Uma boca enorme no meio da Praça Rui Barbosa canta canções de amor populares - mas sua voz está emudecida. Na frente, uma floresta de microfones. Pessoas se aproximam e assistem o que está acontecendo, algumas começam a cantarolar no chamado 'Karaoke Coral'. Não! Não se trata de nenhum conto fantástico. A cena descreve a intervenção da artista francesa Camile Henrot para o Ano da França no Brasil. Os curitibanos receberam bem a projeto que funcionou das 17h30 às 22h30 da última quarta-feira.
A boca é uma imagem gigante em uma tela led. Caixas de som acopladas propagam uma versão instrumental das músicas. Entre elas, 'Carinhoso' (Pixinguinha), 'É o Amor' (Zezé di Camargo) e 'Chega de Saudade' (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Segundo a produtora executiva, Celeste Fernandez elas foram selecionadas por meio de pesquisas realizadas na rua e no site www.karaokecoral.com , que perguntou quais canções as pessoas sabiam de cor. Das mais votadas, 15 foram escolhidas pela artista. O evento aconteceu na Praça Rui Barbosa por ser a mais frequentada da cidade. Diariamente 250 mil pessoas transitam pelo local.
Impressões
A intervenção cumpre um dos papéis que se pode esperar da arte: o estranhamento. Pelo menos no início. Logo depois, o compartilhamento de uma memória comum une os participantes. Está alcançado o objetivo que a artista queria. Pessoas de todas as classes, idades e estilos só se diferenciavam quanto à sua desinibição na frente dos microfones. Alguns roubam a cena por realizarem verdadeiras performances.
A substituição da legenda tradicional dos karaokês pela boca tem relação com a pergunta da artista, presente na obra “o que fica das canções na memória do público?”. “Faz parte justamente do processo de resgate da memória das pessoas”, afirma Celeste. A produtora diz que a interação, e até mesmo a falta dela, é muito importante neste processo. “Se ninguém interagir, a obra mostra um símbolo da impotência: uma boca que articula sem som e demonstra que a canção foi esquecida”. Para a artista, a música popular – aquela que tocou muito nas rádios, por exemplo, só sobrevive se é decorada.
Os equívocos são inevitáveis e fazem parte da obra. “Quando erros ou hesitações (bem prováveis) acontecem, se escuta como uma versão degradada, danificada, um remix democrático”. A aposentada Almeri Gramazi, sublinhou essa dimensão do evento. “É legal porque não há preconceito. Até as pessoas mais humildes têm a oportunidade de conhecer a música e sair dessa inibição e timidez que guardam dentro delas”, finaliza.
Entretenimento e emoção
“A música fala a linguagem da alma”, diz a aposentada sobre a relação afetiva das pessoas com a música. Para o segurança Ailton Ferreira Bruno, muitas passagens na vida são marcadas por canções. “Quando você tem tempo para escutar uma música, ela toca no fundo da alma, no seu íntimo”, explica. O garçom Marcelo Teclak tem a mesma opinião. “As músicas tem a ver com momentos. É um jeito de a pessoa guardar aquilo com ela”, declara Teclak. A atendente escolar, Bernardete do Rosario, acha a instalação divertida e diz que a música marca tanto nos bons e maus momentos. “Ah, eu vou chorar”, brinca o geógrafo Fernando Couto, ao lamentar que a intervenção seja realizada em um único dia do ano.
'Karaoke Coral' teve sua estreia nacional na capital paranaense. No dia 9 de outubro (sexta) chega em Porto Alegre.
Reconhecida internacionalmente por suas criações em video-arte, faz parte do circuito cultural francês desde o ano 2000. Também expôs obras em Tóquio, Seul, Bruxelas e Genebra. Seus filmes foram exibidos em inúmeros festivais ao redor do mundo. Veja mais informações e alguns de seus outros trabalhos no site www.camillehenrot.com