Aos 19 anos, M.S. foi agredida pelo marido. Mesmo quando as lesões eram aparentes, criava desculpas para omitir da família. Só conseguiu admitir quando a irmã C.S. foi até sua casa acompanhada da polícia. Desde então, há 11 anos, ela busca tratamento psiquiátrico, mas o quadro de depressão permanece. A irmã lamenta que a recuperação seja um processo tão doloroso. “Sua característica introspectiva a impede de se abrir com amigos e parentes e ela fica sofrendo sozinha”. Ambas preferem não revelar seus nomes e evitam continuar durante muito tempo no assunto. A realidade delas é semelhante a de muitas mulheres, que passam um longo tempo em busca da recuperação psicológica por conta das situações de violência doméstica.
A Lei 11.340/06, que é mais conhecida como Lei Maria da Penha, completou três anos em vigor no dia 22 de setembro. É ela que dá o amparo legal para que as vítimas de abuso possam denunciar e ver seus agressores punidos. A norma garante o afastamento do companheiro e a assistência jurídica, financeira e psicológica para a mulher. Entretanto, este suporte fornecido pela Constituição Federal não é garantia de recuperação completa.
O fator complicador
A legislação oferece um mecanismo de apoio às vitimas de agressão, mas a estrutura social que as mantém presas aos relacionamentos conflituosos e patológicos permanece. A questão psicológica é altamente influente no momento de agir para mudar de vida. “Existe um medo de assumir que errou na escolha de um companheiro, um temor por agressão física, além da questão social ou mesmo familiar”, explica o psicólogo Dionísio Banaaszewski. Segundo ele, a dependência financeira e emocional é também fator relevante que impede a mulher violentada de fazer um Boletim de Ocorrências policial e levar o caso ao judiciário.
Há mulheres que ao primeiro sinal de abuso, seja ele verbal, psicológico ou físico, se apoiam na Lei Maria da Penha para denunciar o agressor. Entretanto, não são estas que compõem o quadro de maior preocupação das políticas públicas, pois geralmente são independentes, com profissão estável e boa estrutura familiar, que se recuperam com maior facilidade e rapidez do trauma. “É difícil traçar um perfil da mulher agredida, pois cada caso é muito individual, mas geralmente são pessoas que vêm de uma estrutura familiar já problemática, que vivenciaram o alcoolismo ou violência dentro de casa”, conta Ivalnete Rodrigues, psicóloga do Centro de Referência em Atendimento a Mulheres em Situação de Violência, de Curitiba.
Nestes casos de brutalidade constante por parte do companheiro, a mulher que se cala após a primeira ocorrência entra num jogo “bola de neve”, como é o caso de M.S., mencionada anteriormente. De acordo com Ivalnete, para evitar crítica dos familiares e da sociedade, elas tendem a omitir e isolar-se. Consequentemente, ao reduzir as relações sociais, a possibilidade de visualizar uma realidade além daquela que estão vivendo torna-se ainda menor. Nesse processo a autoestima é reduzida, a sensação de impotência e apatia perante a vida cresce e a elas acabam emocionalmente fragilizadas. “É importante para a mulher resgatar as relações sociais, ser reinserida na sociedade, pois a dominação a que ela está submetida é construída e tem algo na psique que a obriga a permanecer nesse relacionamento”, complementa a psicóloga
Depressão: causa ou consequência?
O processo de recuperação do trauma da agressão depende da estrutura psíquica de cada pessoa. “É uma reestruturação de toda sua identidade. Tem que se mexer em todos os componentes que acabam influenciando dentro da própria personalidade. Não adianta somente tirar a dor, tem que resolver o problema”, ressalta Banaaszewski.
É comum a mulher apresentar depressão após um período de exposição constante à brutalidade. No entanto, a psicóloga Ivalnete explica que, muitas vezes, a depressão diagnosticada como consequência do período de agressão e isolamento é, na verdade, anterior ao abuso. Neste caso, é um fator que resulta na escolha por determinado tipo de parceiro ou na tolerância aos primeiros atos de violência verbal e psicológica. “O agressor não busca mulheres ativas e independentes, mas sim aquelas emocionalmente fragilizadas e dependentes”, afirma a especialista.
A busca por ajuda
No Centro de Referência, o acompanhamento psicológico visa resultados mais imediatos, uma vez que o número de sessões é limitado. Para os casos mais graves, em que a mulher corre perigo em domicílio, existe a alternativa de hospedar-se por até 90 dias na Pousada de Maria, que acolhe as vitimas de violência doméstica e seus filhos – meninos apenas até os 12 anos de idade.
“Algumas pacientes vão em duas ou três sessões e nunca mais aparecem”, conta Ivalnete. Já para os casos que necessitam de acompanhamento por mais tempo, as mulheres são encaminhadas a outros profissionais para dar continuidade ao tratamento e reestruturar tanto seus valores e padrões de pensamento, quanto a organização de suas vidas.
Oficinas do Fórum de Proteção à Mulher
Av. Nossa Senhora da Luz, 13 - Todas as terças-feiras, às 14h.
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Centro de Referência em Atendimento a Mulheres em Situação de Violência
Rua Desembargador Hugo Simas, 2603
Tel.: (41) 3338-1832
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Mulheres que Amam Demais Anônimas (Mada)
Rua 24 de Maio, 95 – Centro - Igreja Bom Jesus – sala térrea
Sábado das 17h às 19h ou Quartas-feiras, das 19h às 21h, na sala 15
Tel.: (41) 3343-7884 - E-mail: grupomadacuritiba@uol.com.br
Leia mais sobre a aplicação da Lei Maria da Penha na reportagem Em defesa do ‘sexo frágil’.