Há menos de seis meses, todos se perguntavam quais seriam as consequências de uma das maiores crises econômicas e financeiras do capitalismo. O que ninguém poderia imaginar é que, passado um semestre, esses efeitos seriam benéficos, pelo menos para o Brasil. Quem faz esse prognóstico é o economista e apresentador do programa Manhattan Conection Ricardo Amorim.
Formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure dês Sciences Economiques et Commerciales, ou Escola Superior de Ciência Econômicas e Comerciais) de Paris, Amorim trabalha desde 1992 no mercado financeiro como economista e estrategista de investimentos. O Comunicação aproveitou a presença do economista na 9ª Feira de Gestão da FAE e conversou com ele sobre crise, política brasileira e governo Obama. Confira:
Jornal Comunicação: A crise econômica mundial dos últimos meses foi superestimada? Seus efeitos conseguiram ser minimizados por medidas tomadas pelos governos dos países desenvolvidos ou foram superados pelo próprio mercado financeiro?
Ricardo Amorim: A crise econômica dos países desenvolvidos é mais grave do que a maioria se deu conta. Por mais grave, quero dizer que vai demorar anos para se resolver e não meses ou trimestres. Neste sentido, deve haver ainda muita decepção. Não acredito que nos Estados Unidos deva acontecer algo parecido com isso, mas não compro as expectativas de que a economia já começa a se recuperar. Houve uma quebra de confiança. Os consumidores gastavam mais do que ganhavam e eram financiados pelo resto do mundo. Agora os bancos perderam capital e têm medo de emprestar. O resto do mundo apostava que a economia americana era sólida e com perspectiva de crescimento. Hoje não se faz mais essa aposta. Então, não há mais financiamento extra. A crise nos países desenvolvidos foi mais séria do que se imaginava.
Comunicação: O Brasil já pode se considerar 'fora da crise'? Quanto tempo irá demorar para que o ritmo de investimentos pré-crise possa ser restabelecido?
Amorim: O Brasil já saiu da crise e, mais importante, em certa medida, no nosso país a crise aqui teve um caráter muito mais psicológico do que efetivo. As empresas se assustaram com os possíveis efeitos da crise e acabaram cortando produção, o que trouxe a crise para cá. Porém, no final das contas, as pessoas continuaram consumindo, as vendas continuaram a crescer e as empresas tiveram que retomar a produção.
Comunicação: O Brasil poderá tirar alguma vantagem nos investimentos em curto prazo em relação aos países desenvolvidos, já que sofremos menos os impactos da crise?
Amorim: O crédito secou no mundo inteiro e, naquele momento, o Brasil foi afetado, mas isso já acabou. Nos países desenvolvidos, entretanto, ainda há uma falta de crédito. Se você analisar todos os países que se reuniram há algumas semanas no G-20, o Brasil foi o segundo país que teve maior desenvolvimento no segundo trimestre deste ano, atrás apenas da China. A nossa situação está bem mais confortável do que nos países 'ricos'. Os produtos destes países, que são sofisticados e caros, não têm público consumidor e o dinheiro que eles exportavam está sendo encontrado mais barato nas potências emergentes.
Comunicação: No fim das contas, a crise pode ter feito bem para o Brasil?
Amorim: A crise deu uma chancela de que hoje o Brasil é um dos países que está melhor posicionado para aproveitar essa nova ordem econômica global. E esse mundo, que é puxado por China e Índia, que são consumidores de produtos baratos, tem uma grande demanda por commodities, que são os alimentos, os metais, os minerais e o petróleo. Para nossa sorte, somos muitos produtivos nisso tudo. O que o mundo precisa, nesse momento, o Brasil faz bem. O outro lado da história é que nessa nova concepção econômica mundial, a produção e os serviços estão migrando para esses países emergentes, onde o custo é menor, a inflação é mais baixa e os juros, por consequencia, também. Assim, os países que precisam de capital para investir, como é o caso do Brasil, se beneficiam. Ao mesmo tempo, os países que têm muito dinheiro e exportam capital, como os Estados Unidos, países europeus e Japão, acabam saindo perdendo. Nós estamos numa posição em que saímos ganhando dos dois lados.
Comunicação: Esses benefícios só viriam a curto prazo?
Amorim: Não, essa é uma visão para os próximos 30 anos, enquanto ocorrer a migração do campo para a cidade na China e na Índia. Só na China, o Banco mundial estima que nos próximos 10 anos 400 milhões de pessoas irão deixar as lavouras e ir para a área urbana. Assim, as importações de alimento só irão expandir, pois a produção deles irá diminuir e o consumo vai aumentar.
Comunicação: A China tem se tornado um dos maiores parceiros comerciais do Brasil. Mas a maioria dos produtos importados pelos chineses são produtos básicos. Há chances do nosso país passar a exportar para o outro lado do mundo produtos com um maior valor agregado?
Amorim: Eu acho que sim, mas não diria 'infelizmente a gente só exporta coisas de menor valor para a China'. O eixo de consumo do mundo está saindo dos países desenvolvidos e indo para potências emergentes como China e Índia. E com o desenvolvimento desses países, se tem uma coisa que os chineses vão precisar é comida. Eles vão ter que comprar cada vez mais a nossa carne, como frango e boi, e vão precisar da nossa soja para alimentar os pastos. Com isso, os produtos básicos poderão até subir de preço, enquanto os mais sofisticados vão perder mercado e terão que se readequar monetariamente.
Comunicação: Muitos economistas afirmam que a recuperação da economia global se dará em 'W', ou seja, com uma leve retomada que não se sustenta, seguida por nova queda e só então um crescimento significativo. Você acredita nessa hipótese, tanto para os países desenvolvidos, como para os emergentes?
Amorim: Para mim, a recuperação no Brasil será em 'V' (forte aceleração após uma queda acentuada). Nos Estados Unidos e na Europa, também não acontecerá em 'W'. Isso pressupõe que a primeira retomada será mentira e a segunda, verdade; mas, para mim, a segunda também será mentira. Creio que nesses países a recuperação será em 'L' ou talvez como um 'WWW'. A recuperação sustentável dos desenvolvidos levará anos para acontecer. Eles terão que contrair o consumo – em particular os EUA – e, por conta disso, o crescimento não será sustentável. Haverá um ou dois trimestres bons e depois uma piora. É o que aconteceu com o Japão nos últimos 25 anos. Não será preciso demorar tanto, mas não é algo que se resolve em poucos meses. Na Europa, a diferença é que há menos problemas de excesso de consumo; por outro lado, lá havia uma bolha imobiliária maior do que a americana, o que torna a crise pior no curto prazo (um ano a um ano e meio). Acredito, porém, que o continente sairá antes desse marasmo do que os EUA.
Comunicação: O senhor morou muitos anos nos Estados Unidos e chegou a prever a crise mundial. Como o senhor avalia o governo Obama? Ele tem conseguido corresponder às expectativas geradas pelo mundo inteiro em cima de seu governo?
Amorim: Não, ele não tem conseguido, mas acho que ninguém conseguiria. Nem o 'Senhor', já que você falou nele, conseguiria corresponder às expectativas que o mundo tinha em cima de Obama. Todo governo quando começa é cercado de expectativa, mas esse mais do que qualquer outro. Primeiro, porque ele se seguiu do pior governo da história americana, que foi o governo Bush. Em segundo lugar, porque ele pegou a pior crise da economia americana, desde a Grande Depressão. O desafio era descomunal e impossível de ser completamente resolvido. Na parte econômica eles têm patinado, mas não acho que a crise seja culpa deles, ela era inevitável. Talvez nessa parte o governo Obama esteja deixando um pouco a desejar. Em contrapartida, ele tem feito um excelente trabalho na melhora da política externa americana. No mínimo, eles estão mais simpáticos.
Comunicação: No programa Manhattan Conection, todos os apresentadores dão o seu pitaco em praticamente todos os assuntos pautados no programa. Falando um pouco de política brasileira, como você avalia o atual cenário político nacional pré-eleições de 2010? Você acha que as eleições de 2010 serão as mais disputadas desde Collor?
Amorim: A eleição está sim muito aberta, mas acredito que irá acabar sendo polarizada entre o candidato do governo e o candidato do PSDB. Nomes como o de Ciro Gomes e Marina Silva, apesar de todo o marketing pré-eleitoral, não vão ter força para abocanhar um segundo turno. Mas, claro, que é muito cedo para ser taxativo. São estimativas, apenas.
Comunicação: O Brasil se envolveu em uma disputa diplomática delicada na questão com Honduras. Você acha que o governo brasileiro tem se exposto muito ao defender e abrigar o ex-presidente Manuel Zelaya na embaixada brasileira? Até que ponto essa defesa é relevante para os interesses nacionais?
Amorim: Essa situação é uma soma de três fatores. O primeiro deles é que os Estados Unidos hoje estão envolvidos com tantas questões que eles, que seriam o árbitro natural desse impasse na América Latina, resolveram não comprar mais uma briga. Isso criou um vácuo, que tinha que ser preenchido por alguém. Argentina, México e Venezuela, possíveis candidatos, passam por momentos internos complicados. Soma-se a isso, o fato de que o governo Lula tem ambições de se posicionar como um grande líder regional. E o último aspecto é que o governo acredita que o golpe e o presidente interino em Honduras não vão se sustentar. Então, o governo acredita que apoiar fortemente o presidente anterior, que para eles irá voltar ao poder, fará com que abra uma janela de gratidão e o Brasil possa fazer ótimos negócios quando Zelaya voltar ao governo. Vamos ver se a aposta vai dar certo.
Comunicação: Pelo seu discurso dá para perceber que você está otimista com o futuro da economia brasileira. Você acha que os nossos filhos encontrarão um país melhor para morar, contrariando as projeções sempre trágicas de futuro?
Amorim: Eu não me considero otimista, mas realista. Como nós estamos tendo essa mudança global, mesmo sendo um país deficiente em educação, infra-estrutura, redução de carga tributária, nós conseguiremos manter um crescimento do PIB de 5% ao ano. Depois de 8 anos morando em Nova York eu voltei há um ano para o Brasil e afirmo que não precisaremos esperar as próximas gerações para ver mudanças, já para nós as oportunidades estão bem melhores. Um dos reflexos disso é que estamos tendo um refluxo de muitos estudiosos e cientistas que foram para os Estados Unidos e agora estão voltando e produzindo o conhecimento aqui no Brasil.
Comunicação: Esse crescimento poderá ocorrer mesmo com a política brasileira não seguindo o desenvolvimento e a prosperidade da nossa economia?
Amorim: Esse é o ponto. Se nós persistimos nos erros de posicionamentos políticos e políticas econômicas dos últimos anos iremos passar a crescer nesse ritmo de 5% que eu falei. Se nós acertássemos a casa, cresceríamos muito mais do que isso.