João Gustavo Loureiro, 19 anos, Brunno Partica da Silva, 25 e Pedro (nome fictício), 20, são estudantes de Medicina de diferentes instituições de ensino. Além disso, os três tem como ponto em comum terem sofrido, e ainda sofrerem, com as grandes dificuldades que enfrentam durante a graduação. Eles continuam nos cursos, mas tiveram que buscar tratamento psicológico para aguentar as situações do início da vida acadêmica. A pressão e o estresse a que os alunos de Medicina são submetidos não é novidade e, em certos momentos, são considerados exagero por pais e colegas. Carga horária intensa, ritmo puxado das aulas e grande quantidade de matérias são agravantes nos quadros psicológicos dos alunos. O psicólogo Clovis Amorim afirma serem três as variáveis que levam alunos de Medicina à situação: a auto cobrança, as relações acadêmicas e a obrigação de ter que saber o conteúdo todo. “A Medicina é uma profissão que não tolera erros. O aluno quer ser sempre o melhor”, afirma.
O complicado início
Quando João Gustavo iniciou o curso sentia dificuldades, o que resultou em notas baixas. Teve de recorrer ao grupo de apoio de sua faculdade e descobriu que sofria de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Segundo ele, quando o aluno não apresenta um bom desempenho em Medicina, os colegas geralmente o excluem. Ele está retido no segundo semestre, devido às disciplinas em dependência, e se sente um estranho. “Para os alunos da turma é como se eu fosse um perdido que chegou e, também por estar em dependência, já me tratam de forma diferente”, comenta. Amorim explica que isso acontece porque entre estudantes de Medicina a competitividade é alta. “A marginalização de quem tira notas baixas ocorre porque há um interesse nos estudantes de se envolver apenas com os melhores”, afirma.
João Gustavo, estudante de Medicina com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.
Pedro passou por uma situação parecida. Ao entrar na faculdade, sentiu a diferença gritante entre o modo de estudar para o vestibular e para a faculdade. “No cursinho a matéria é dada; na faculdade você tem que correr atrás de tudo e eu não consegui me adaptar”, comenta. Além de tirar notas baixas, Pedro também fez amizade com um colega ‘meio excluído’ pela turma e, assim, também foi marginalizado. O fato de não se adaptar no início, o mau desempenho nas avaliações, o ritmo de estudos puxado e a exclusão que sofreu por parte da turma levaram-no à depressão. O estudante chegou a trancar a faculdade por um ano, pois o estresse gerado nos primeiros anos o desmotivaram a continuar. “Quando tranquei, fz teste vocacional e um acompanhamento com psicólogos durante três meses e percebi que o que eu queria era Medicina mesmo”.
Com a mesma dificuldade que passou ao sair do pré-vestibular, Brunno Partica da Silva sofreu no início da graduação, até conseguir se adaptar. “Na faculdade, o estudo é completamente diferente, ainda mais em Medicina”, afirma. O estudante teve que fazer tratamento psicológico durante o primeiro período e se sentia angustiado ao pensar que os colegas de turma poderiam ter mais conhecimento que ele. “Já pensei em desistir porque achava que todos sabiam mais, que eu poderia reprovar em alguma matéria e por medo do futuro, de não conseguir ter uma vida tranquila”, afirma. Ele acredita que o que pode causar dificuldades e levar os alunos à desistência são os dois primeiros anos do curso, que não são verdadeiramente Medicina, pois se estuda apenas o pré-clínico. “Isso une a chatice das matérias ao desinteresse do aluno e à necessidade de estudar”.
As consequências
Casos como os citados acima são muito comuns, ao contrário do que se pode imaginar. Segundo dados do Grupo de Apoio Multidisciplinar ao Aluno (Gama), da Faculdade Evangélica do Paraná, o curso de Medicina é o mais atendido. São 523 alunos matriculados no curso. Só no segundo semestre de 2008, foram feitos 236 atendimentos de estudantes de Medicina. A pesquisa mostrou que membros do terceiro período são os que mais procuram ajuda, pois estão em fase de transição, e totalizam 47% de atendimentos.
O esgotamento é uma das consequências que os transtornos podem acarretar, além do desgaste emocional, despersonalização - quando o aluno começa a tratar pessoas como coisas - e a propensão ao abandono, revelada na falta de realização e prazer em estudar Medicina. Consequências físicas como úlcera, gastrite e doenças de pele também ocorrem e, em escala bem menor, a tentativa de suicídio. “Claro que o suicídio não é frequente, mas existem casos e é visto como uma alternativa para escapar do sofrimento”, afirma Amorim. Como nos casos descritos, a depressão também está na lista. “É fato comprovado que a incidência de depressão em alunos de Medicina é maior que em outros cursos”, comenta.
Clovis Amorim, psicólogo.
Patrícia Helena Napolitano, psicóloga que trabalha com assistência aos alunos no Gama, afirma que recebe estudantes com problemas variados. “Dificuldades no namoro, depressão, uso de drogas, álcool, bipolaridade. Aqui a gente vê de tudo”, diz. Ela conta que os estudantes de Medicina chegam ao grupo de apoio espontaneamente ou trazidos por colegas e professores, movidos por fatores específicos, como depressão, tristeza e angústia. “O principal problema é que eles entram muito novos e a exigência é muito alta. O fato de apenas decorar a matéria (e não entender) e ter que lidar de perto com a morte também são complicadores”, afirma.
Possíveis soluções
Para Amorim, casos como estes acontecem também porque o curso de Medicina ainda é muito técnico. Segundo ele, disciplinas como filosofa e teologia deveriam ser agregadas à grade curricular para melhor desempenho e formação dos futuros médicos. “O curso deveria complementar a formação técnica com uma formação humanística”, opina.
O psicólogo aponta alguns três caminhos como possibilidades de solução desses problemas. A criação de grupos de apoio ao aluno em todas as universidades é um deles. “Desse modo, os alunos podem ter quem recorrer quando se encontrarem em situações delicadas, como essas”, diz. Napolitano conta que todos os alunos que procuraram apoio retornam para agradecer e contar como estão. Ela, juntamente com outros psicólogos e pedagogos, ouve as angústias dos estudantes e tenta ajudá-los a decidir o melhor caminho a seguir. “Boa parte entende que é apenas uma crise de transição e decide continuar no curso”, completa.
Outra forma de contornar os problemas no curso seria a faculdade disponibilizar acesso a locais descontraídos, onde o aluno pudesse se sentir bem. Por último, seria necessária a reorganização dos currículos acadêmicos. “Tirar a ênfase do mecanismo do ensinar e passá-la ao mecanismo do aprender, mudando os programas de aprendizagem e fazendo com que os alunos não apenas decorassem as matérias”.