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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 29/09/09 às 16h34

Crise é coisa do passado

Economista Ricardo Amorim garante que Brasil já saiu da crise e prevê que país pode lucrar com os seus efeitos
Reportagem Cícero Bittencourt
Agência Central Press
“Devido à crise o Brasil é hoje um dos países que está melhor posicionado para aproveitar essa nova ordem econômica mundi
“Devido à crise o Brasil é hoje um dos países que está melhor posicionado para aproveitar essa nova ordem econômica mundi

Há menos de seis meses, todos se perguntavam quais seriam as consequências de uma das maiores crises econômicas e financeiras do capitalismo. O que ninguém poderia imaginar é que, passado um semestre, esses efeitos seriam benéficos, pelo menos para o Brasil. Quem faz esse prognóstico é o economista e apresentador do programa Manhattan Conection Ricardo Amorim.

Formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure dês Sciences Economiques et Commerciales, ou Escola Superior de Ciência Econômicas e Comerciais) de Paris, Amorim trabalha desde 1992 no mercado financeiro como economista e estrategista de investimentos. O Comunicação aproveitou a presença do economista na 9ª Feira de Gestão da FAE e conversou com ele sobre crise, política brasileira e governo Obama. Confira:

Jornal Comunicação: A crise econômica mundial dos últimos meses foi superestimada? Seus efeitos conseguiram ser minimizados por medidas tomadas pelos governos dos países desenvolvidos ou foram superados pelo próprio mercado financeiro?

Ricardo Amorim: A crise econômica dos países desenvolvidos é mais grave do que a maioria se deu conta. Por mais grave, quero dizer que vai demorar anos para se resolver e não meses ou trimestres. Neste sentido, deve haver ainda muita decepção. Não acredito que nos Estados Unidos deva acontecer algo parecido com isso, mas não compro as expectativas de que a economia já começa a se recuperar. Houve uma quebra de confiança. Os consumidores gastavam mais do que ganhavam e eram financiados pelo resto do mundo. Agora os bancos perderam capital e têm medo de emprestar. O resto do mundo apostava que a economia americana era sólida e com perspectiva de crescimento. Hoje não se faz mais essa aposta. Então, não há mais financiamento extra. A crise nos países desenvolvidos foi mais séria do que se imaginava.

Comunicação: O Brasil já pode se considerar 'fora da crise'? Quanto tempo irá demorar para que o ritmo de investimentos pré-crise possa ser restabelecido?

Amorim: O Brasil já saiu da crise e, mais importante, em certa medida, no nosso país a crise aqui teve um caráter muito mais psicológico do que efetivo. As empresas se assustaram com os possíveis efeitos da crise e acabaram cortando produção, o que trouxe a crise para cá. Porém, no final das contas, as pessoas continuaram consumindo, as vendas continuaram a crescer e as empresas tiveram que retomar a produção.

Comunicação: O Brasil poderá tirar alguma vantagem nos investimentos em curto prazo em relação aos países desenvolvidos, já que sofremos menos os impactos da crise?

Amorim: O crédito secou no mundo inteiro e, naquele momento, o Brasil foi afetado, mas isso já acabou. Nos países desenvolvidos, entretanto, ainda há uma falta de crédito. Se você analisar todos os países que se reuniram há algumas semanas no G-20, o Brasil foi o segundo país que teve maior desenvolvimento no segundo trimestre deste ano, atrás apenas da China. A nossa situação está bem mais confortável do que nos países 'ricos'. Os produtos destes países, que são sofisticados e caros, não têm público consumidor e o dinheiro que eles exportavam está sendo encontrado mais barato nas potências emergentes.

Comunicação: No fim das contas, a crise pode ter feito bem para o Brasil?

Amorim: A crise deu uma chancela de que hoje o Brasil é um dos países que está melhor posicionado para aproveitar essa nova ordem econômica global. E esse mundo, que é puxado por China e Índia, que são consumidores de produtos baratos, tem uma grande demanda por commodities, que são os alimentos, os metais, os minerais e o petróleo. Para nossa sorte, somos muitos produtivos nisso tudo. O que o mundo precisa, nesse momento, o Brasil faz bem. O outro lado da história é que nessa nova concepção econômica mundial, a produção e os serviços estão migrando para esses países emergentes, onde o custo é menor, a inflação é mais baixa e os juros, por consequencia, também. Assim, os países que precisam de capital para investir, como é o caso do Brasil, se beneficiam. Ao mesmo tempo, os países que têm muito dinheiro e exportam capital, como os Estados Unidos, países europeus e Japão, acabam saindo perdendo. Nós estamos numa posição em que saímos ganhando dos dois lados.

Comunicação: Esses benefícios só viriam a curto prazo?

Amorim: Não, essa é uma visão para os próximos 30 anos, enquanto ocorrer a migração do campo para a cidade na China e na Índia. Só na China, o Banco mundial estima que nos próximos 10 anos 400 milhões de pessoas irão deixar as lavouras e ir para a área urbana. Assim, as importações de alimento só irão expandir, pois a produção deles irá diminuir e o consumo vai aumentar.

Comunicação: A China tem se tornado um dos maiores parceiros comerciais do Brasil. Mas a maioria dos produtos importados pelos chineses são produtos básicos. Há chances do nosso país passar a exportar para o outro lado do mundo produtos com um maior valor agregado?

Amorim: Eu acho que sim, mas não diria 'infelizmente a gente só exporta coisas de menor valor para a China'. O eixo de consumo do mundo está saindo dos países desenvolvidos e indo para potências emergentes como China e Índia. E com o desenvolvimento desses países, se tem uma coisa que os chineses vão precisar é comida. Eles vão ter que comprar cada vez mais a nossa carne, como frango e boi, e vão precisar da nossa soja para alimentar os pastos. Com isso, os produtos básicos poderão até subir de preço, enquanto os mais sofisticados vão perder mercado e terão que se readequar monetariamente.

Comunicação: Muitos economistas afirmam que a recuperação da economia global se dará em 'W', ou seja, com uma leve retomada que não se sustenta, seguida por nova queda e só então um crescimento significativo. Você acredita nessa hipótese, tanto para os países desenvolvidos, como para os emergentes?

Amorim: Para mim, a recuperação no Brasil será em 'V' (forte aceleração após uma queda acentuada). Nos Estados Unidos e na Europa, também não acontecerá em 'W'. Isso pressupõe que a primeira retomada será mentira e a segunda, verdade; mas, para mim, a segunda também será mentira. Creio que nesses países a recuperação será em 'L' ou talvez como um 'WWW'. A recuperação sustentável dos desenvolvidos levará anos para acontecer. Eles terão que contrair o consumo – em particular os EUA – e, por conta disso, o crescimento não será sustentável. Haverá um ou dois trimestres bons e depois uma piora. É o que aconteceu com o Japão nos últimos 25 anos. Não será preciso demorar tanto, mas não é algo que se resolve em poucos meses. Na Europa, a diferença é que há menos problemas de excesso de consumo; por outro lado, lá havia uma bolha imobiliária maior do que a americana, o que torna a crise pior no curto prazo (um ano a um ano e meio). Acredito, porém, que o continente sairá antes desse marasmo do que os EUA.

Comunicação: O senhor morou muitos anos nos Estados Unidos e chegou a prever a crise mundial. Como o senhor avalia o governo Obama? Ele tem conseguido corresponder às expectativas geradas pelo mundo inteiro em cima de seu governo?

Amorim: Não, ele não tem conseguido, mas acho que ninguém conseguiria. Nem o 'Senhor', já que você falou nele, conseguiria corresponder às expectativas que o mundo tinha em cima de Obama. Todo governo quando começa é cercado de expectativa, mas esse mais do que qualquer outro. Primeiro, porque ele se seguiu do pior governo da história americana, que foi o governo Bush. Em segundo lugar, porque ele pegou a pior crise da economia americana, desde a Grande Depressão. O desafio era descomunal e impossível de ser completamente resolvido. Na parte econômica eles têm patinado, mas não acho que a crise seja culpa deles, ela era inevitável. Talvez nessa parte o governo Obama esteja deixando um pouco a desejar. Em contrapartida, ele tem feito um excelente trabalho na melhora da política externa americana. No mínimo, eles estão mais simpáticos.

Comunicação: No programa Manhattan Conection, todos os apresentadores dão o seu pitaco em praticamente todos os assuntos pautados no programa. Falando um pouco de política brasileira, como você avalia o atual cenário político nacional pré-eleições de 2010? Você acha que as eleições de 2010 serão as mais disputadas desde Collor?

Amorim: A eleição está sim muito aberta, mas acredito que irá acabar sendo polarizada entre o candidato do governo e o candidato do PSDB. Nomes como o de Ciro Gomes e Marina Silva, apesar de todo o marketing pré-eleitoral, não vão ter força para abocanhar um segundo turno. Mas, claro, que é muito cedo para ser taxativo. São estimativas, apenas.

Comunicação: O Brasil se envolveu em uma disputa diplomática delicada na questão com Honduras. Você acha que o governo brasileiro tem se exposto muito ao defender e abrigar o ex-presidente Manuel Zelaya na embaixada brasileira? Até que ponto essa defesa é relevante para os interesses nacionais?

Amorim: Essa situação é uma soma de três fatores. O primeiro deles é que os Estados Unidos hoje estão envolvidos com tantas questões que eles, que seriam o árbitro natural desse impasse na América Latina, resolveram não comprar mais uma briga. Isso criou um vácuo, que tinha que ser preenchido por alguém. Argentina, México e Venezuela, possíveis candidatos, passam por momentos internos complicados. Soma-se a isso, o fato de que o governo Lula tem ambições de se posicionar como um grande líder regional. E o último aspecto é que o governo acredita que o golpe e o presidente interino em Honduras não vão se sustentar. Então, o governo acredita que apoiar fortemente o presidente anterior, que para eles irá voltar ao poder, fará com que abra uma janela de gratidão e o Brasil possa fazer ótimos negócios quando Zelaya voltar ao governo. Vamos ver se a aposta vai dar certo.

Comunicação: Pelo seu discurso dá para perceber que você está otimista com o futuro da economia brasileira. Você acha que os nossos filhos encontrarão um país melhor para morar, contrariando as projeções sempre trágicas de futuro?

Amorim: Eu não me considero otimista, mas realista. Como nós estamos tendo essa mudança global, mesmo sendo um país deficiente em educação, infra-estrutura, redução de carga tributária, nós conseguiremos manter um crescimento do PIB de 5% ao ano. Depois de 8 anos morando em Nova York eu voltei há um ano para o Brasil e afirmo que não precisaremos esperar as próximas gerações para ver mudanças, já para nós as oportunidades estão bem melhores. Um dos reflexos disso é que estamos tendo um refluxo de muitos estudiosos e cientistas que foram para os Estados Unidos e agora estão voltando e produzindo o conhecimento aqui no Brasil.

Comunicação: Esse crescimento poderá ocorrer mesmo com a política brasileira não seguindo o desenvolvimento e a prosperidade da nossa economia?

Amorim: Esse é o ponto. Se nós persistimos nos erros de posicionamentos políticos e políticas econômicas dos últimos anos iremos passar a crescer nesse ritmo de 5% que eu falei. Se nós acertássemos a casa, cresceríamos muito mais do que isso.



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