apesar da falta de apoio da bancada evangélica, o movimento gay levou para a passeata muitas autoridades e lideranças políticas.
Entre elas o vereador gay Tiago Silva (PPS), idealizador da Parada da Diversidade de Florianópolis e principal responsável pela aprovação e sanção da lei municipal que criminaliza a homofobia na capital catarinense. A campanha da passeata em Santa Catarina, segundo ele, manteve o foco na apresentação do projeto de lei. “Pressionamos os vereadores na semana da Parada e o projeto foi aprovado por unanimidade”, conta, torcendo para que o mesmo ocorra em Curitiba.
O deputado federal Dr. Rosinha (PT) também esteve presente na parada e afirmou que o evento se reflete na conquista de direitos constitucionais. “A lei contra a homofobia já foi aprovada pelos deputados, agora só falta passar pelo Senado”, informa. Para ele, a união do grupo LGBT com os parlamentares conquista direitos. O deputado compara aqueles que são socialmente excluídos pela falta de emprego ou baixa renda com os marginalizados por suas características físicas ou opção sexual. Em sua opinião, o segundo grupo sofre mais, afinal a inclusão social pode até ser conseguida por meio de casamento e profissão, mas direitos civis não se conquistam automaticamente. Por isso, para Dr. Rosinha, a campanha é uma forma de dizer: “Eu existo. Nós estamos na obscuridade, mas precisamos vir à luz para conquistar nossos direitos”.
Outro líder presente foi o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Márcio Rodrigues. Para ele, os donos dos meios de comunicação são responsáveis pela construção de um posicionamento da mídia preconceituoso e desrespeitoso ao direito de cada um ter sua orientação sexual. Rodrigues acusa a mídia de utilizar um tratamento estereotipado e com termos inadequados ao grupo LGBT. “Principalmente programas de humor, que têm sua base nessa discriminação”, argumenta. O presidente aproveitou a passeata para falar da importância da Conferência Nacional de Comunicação. “É lá que poderemos discutir o espaço dessa classe na mídia”, conclui.
Apesar de ter manifestado seu apoio ao movimento, o prefeito Beto Richa (PSDB) não compareceu à passeata no domingo, pois estava viajando. Os organizadores da Parada agradeceram as palavras de Richa, mas reclamaram da falta de suporte oferecido pela Prefeitura. A falta de policiamento também foi questionada. “É lamentável que a Polícia Militar não tenha comparecido a um evento desse porte”, disse o coordenador da Appad.
Marins também reivindicou mais respeito de estabelecimentos comerciais que fecharam as portas aos manifestantes. “O shopping Müeller interditou seus banheiros, mesmo recebendo um grande lucro com a Parada, afinal milhares de pessoas compraram na praça de alimentação e pagaram o estacionamento de lá”, lamenta.
No fim do arco-íris, um pote de direitos
O movimento gay vai muito além da passeata colorida. Aliado à Appad, o Transgrupo Marcela Prado luta pelos direitos dos transexuais. Uma das conquistas políticas da organização foi também uma vitória na vida pessoal da presidente do grupo, Carla Amaral. Ela é a primeira transexual do estado do Paraná a ter reconhecido seu nome e gênero feminino sem ter mudado de sexo fisicamente.
Carla explica que as pessoas confundem ser transexual com o fato de ter realizado a cirurgia. “Transexual, a gente nasce e para poder operar precisamos de um diagnóstico e também nós mesmas nos percebermos como tal", explica. A operação ainda não foi feita, apesar de o sonho sempre a acompanhar, por questões burocráticas e financeiras. No ano passado, o movimento conseguiu que a cirurgia de mudança de sexo fosse ofertada pelo Sistema Único de Saúde.
Solidariedade não tem sexo
Além de lutar pelas próprias causas, a instituição também procura ajudar a quem precisa. Durante a Parada Gay, as travestis e transexuais do Transgrupo arrecadaram brinquedos e livros infantis para a quarta edição da campanha “Solidariedade Trans – faça uma criança feliz”. As arrecadações, feitas pelo quarto ano consecutivo, serão doadas para creches de Curitiba.
A Appad também faz mais do que organizar trios elétricos e fantasias. Ela atua durante todo o ano em projetos nas áreas de saúde, segurança e cultura. O principal foco no setor de saúde é a prevenção e o combate à Aids. A organização reconhece que os homossexuais representam o grupo de maior risco de contágio da doença e, por isso, realiza campanhas de incentivo ao uso da camisinha e à realização do teste para diagnosticar o vírus.
Para levar o trabalho adiante a associação conta com a colaboração de voluntários. Eles participam de reuniões semanais, em que planejam suas ações. A estudante Caroline Fioreno, bissexual de 18 anos, é motivada a participar do grupo, pois lá tem a oportunidade de aprender mais e conhecer seus direitos. Segundo ela, há muito preconceito em Curitiba e, no colégio, sofre bullying por causa da orientação sexual. “Chamam a gente de bicha, sapatão, viadinho”, desabafa.
Não são apenas os gays que apóiam a causa. O estudante Fernando de Lima, de 18 anos, é heterossexual. “Vim contribuir porque tenho muitos amigos homossexuais e bissexuais”. Para ele, as igrejas contribuem para a reprodução e o fortalecimento do preconceito.